Consciente ou inconsciente, Dalton Trevisan desfralda, imensa, uma brandeira tecida penosamente por Wilhelm Reich, o pensador e psicólogo austríaco que pregava a revolução do orgasmo, a liberação da couraça que nos oprime a todos, urdida pela Igreja, pelo ensino, pela sociedade castradora, pela hipocrisia vitoriana. Uma hipocrisia que não é privilégio, ai de nós, apenas de uma época na Inglaterra nem das brumas londrinas em que Jack, o Estripador, mutilava as prostitutas que capturava nos becos e vielas nos bairros “do vício e da perdição” da capital inglesa. Somos todos prisioneiros da nossa sexualidade reprimida, a sexualidade que é, como a literatura, mantida em camisa de força em todos os regimes políticos tirânicos que vão do fascismo mussolinianos-franquista-nazista ao puritanismo calvinista da Rússia bolchevista, da China maoísta. Depravação, solerte forma de minar as bases da sociedade! Urram todos os que temem a própria liberação, encapuzados e sedentos de novas Inquisições, novas torturas, novos campos de concentração, de Auschwitz ao Gulag.
O vibrador à pilha, as revistas pornográficas, as posições insólitas, a dimensão, cor e volume dos órgãos sexuais masculinos, as calcinhas, o feitichismo, a masturbação, a impotência andam de mãos dadas com duas companhias inesperadas. Os defeitos físicos – o mau hálito, a perna paralisada, a bronquite asmática, a dentadura, o bigode que fede a cigarro e cerveja, as fissuras causadas na mulher. E a busca alucinada, suicida, de um príncipe ideal que venha resgatar aquelas multidões de Gatas Borralheiras ou Cinderela adormecidas à espera de seu beijo redentor, guardando escondido, em vão, o outro pé do sapato de cristal de um baile no palácio que só existiu na imaginação romântica, idealista, delas. Um homem que fosse não apenas um macho, mas tivesse ternura, caráter, generosidade: é sonho irrealizável? É o sonho se desmorona, de degrau a degrau, em pesadelo. Dos muitos amantes egoístas, fracos, eticamente impotentes, embora potentíssimos e afetados de priapismo, as Cinderelas resvalam par ao borde. Decaem no simulacro patético, heróico, hilariante da cópula ideal com velhos cambaleantes mas que deixam as duas notas em ciam da mesinha de cabaceira e não beijam na boca, sequiosos de mentiras gritadas de que “você é que é o grande macho da minha vida! Sou só tua. Inteirinha!”.
Há uma surpreendente correspondência de abordagens – não de diagnósticos ou conclusões – entre a criação literária de Dalton Trevisan e o teatro de Nélson Rodrigues, ambos marcados a fogo pela obsessão pelo sexo, sucedâneo ineficaz do amor. O coito como perdição espiritual, o horror de mesclar a família com o orgasmo, a ameaça do inferno eterno, a prostituição, o incesto, a busca de terreiros milagrosos, de centros espíritas que possam salvar suas vítimas desse “encosto” diabólico. Todos os lugares- comuns da música popular brasileira cantada pela velha guarda, Nélson Gonçalves, Dalva de Oliveira, desfilam: nunca deixei faltar nada em casa; você não veio virgem pra as minhas mãos; eu e que te fiz mulher, lembre-se: minha pobre mãe, mártir do fogão e do tanque, o que diria se me visse assim?
O jornal, é óbvio, não pode acolher todas as transcrições mais genuínas, porque mais ousadas, de um livro deste tipo: este é que contém a essência da qual a crítica literária pode apenas – e mal – espremer e exprimir um resumo. Exemplo: os capítulos finais, de uma absoluta mestria de estilo. Como um disco quebrado ou um rolo de filme que girasse infinitamente, as situações no bordel se repetem e é o sinete inconfundível do grande escritor que é Dalton Trevisan que lhe permite a genial união do mais patético com o mais hilariante. O leitor gargalha entre lágrimas de comiseração. E ficam os sinais misteriosos, propositadamente não esclarecidos: a polaquinha é mãe do nenê que ela pede a Deus que não chore enquanto atende a seus “clientes” apressados? Fenecida a sua fugaz sedução de jovem, ela se tornará como a cafetina “tia Olgas”, com seu robe negro e seus chinelinhos de pompom vermelho a proclamar que “a mulher foi feita para servir o homem”?
Com Dalton Trevisan, se fundem as tradicionais máscaras do riso e do pranto que ornam os cartazes de teatro. O riso é o pranto. Nenhuma salvadora filosofia existencialista poderá separá-los. Nenhum estoicismo poderá consolar esse desespero de vivermos, perplexos e paralisados, dentro do absurdo, da ignomínia, da injustiça, da lei selvagem do mais forte. Não há milagres, não há um “mais além “, um depois da morte”. Não há Deus, é óbvio, pois aqui é o deserto final onde todas as veleidades de vontade, amor, solidariedade e calor humano morreram. Ou quem sabe nunca vicejaram, mortos pelo sol escaldante do desamor.
RIBEIRO, Léo Gilson. “Trágica hilariantes, patética”. O Estado de São Paulo, S. Paulo, 10 ago, 1985.
Pão e Sangue
0 A última obra de Trevisan, Pão e Sangue, enfatiza a coerência de um projeto criativo que o autor vem desenvolvendo pacientemente em mais de 30 anos de atividade literária. Passando ao longo dos modismos da última década, Trevisan manteve-se fiel a si mesmo e ao seu compromisso com a arte. Não fez literatura documental ou jornalística nem literatura ensaística. Fez apenas ótima literatura, que podemos fruir em todos os vinte e um livros que ele produziu regularmente, a começar por Novelas nada Exemplares, publicado pela Editora José Olympio, em 1959, e que o tornou nacionalmente conhecido. Mas devemos lembrar ainda os anos de preparo e exercício – os anos da revista Joaquim dos idos de 40, e, na década de 50, a elaboração dos chamados “cadernos de cordel”.
Desde então, ele se tem dedicado a aprimorar o gume do seu estilo, tornando-o cada vez mais apto ao corte preciso na consciência do leitor. Atitude que se apreende em todos os detalhes desta obra, coisa da perfeição, cujo objetivo é informar o máximo pelo mínimo minimalista que sempre foi sua, e parece ser o ritmo preferencial da arte mais atual.
Mas comecemos pelo título. Aliás, é só atentarmos para alguns deles: o já citado Novelas nada exemplares. O Vampiro de Curitiba, de 1965, O rei da terra, de 1972, A Trombeta do anjo vingador, de 1977, ou ainda Virgem louca, loucos beijos, de 1979, para termos um seguro indício de uma particular visão de mundo transformada em texto. Já nesta escolha o autor brinca, parodia, dialoga e/ou contesta os mitos que subjazem a nossa herança cultura e a nossa herança literária e religiosa. Pão e Sangue não foge à regra, antes a leva às últimas conseqüências, remetendo a um instigante cruzamento de registros, inferências ao estabelecer um mordente diálogo com duas expressões de diferentes campos semânticos: “pão e circo” e “pão e vinho”. Na primeira perspectiva ideológica, deslocando o sentido dos sangrentos festivais com que se distraíam a miséria e a indolência dos libertos da antiga Roma, metaforiza e focaliza, nos vários textos-flashes, a vida reduzida a um triste espetáculo de violência a alimentar o “moto-perpétuo” do absurdo existencial. No outro plano, o ritual do amor e morte, repetido até a náusea, dessacraliza o sacramento cristão da comunhão ritualística. Aqui, a morte, a beber o sangue do outro, é o gesto natural que acompanha a devoração do alimento em busca da sobrevivência. Morrer ou matar parece ser o terrível dilema em que se debatem as personagens desde o livro doloroso que reduz toda metafísica à negatividade.
Pão e Sangue apresenta em seu corpus uma concentração de temas e situações. Dos seus vinte e dois títulos, quatorze correspondem a textos em que uma personagem ou, em alguns casos, duas ou mais personagens contam a um ouvinte sempre impassível a sua versão de um fato de violência, assassinato ou estupro. No tocante às relações com o real, pela sugestão contida no vocativo “doutor” pelo tom de confissão ou depoimento, os contos parecem apontar a dissecação de dramas que alimentam ou entulham as delegacias.
Tecnicamente a experiência nos lembra um ponto magistral – “De baixo da ponte preta”, de O Vampiro de Curitiba, onde o registro de várias vozes dos envolvidos ou testemunhas de uma violência sexual são pontuados por um registro jornalístico. À exceção de “Estrela de Saravá”. “Pão e Sangue” e “O arrepio no céu da boca”, este último ambigüizado pela ironia de um narrador que vê de viés os equívocos amorosos do velho João, os demais textos comentados apresentam total ausência de uma voz narrativa mediando os fatos. Tal organização lhes dá um tom de indiferença moral ou ausência de avaliação ideológica. No entanto, não te fies na aparência, credo leitor! O que se constata aí, na verdade, é a habilidade com que o artista manipula, pelo avesso, os recursos da persuasão. Para melhor falar de uma sociedade essencialmente propensa ao rime e às paixões, ele atribui às personagens uma linguagem ideologicamente comprometida. Na perspectiva vislumbrada por esta estilização da linguagem, João, Maria ou Tito são prejulgados e conformados em estreitos limites, verdadeiro beco sem saída onde não importa apontar o criminoso. Porque todos o são ou só há vítimas.
Mas se no plano ideológico um texto espelha a angústia e a negação do outro, no plano formal Pão e Sangue se multiplica como nenhum outro do autor. Passando do conto curto para o haicai, Trevisan atinge a síntese e a essencialidade expressiva que declaradamente têm sido o seu objetivo maior. Os trinta haicais deste livro conquistam um espaço que era tímido nos livros anteriores, onde se manifestavam também sem serem enunciados. Apontamos, neste sentido, a experiência de refazer o enredo até miniaturizá-lo, quase haicaizá-lo nos capítulos finais de A Polaquinha. Despojados, os haicais de Trevisan tem algo de irônico e figurativo e uma textura poética que os fazem ressoar na sensibilidade do leitor. Um exemplo:
“Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:
João, Fale comigo, João.
Geme fundo, abre o olhinho vazio, soluça um palavrão.
Bruuuxa… Diaaaba…
Ai que susto. Graças a Deus”. (p. 39).
E outro:
“- Teu seio mais lindo – já viu dos gatinhos brancos bebendo leite no pires” (p. 89)
Numa experiência mais radical, o autor viaja do universo da prosa para o universo da poesia, em busca de novas formas de realização estética. “Minha vida meu amor” e “Querida amiga” expõem a triste condição feminina numa interpretação poética que retira da vida poesia. Já em “A balada do vampiro de Curitiba”, Trevisan reelabora os textos “O Vampiro de Curitiba” e “Incidente na loja”, ambos de O Vampiro de Curitiba, dando-lhes umas novas composições formais, optando pela síntese e por um novo ritmo, que se organiza no recorte das orações transformadas em versos. Monologando, Nelsinho passeia pelas ruas de Curitiba o seu destino de conquistador em busca das vítimas de paixão. Em “Canção de exílio” – paródia das paródias – o autor retoma Curitiba, cidade ambigüizada pelo amor e pelo ódio, espaço único de todas as suas viagens literárias.
Enfim, para os leitores que já conhecem Trevisan, Pão e Sangue é, como já dissemos anteriormente, a certeza de uma excelente leitura. Para os iniciantes é a perspectiva de um fascinante encontro com a arte da vida.
BERNARDI, Rose Marye. “Pão Sangue – um novo encontro com a arte de Dalton Trevisan”. Nicolau, 29 jun., 1988.