— Portal Acadêmico —

O Vampiro de Curitiba

Dalton Trevisan

Crítica, obra e fortuna literária do mais enigmático contista paranaense.

Profa. Dra. Sueli de Jesus Monteiro

Apresentação

Este portal nasceu após uma pesquisa para a dissertação de mestrado, inicialmente voltada para a coleta e análise da fortuna crítica do contista paranaense Dalton Trevisan.

Com este portal pretendo facilitar aos interessados pela obra literária de Dalton Trevisan o acesso a uma sistematização por meio da qual possam inteirar-se das principais constantes que nortearam a recepção crítica da obra do escritor curitibano.

O Vampiro de Curitiba

Dalton Trevisan é reconhecido como um dos maiores contistas vivos da literatura brasileira pela maioria dos críticos do país. Apesar disso, é avesso a entrevistas e exposições em órgãos de comunicação social. Por esse motivo recebeu a alcunha de Vampiro de Curitiba, nome de um de seus livros, e a minha inspiração para o nome deste portal.

A Tradução e a Crítica

Você vai acessar não apenas os momentos excepcionais do discurso sobre Dalton Trevisan, mas também aqueles momentos que, repetindo-se, estabeleceram-no como autor digno de nota e isolaram, do corpo de seus textos, os traços que passaram a defini-lo criticamente.

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— Acervo —

Espaço Trevisan

Obras

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111 AiS

Nada neste livro é comum. De um mundo aparentemente sem sobressaltos, o autor curitibano faz surgir personagens cujas histórias são marcadas pela crueldade e pelo patético.

Nada neste livro é comum. De um mundo aparentemente sem sobressaltos, o autor curitibano faz surgir personagens cujas histórias são marcadas pela crueldade e pelo patético.

111 AiS reúne 111 dos célebres minicontos de Dalton Trevisan, todos sem título e ilustrados, e cuja grande característica é um olhar sem ilusões, trágico e tragicômico sobre o gênero humano. Um livro cuja densidade é inversamente proporcional a economia de palavras.

Data da primeira publicação: 2000
Paginas: 128
Autor: Dalton Trevisan

20 Contos Menores

Foi de uma infelicidade muito grande da editora dar o titulo a esta antologia, e não entendemos como pôde o autor aceitá-lo. Obra menor, todo mundo sabe e não há conotação diferente, é aquele, dentro de um conjunto, que logrou menos realização artística, a que ficou aquém do melhor e até mesmo do médio – embora não necessariamente má. Assim, incompreensivelmente, oferece-se à venda um produto – o livro – que já vem desrecomendado a partir da própria etiqueta, pois se supõe que o consumidor – aqui como em relação a qualquer produto – esteja sempre interessado no melhor possível Tratar-se-ia de um original assomo de sinceridade por parte de editor/ e ou autor? Abrindo-se o livro, constata-se que ele se pretenda uma “antologia escolar”. Assim, a hipótese mais viável é que se pensou em fazer um trocadilho, brincadeira anticomercial e, convenhamos, de extremo mau gosto, mesmo porque não cabe ao editor ou ao autor determinar o que em sua obra seria menor ou maior.

Isto posto, pergunta: afinal, estes 20 contos de Trevisan estão entre os maiores ou os menores? Ou saberíamos responder que há uns e outros. Afirmação extremamente subjetiva, tentaremos justificá-la. A questão é tanto mais difícil quando se sabe que qualquer texto do autor é sempre uma lição de escrever bem, dentro da sua proposta estética de descarnar a linguagem até o caso. Neste sentido, não há realmente desníveis.

A nosso ver a arte de Trevisan se apequena quando ele torna ainda mais fechado e concentracionário seu já pequeno mundo, do que seria um bem exemplo o conto “Uma veia para Dario”. Nele, o personagem sofre um mal súbito e morre na rua. Não só ninguém o socorre, como não se esboça um único gesto de piedade. O corpo é visto como mera curiosidade, sem falar que vai sendo saqueado, até ser despojado das próprias roupas. O autor compraz a tal ponto na impiedade que esta chega a se tornar gratuita. Outro conto, “Orgulho de Mulher”, em forma de carta, é uma verdadeira exposição, quase sem pretexto, de abjeção, de rebaixamento de uma mulher ante o seu homem. É claro que “não se faz boa literatura com bons sentimentos”, como dizia Gide. O problema não é moralista. A questão é que Trevisan, quando por seu niilismo, nega a possibilidade de redenção ou até mesmo a simples esperança a seus personagens, já que nada os pode salvar – vida “Maria pintada de prata”, “Iaiá por que choras? “ e o terrível “Clínica de Repouso – ele adota uma visão imobilista do mundo, em primeiro lugar, o que implica uma falsificação da realidade; e em segundo , ao perder uma das dimensões do homem, ele cai num reducionismo, o empobrece, o torna chapado.

Inversamente, quando ele enseja uma abertura do seu universo fechado e resgata a visão niilista através de um toque de ternura, como em “O noivo”, ou do humor (que é outra forma de se exercer o desespero), como em “Caso de desquite” e “Canário, broca e valsinha” ou na obra-prima que é “O noites mágicas de circo”, aí temos, a nosso ver, o artista em sua plenitude, utilizando o admirável instrumental de sua linguagem para o aprofundamento da condição existencial de seus seres – o homem não é pura imanência: por mais esmagado que seja, ele sempre há de Ter ao menos um anseio de transcendência.

O critério aqui adotado, de se tomar dois contos de cada um dos dez livros do autor já publicados, fez com que ficassem de fora contos que a nosso ver os jovens não deveriam deixar de conhecer, como “Pedrinho” e “Luz na varanda”, para ficar em dois exemplos. Por outro lado, na medida em que se pretendeu “escolar”, a antologia não pode explorar a linha de contos eróticos, onde Dalton Trevisan atingiu alguns de seus melhores momentos e, em consequência, alguns dos melhores momentos da moderna literatura brasileira. Quem sabe a Record, ou outra editora, não nos dará em breve os “20 contos maiores” de Dalton Trevisan?

MACHADO, Rubem Mauro. “Quem decide o que é “menor” e o que é maior?” O Globo, Rio de Janeiro, 4 maio, 1979.

Publicação: 1979
Editora: Record
Paginas: 20
Autor: Dalton Trevisan

234

Trevisan esquarteja a narrativa em ‘234’

FERNANDO DE BARROS E SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Assim como a poesia de João Cabral, a força da narrativa de Dalton Trevisan está ancorada na repetição, na recorrência infernal de uma dicção muito específica e de alguns poucos temas, na coerência obsessiva com que ele persegue o núcleo duro das coisas, como se estivesse raspando o osso da vida.
O novo livro do escritor curitibano, seu 25º, intitulado “234”, confirma seu movimento rumo à concisão extrema da prosa, movimento que ele próprio anunciava no prefácio que fez em 74 ao “Vampiro de Curitiba” (65), quando dizia: “meu caminho será do conto para o soneto e dele para o haicai”.
Nesse novo livro, a exemplo de “Ah, É?” (94), Trevisan reúne 234 “ministórias”, algumas de apenas uma frase, como se fossem suspiros desafiando o silêncio, mas todas com no máximo 15 linhas, provocando no leitor sempre uma sensação de desconforto diante de imagens que surgem bruscamente e são bruscamente interrompidas.
A crítica literária Berta Waldman, que estudou sua obra e publicou a seu respeito “Do Vampiro ao Cafajeste” (89), comentou que ele não tem apenas a obsessão de contar sempre a mesma história, mas também de nunca terminar de contá-la. Essa dupla obsessão está tematizada em “234”, em passagens como: “Escreva primeiro, arrependa-se depois -e você sempre se arrepende.” (231) ou “O conto não tem mais fim que novo começo.” (233).
Como diz Berta Waldman a respeito de “Ah, É?”, também nesse “234” o que chama a atenção é “seu processo de composição brutalista, que se resume no esquartejamento da narrativa tradicional. (…) Esculpindo a faca, preterindo qualquer gesto de sedução, Dalton Trevisan cria um lugar de resistência à literatura mercantilizada, porque não mima, mas agride e desnorteia o leitor com os cortes, as pausas, o silêncio e, principalmente, com a paisagem do inferno onde se insere a família e a ordem burguesa em geral”.
Para ilustrar isso, nada melhor do que reproduzir algumas das “ministórias” de “234”. A de número 110, por exemplo:

“Na cama, diz o marido:
-Você é gorda, sim. Mas é limpa.
-…
-Você é feia, certo? Mas é de graça”.
A de número 116: “O pai cegou nos últimos dias, castigo de haver posto em menino uma bostica de vaca na mão do ceguinho”.
Ou a de número 173: “Quebra na pia o elefante vermelho de louça e para beber -oh, não- rouba as moedinhas da filha”.
Atrás de rigor formal perseguido há décadas, Trevisan dá a impressão de ter suprimido virtualmente a forma, de ter finalmente alcançado, como já se disse, “a estupidez intransitiva da vida”. Sua obra é um dos momentos mais altos da linhagem de escritores que souberam explorar o lado depreciado e infame das coisas brasileiras.

Livro: 234
Autor: Dalton Trevisan
Lançamento: Record
Quanto: R$15 (127 págs.)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1997/4/19/ilustrada/24.html

33 Contos Escolhidos

 33 contos escolhidos e Rita Ritinha Ritona

Dalton Trevisan Desde sua estréia em Novelas Nada Exemplares, de 1959, um dos mais importantes escritores do país – o curitibano Dalton Trevisan – povoa suas histórias com o lado obscuro de sua cidade natal. A vida das prostitutas, dos boêmios, das mulheres abandonadas e dos enjeitados é o tema principal de seus contos quase sempre curtos, poucas vezes passando de dez páginas. Segundo ele, para ter liberdade de movimento entre as pessoas que servirão de matéria-prima para suas histórias, Trevisan leva sua vida completamente afastado da mídia. Não dá entrevistas, nunca vai a feiras literárias, não se deixa fotografar.

Lançada recentemente pela Editora Record, a compilação 33 Contos Escolhidos (272 páginas) é uma excelente introdução à obra deste autor importantíssimo. Dispostas em ordem cronológica e escolhidas pelo próprio Dalton, as histórias do livro mostram uma Curitiba bastante diferente daquela da propaganda oficial. A capital do Paraná, na visão do escritor, é a cidade das prostitutas do Passeio Público, dos maridos adúlteros que voltam para casa bêbados de madrugada, dos casais que se odeiam, dos jovens viciados em crack.

http://fabriciomuller.com.br/wp/?p=1127

35 Noites de Paixão

Em breve!

99 Corruíras Nanicas

Dalton Trevisan é um dos grandes autores da moderna literatura brasileira. Esta coletânea reúne 99 microcontos do autor, alguns ocupam uma página inteira, outros têm apenas um único parágrafo. Entre os destaques estão os contos número 35 e 36 que expõem um quadro pungente do relacionamento entre pai e filho.

Comentários:
Segundo o escritor argentino Julio Cortázar, no conto, o autor vence o leitor por nocaute, enquanto no romance, vence por pontos. Já no microconto, como estas 99 corruíras nanicas de Dalton Trevisan, o nocaute acontece logo no primeiro assalto! Para tanto, o autor deve ser tão fulminante com as palavras, quanto Mike Tyson era com as luvas em seus áureos tempos. O formato tem tudo a ver com as novas linguagens digitais, como a internet, onde concisão, objetividade e impacto, são características fundamentais. Por isso o microconto pode ser considerado como um formato eficaz de ficção para a web. Assim como as corruíras de Trevisan podem ser consideradas um modelo de bom webwriting, mesmo sem terem sido criadas para internet. Mas não importa, o mundo de hoje é assim: rápido, ágil, direto.

O que encanta nas histórias desta coletânea, é a capacidade do autor de criar narrativas e personagens tão ricas em tão poucos parágrafos. E como se eles se desdobrassem, se multiplicassem, alimentados pelo conteúdo deixado oculto pelo autor. E aí está o grande desafio: abrir este universo paralelo diante do leitor, num espaço tão exíguo. Seria como pintar um quadro repleto de significados e possibilidades com apenas duas ou três pinceladas. Assim, aqui, a importância da palavra certa no lugar certo é ainda maior do que em qualquer outro formato em prosa, o que aproxima as corruíras da poesia.

O que fica implícito no texto, resultado natural da extrema economia de recursos, acaba se transformando em campo fértil para a imaginação do leitor, provocando-o a interagir na ação ao imaginar possíveis desfechos, consequências, situações, pessoas… ou até histórias inteiras em alguns casos.

Trevisan é brilhante em todos os quesitos essenciais para a criação de uma corruíra nanica. É deliciosamente erótico, cínico, cru. Cruel! E o nocaute a que nos submete a cada nova corruíra, a cada pancada que nos leva à lona, nos faz querer apanhar mais, como um lutador masoquista que encontrou enfim a felicidade. Ao levantarmos estamos tontos ainda, atordoados, sem saber exatamente o que aconteceu. Mas mesmo assim, a sensação é maravilhosa, apesar da dor ocasional.

Trecho:
“Meu pai leva-me à porta do famoso noturno para a cidade grande (…) Homem não se beija nem abraça, nos apertamos duramente as mãos. Me instalo a uma das janelas, com a vidraça descida. Mais que me esforce, imnpossível erguê-la. Já não podemos falar. Esse pai dos pais ali na plataforma, mudo e solene. O trem não parte. Fumaça da estação? De repente, ei-lo de olhos marejados (…) E sem querer, também eu comovido. Diante de mim, o feroz tirano da família (…) Primeira vez em tantos anos, vejo um senhor muito antigo. Pobre velhinho solitário. Merda, o trem não parte. Meu pai saca o relógio do colete, dois giros na corda. Pressuroso, digo que se vá (…) E ele sem escutar (…) Nosso último encontro, sei lá. E, ainda, na despedida, o eterno equívoco entre nós. Maldita vidraça de silêncio a nos separar. Desta vez para sempre”.

Publicação:
Editora: Record
Paginas: 99
Autor: Dalton Trevisan

A Faca no Coração

Quando Dalton Trevisan publicou A Guerra Conjugal, em 1969, afirmamos que o Autor havia atingido o ápice de uma pesquisa ficcional das mais eficazes e importantes da literatura brasileira. Já pisava o escritor um campo onde atuaria mais a crítica do que propriamente o leitor preocupado com as suas “identificações” afetivas. Embora nesse ângulo da apreensão do mundo daltoniano o leitor leigo pode entrar desarmado em sua obra, para apreciar a significativa sociedade de um grupo exposto em sangue e luxúria.

De A Guerra Conjugal a este A Faca no Coração, mais duas coletâneas foram publicadas, O Rei da Terra e O Pássaro de Cinco Asas. O Autor não está satisfeito com o seu trabalho: a depuração temática e estilista continua.

No último livro, Dalton Trevisan cria vinte e duas narrativas curtas, dentro de sua realidade artística. Personagens, dramas, tragédia, o patético e o sensível. A natureza humana, reflexo e referência do mundo da criação, é multiforme, não fosse a arte um labirinto de espelhos em busca de sua verdade. Dalton Trevisan trabalha em seu laboratório. Alquimista, modela os seus “monstros”, corta sua carne a fogo e ferro – a faca no coração – para revolver-lhes as entranhas. O sedutor velho, que baba nos seios da mocinha, a viúva neurótica, o corcunda enjeitado, a moça que tinha relações de pé, ou o burguês engomado que fazia da mesma maneira, mas de meias pretas e relógios no pulso, parecem personagens de Carson no realismo às vezes desvairado de Dalton Trevisan: a mulher, que após envenenar o licor de ovo do marido, botar soda cáustica na loção de cabelo e vidro moído no caldo do feijão, e depois: “sozinha no quarto, vestiu-se de vermelho, pintou os olhos, enfeitou-se de brincos e, toda em sossego, sorria para o espelho. “Mas de qualquer maneira, “o amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem”.

Além da economia de meios, da síntese da linguagem, dos cortes transversais nos diálogos e narrativa, Dalton Trevisan desenvolve, neste seu último livro, a concreção temporal ou o corte cronológico, de grande efeito no espaço (material) reduzido do conto. Embora, não seja um dado novo em seus trabalhos, o Autor assume agora, decididamente, o experimental, a pesquisa, e mesmo certos recursos “herméticos” de seu processo funcionam a contento, em proveito de um clima onde se encontram a realidade e a fábula. A transfiguração do cotidiano é a sua meta maior, como no belo conto, A Mulher em Chamas, todo feito de elipses, de concreção de imagens, síntese de um drama familiar, fechado com uma evocação das mais ternas e sensíveis.

Como Dalton Trevisan já tem uma obra publicada e em progresso, seria bom que a sua editora sistematizasse, nos seus livros, a bibliografia daltoniana passiva a ativa – com datas de publicações, edições, etc., para que se abrisse um campo melhor e mais seguro para o pesquisador e estudiosos. Sabe-se que Dalton sempre “modifica” seus trabalhos em novas edições, e como hoje há interesse nas faculdades pela sua obra, já é tempo do editor brasileiro.

ASSIS, Brasil. “A faca afiada no coração da literatura”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 04 out., 1975.

Publicação: 1975
Editora: Record
Paginas: 142
Autor: Dalton Trevisan

A gorda do Tiki bar

A Gorda do Tiki Bar trata-se de um livro curto com poucas páginas publicado na série LPM Pocket. Traz de diversos contos deste renomado escritor, reconhecido por um texto forte altamente picante no sentido literal do assunto. Contos que nos levam a imaginar as cenas propostas, inclusive aguçando o nosso libido (sic). O autor se destaca por um texto fluente e livre de excessos e prosa fluente. Cada conto é uma chama acessa de um puro prazer incontido.(…)

A Guerra Conjugal

Joãos e Marias

Citação: “Sendo o senhor meu marido um manso sem-vergonha, logo venho buscar as meninas que são do meu sangue, você bem sabe que do teu não é, não passa de um estranho para elas e caso não fique bonzinho eu revelarei o seu verdadeiro pai, não só a elas como a todos do Buraco do Tatu, digo isso para deixar de ser nojento correndo atrás da minha saia, só desprezo o que eu sinto, para mim o senhor não é nada.”

Dalton Trevisan é comumente tratado por “o vampiro de Curitiba” (título de outro livro seu), e este livro dá o tom disso. “Guerra Conjugal” reúne contos diversos protagonizados por casais diferentes (e, em muitos casos, insólitos). Os contos são ambientados em Curitiba, como era de se esperar, na década de 60; uma época em que tradições eram mais valorizadas, e que os costumes e hábitos eram bem diferentes.

Trevisan tem uma escrita que é pomposa, mesmo quando representa gente simples: a mulher que trai o marido, o marido que bate na mulher, o marido que não dá no couro, que bebe demais, a mulher adúltera, o amigo cobiçoso da esposa do próximo; casos cotidianos dos subúrbios de qualquer grande cidade. Para enfatizar isso, Trevisan utiliza-se de um recurso interessante: todos os protagonistas dos contos são João e Maria, como centenas que existem por aí, protagonizando seus pequenos infernos domiciliares, vivendo em seus mundinhos medíocres.
Em alguns contos, o roteiro torna-se repetitivo, um ranço de “eu já li essa história antes”, o que torna a leitura enfadonha ocasionalmente; em outros casos, como em “A Normalista”, uma visita a um prostíbulo acaba revelando-se algo muito maior, com um final que surpreende.
A partir da metade do livro há uma grande melhora. É quando Trevisan varia um pouco os temas, trazendo visões perturbadoras sobre assuntos tabu, que nem todo mundo se atreveria a escrever sobre: em “Idílio Campestre”, uma menina acaba acuada por um homem, e é estuprada. Trevisan não entra em detalhes, mas o choque de tal ato é compensado por uma escrita que consegue demonstrar beleza até mesmo em um ato tão vil (“Ele a agarrou, derrubou, nela se deitou. A menina chorou, gritou, chamou o nome de Deus. Ele apertava a garganta, deixando-a sem ar. Rasgou-lhe o vestido, de tanta dor ficou cega.”).

Em “A Traição da Loira Nua”, um marido traído recorre a meios não ortodoxos para restaurar sua honra, e em “A Noiva do Diabo” uma conversa entre padrinho, comadre e enteada toma rumos inesperados ao discutir o casamento da última. Como em “A Normalista”, Trevisan deixa para o último parágrafo um desfecho surpreendente, seja para causar risos ou sobressaltos, dando grandeza aos contos. Em “Batalha de Bilhetes”, um casal já idoso deixa de se falar, e passa a se comunicar somente por recadinhos. Orgulho e teimosia idosa com doses esparsas de ironia.

Como se tal não fosse chocante o suficiente, Trevisan ainda aborda uma amizade mais “profunda” entre dois amigos. O homossexualismo mostrado em “Paixão segundo João” é praticamente platônico; fosse uma Joana ali, e o roteiro de uma novela das 6 se desenrolaria diante de seus olhos. Em “Os Mil Olhos do Cego”, a história já é diferente: o João que reencontra um ex-colega de faculdade já é bem mais decidido sobre o que quer, e não poupa palavras para deixar bem claro quais são suas intenções a um amigo surpreso, sem reação (“Sustento o meu nojo da fêmea. Casei-me por exigência da profissão […] Toda fêmea é uma flor podre. Sob o perfume a catinga de cadela molhada […] Os gregos – não eram os persas? – bem sabiam. O velho Sócrates só dormia com um menino nos braços […] Sempre tive uma fraqueza por você – e, minha boneca, bem sabe disso”).
Trevisan examina as vicissitudes dos relacionamentos, as paixões mal resolvidas, sem emitir opinião, descrevendo os personagens e seus sentimentos, suas frustrações e medos, ele consegue fazer sua imaginação voar com aqueles pequenos trechos de histórias alheias, que sabe-se lá como prosseguiram e terminaram.

Mais resenhas em: http://catharsistogo.blogspot.com.br/

Sérgio09/01/2013

Joãos e Marias
Ficha Técnica

Gênero: Contos
Ano de lançamento: 1969
Ano desta edição: 2006
Editora: Record
Páginas: 187

A Mão na Pena

A MÃO NA PENA

Hoje que lanço a mão na pena, me diga se você já sentiu a picada de uma abelha-de-fogo. O beijo fatal na nuca.

Não? Eu, sim. Ai, sim.

A mocinha ali na janela. E eu, parando? Indo? No mesmo lugar? Nem sei mais. E, a cada passo, o alfinete em brasa do amor se enterrava fino fininho na pele.

Até que acertou numa só batida o meu com o teu coração.

Ai, como você dói.

Noite de lua me levanto, vou suspirar na janela: todos os pernilongos cantam o teu nome.

Eu me deito, apago a luz: os vaga-lumes acendem o teu rosto no escuro.

Chorava outro dia no meio da rua, até parou gente, imaginando fosse desastre. Um guarda quis me consolar, eu falei: Seu guarda, não seja burro. Vou preso, mas sou fiel até a morte.

Como ia dizendo, um dia você há de se arrepender. Aí é tarde, estou lá embaixo da terra. Aí chegarás diante da minha cruz: Morreste, infeliz, não foste digno do meu amor.

Você pode rir. Eu falo sério, não sou fingido, hein? Mamãe já reparou, não comes, meu filho. Tusso demais, sinto palpitação, me obrigo a dormir sentado.

Ai de mim, dá gana de tomar um bruto porre. Daí escrevo-lhe estas mal traçadas linhas. Se você não me quer, pego tifo e escarlatina, me atiro da Ponte Preta, boto fogo na roupa, bebo capilé com vidro moído.

Sei que prefere galã bonito. De bigodinho e costeleta. Bonito não sou, bigodinho eu tenho. Isso não vale nada?

Por ti serei maior que o motociclista do globo da morte.

Me diga. Outro perdido de paixão como eu? Não existe.

Lá vem você, e pronto! Olha eu aqui – de novo o menino aos pulos batendo palmas à tua passagem com tambores, bandeiras e clarins.

Mais gloriosa que a bandinha do Tiro Rio Branco.

(Conto retirado do livro “O Beijo na Nuca”, publicado pela editora Record.)

http://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/especiais/dalton-trevisan-90-anos/a-mao-na-pena-456x1b53t7e7j24v34ysfmmdh

O livro A mão na pena, de Dalton Trevisan, faz parte de uma coleção de livros feitos artesanalmente, impressos em tipografia e encadernados manualmente.

A impressão desses livros é feita por um tipógrafo, que monta página por página do livro com linotipos e com ilustrações em xilogravura, assinadas por Frederico Tizzot e Andre Ducci. Na segunda parte do processo, o encadernador Daniel Barbosa, da Caderno Listrado, realiza, livro por livro, a montagem, desde a dobra do papel e a costura à confecção da capa, em tecido.

O resultado desse processo totalmente artesanal, em que os livros são feitos um por um, são edições numeradas e de tiragem limitada (250 exemplares de cada título). Da textura do tecido que encobre a capa ao relevo da impressão do texto, o leitor tem uma experiência tátil com o objeto livro.

Comentários de Flávia Miranda

flaviamirandadesign – Flavia Miranda Design

A Polaquinha

Consciente ou inconsciente, Dalton Trevisan desfralda, imensa, uma brandeira tecida penosamente por Wilhelm Reich, o pensador e psicólogo austríaco que pregava a revolução do orgasmo, a liberação da couraça que nos oprime a todos, urdida pela Igreja, pelo ensino, pela sociedade castradora, pela hipocrisia vitoriana. Uma hipocrisia que não é privilégio, ai de nós, apenas de uma época na Inglaterra nem das brumas londrinas em que Jack, o Estripador, mutilava as prostitutas que capturava nos becos e  vielas nos bairros “do vício e da  perdição” da capital inglesa. Somos todos prisioneiros da nossa sexualidade reprimida, a sexualidade que é, como a literatura, mantida em camisa de força em todos os regimes políticos tirânicos que vão do fascismo mussolinianos-franquista-nazista ao puritanismo calvinista da Rússia bolchevista, da China maoísta. Depravação, solerte forma de minar as bases da sociedade! Urram todos os que temem a própria liberação, encapuzados e sedentos de novas Inquisições, novas torturas, novos campos de concentração, de Auschwitz ao Gulag.

O vibrador à pilha, as revistas pornográficas, as posições insólitas, a dimensão, cor e volume dos órgãos sexuais masculinos, as calcinhas, o feitichismo, a masturbação, a impotência andam de mãos dadas com duas companhias inesperadas. Os defeitos físicos – o mau hálito, a perna paralisada, a bronquite asmática, a dentadura, o bigode que fede a cigarro e cerveja, as fissuras causadas na mulher. E a busca alucinada, suicida, de um príncipe ideal que venha resgatar aquelas multidões de Gatas Borralheiras ou Cinderela adormecidas à espera de seu beijo redentor, guardando escondido, em vão, o outro pé do sapato de cristal de um baile no palácio que só existiu na imaginação romântica, idealista, delas. Um homem que fosse não apenas um macho, mas tivesse ternura, caráter, generosidade: é sonho irrealizável? É o sonho se desmorona, de degrau a degrau, em pesadelo. Dos muitos amantes egoístas, fracos, eticamente impotentes, embora potentíssimos e afetados de priapismo, as Cinderelas resvalam par ao borde. Decaem no simulacro patético, heróico, hilariante da cópula ideal  com velhos cambaleantes mas que deixam as duas notas em ciam da mesinha de cabaceira e não beijam na boca, sequiosos de  mentiras gritadas de que “você é que é o grande macho da minha vida! Sou só tua. Inteirinha!”.

Há uma surpreendente correspondência de abordagens – não de diagnósticos ou conclusões – entre a criação literária de Dalton Trevisan e o teatro de Nélson Rodrigues, ambos marcados a fogo pela obsessão pelo sexo, sucedâneo ineficaz do amor. O coito como perdição espiritual, o horror de mesclar a família com o orgasmo, a ameaça do inferno eterno, a prostituição, o incesto, a busca de terreiros milagrosos, de centros espíritas que possam salvar suas vítimas desse “encosto” diabólico. Todos os lugares- comuns da música popular brasileira cantada pela velha guarda, Nélson Gonçalves, Dalva de Oliveira, desfilam: nunca deixei faltar nada em  casa; você não veio virgem pra as  minhas mãos; eu e que te fiz mulher, lembre-se: minha pobre mãe, mártir do fogão e do tanque, o que diria se  me visse assim?

O jornal, é óbvio, não pode acolher todas as transcrições mais genuínas, porque mais ousadas, de um livro deste tipo: este é que contém a essência da qual a crítica literária pode apenas – e mal – espremer e exprimir um resumo. Exemplo: os capítulos finais, de uma absoluta mestria de estilo. Como um disco quebrado ou um rolo de filme que girasse infinitamente, as situações no bordel se repetem e é o sinete inconfundível do grande escritor que é Dalton Trevisan que lhe permite a genial união do mais patético com o mais hilariante. O leitor gargalha entre lágrimas de comiseração. E ficam os sinais misteriosos, propositadamente não esclarecidos: a polaquinha é mãe do nenê que ela pede a Deus que não chore enquanto atende a seus “clientes” apressados? Fenecida a sua fugaz sedução de jovem, ela se tornará como a cafetina “tia Olgas”, com seu robe negro e seus chinelinhos de  pompom vermelho a proclamar que “a mulher foi feita para servir o homem”?

Com Dalton Trevisan, se fundem as tradicionais máscaras do riso e do pranto que ornam os cartazes de teatro. O riso é o pranto. Nenhuma salvadora filosofia existencialista poderá separá-los. Nenhum  estoicismo poderá consolar esse desespero de vivermos, perplexos e paralisados, dentro do absurdo, da  ignomínia, da injustiça, da lei selvagem do mais forte. Não há milagres, não há um “mais além “, um depois da morte”. Não há Deus, é óbvio, pois aqui é o deserto final onde todas as veleidades de vontade, amor, solidariedade e calor humano morreram. Ou quem sabe nunca vicejaram, mortos pelo sol escaldante do desamor.

RIBEIRO, Léo Gilson. “Trágica hilariantes, patética”. O Estado de São Paulo, S. Paulo, 10 ago, 1985.

A Polaquinha / Pão e Sangue

Consciente ou inconsciente, Dalton Trevisan desfralda, imensa, uma brandeira tecida penosamente por Wilhelm Reich, o pensador e psicólogo austríaco que pregava a revolução do orgasmo, a liberação da couraça que nos oprime a todos, urdida pela Igreja, pelo ensino, pela sociedade castradora, pela hipocrisia vitoriana. Uma hipocrisia que não é privilégio, ai de nós, apenas de uma época na Inglaterra nem das brumas londrinas em que Jack, o Estripador, mutilava as prostitutas que capturava nos becos e  vielas nos bairros “do vício e da  perdição” da capital inglesa. Somos todos prisioneiros da nossa sexualidade reprimida, a sexualidade que é, como a literatura, mantida em camisa de força em todos os regimes políticos tirânicos que vão do fascismo mussolinianos-franquista-nazista ao puritanismo calvinista da Rússia bolchevista, da China maoísta. Depravação, solerte forma de minar as bases da sociedade! Urram todos os que temem a própria liberação, encapuzados e sedentos de novas Inquisições, novas torturas, novos campos de concentração, de Auschwitz ao Gulag.

O vibrador à pilha, as revistas pornográficas, as posições insólitas, a dimensão, cor e volume dos órgãos sexuais masculinos, as calcinhas, o feitichismo, a masturbação, a impotência andam de mãos dadas com duas companhias inesperadas. Os defeitos físicos – o mau hálito, a perna paralisada, a bronquite asmática, a dentadura, o bigode que fede a cigarro e cerveja, as fissuras causadas na mulher. E a busca alucinada, suicida, de um príncipe ideal que venha resgatar aquelas multidões de Gatas Borralheiras ou Cinderela adormecidas à espera de seu beijo redentor, guardando escondido, em vão, o outro pé do sapato de cristal de um baile no palácio que só existiu na imaginação romântica, idealista, delas. Um homem que fosse não apenas um macho, mas tivesse ternura, caráter, generosidade: é sonho irrealizável? É o sonho se desmorona, de degrau a degrau, em pesadelo. Dos muitos amantes egoístas, fracos, eticamente impotentes, embora potentíssimos e afetados de priapismo, as Cinderelas resvalam par ao borde. Decaem no simulacro patético, heróico, hilariante da cópula ideal  com velhos cambaleantes mas que deixam as duas notas em ciam da mesinha de cabaceira e não beijam na boca, sequiosos de  mentiras gritadas de que “você é que é o grande macho da minha vida! Sou só tua. Inteirinha!”.

Há uma surpreendente correspondência de abordagens – não de diagnósticos ou conclusões – entre a criação literária de Dalton Trevisan e o teatro de Nélson Rodrigues, ambos marcados a fogo pela obsessão pelo sexo, sucedâneo ineficaz do amor. O coito como perdição espiritual, o horror de mesclar a família com o orgasmo, a ameaça do inferno eterno, a prostituição, o incesto, a busca de terreiros milagrosos, de centros espíritas que possam salvar suas vítimas desse “encosto” diabólico. Todos os lugares- comuns da música popular brasileira cantada pela velha guarda, Nélson Gonçalves, Dalva de Oliveira, desfilam: nunca deixei faltar nada em  casa; você não veio virgem pra as  minhas mãos; eu e que te fiz mulher, lembre-se: minha pobre mãe, mártir do fogão e do tanque, o que diria se  me visse assim?

O jornal, é óbvio, não pode acolher todas as transcrições mais genuínas, porque mais ousadas, de um livro deste tipo: este é que contém a essência da qual a crítica literária pode apenas – e mal – espremer e exprimir um resumo. Exemplo: os capítulos finais, de uma absoluta mestria de estilo. Como um disco quebrado ou um rolo de filme que girasse infinitamente, as situações no bordel se repetem e é o sinete inconfundível do grande escritor que é Dalton Trevisan que lhe permite a genial união do mais patético com o mais hilariante. O leitor gargalha entre lágrimas de comiseração. E ficam os sinais misteriosos, propositadamente não esclarecidos: a polaquinha é mãe do nenê que ela pede a Deus que não chore enquanto atende a seus “clientes” apressados? Fenecida a sua fugaz sedução de jovem, ela se tornará como a cafetina “tia Olgas”, com seu robe negro e seus chinelinhos de  pompom vermelho a proclamar que “a mulher foi feita para servir o homem”?

Com Dalton Trevisan, se fundem as tradicionais máscaras do riso e do pranto que ornam os cartazes de teatro. O riso é o pranto. Nenhuma salvadora filosofia existencialista poderá separá-los. Nenhum  estoicismo poderá consolar esse desespero de vivermos, perplexos e paralisados, dentro do absurdo, da  ignomínia, da injustiça, da lei selvagem do mais forte. Não há milagres, não há um “mais além “, um depois da morte”. Não há Deus, é óbvio, pois aqui é o deserto final onde todas as veleidades de vontade, amor, solidariedade e calor humano morreram. Ou quem sabe nunca vicejaram, mortos pelo sol escaldante do desamor.

RIBEIRO, Léo Gilson. “Trágica hilariantes, patética”. O Estado de São Paulo, S. Paulo, 10 ago, 1985.

Pão e Sangue

0 A última obra de Trevisan, Pão e Sangue, enfatiza a coerência de um projeto criativo que o autor vem desenvolvendo pacientemente em mais de 30 anos de atividade literária. Passando ao longo dos modismos da última década, Trevisan manteve-se fiel a si mesmo e ao seu compromisso com a arte. Não fez literatura documental ou jornalística nem literatura ensaística. Fez apenas ótima literatura, que podemos fruir em todos os vinte e um livros que ele produziu regularmente, a começar por Novelas nada Exemplares, publicado pela Editora José Olympio, em 1959, e que o tornou nacionalmente conhecido. Mas devemos lembrar ainda os anos de preparo e exercício – os anos da revista Joaquim dos idos de 40, e, na década de 50, a elaboração dos chamados “cadernos de cordel”.

Desde então, ele se tem dedicado a aprimorar o gume do seu estilo, tornando-o cada vez mais apto ao corte preciso na consciência do leitor. Atitude que se apreende em todos os detalhes desta obra, coisa da perfeição, cujo objetivo é informar o máximo pelo mínimo minimalista que sempre foi sua, e parece ser o ritmo preferencial da arte mais atual.

Mas comecemos pelo título. Aliás, é só atentarmos para alguns deles: o já citado Novelas nada exemplares. O Vampiro de Curitiba, de 1965, O rei da terra, de 1972, A Trombeta do anjo vingador, de 1977, ou ainda Virgem louca, loucos beijos, de  1979, para termos um seguro indício de uma particular visão de mundo transformada em texto. Já nesta escolha o autor brinca, parodia, dialoga e/ou contesta os mitos que subjazem a nossa herança cultura e a nossa herança literária e religiosa. Pão e Sangue não foge à regra, antes a leva às últimas conseqüências, remetendo a um instigante cruzamento de registros, inferências ao estabelecer um mordente diálogo com duas expressões de diferentes campos semânticos: “pão e circo” e “pão e vinho”. Na primeira perspectiva ideológica, deslocando o sentido dos sangrentos festivais com que se distraíam a miséria e a indolência dos libertos da antiga Roma, metaforiza e focaliza, nos vários textos-flashes, a vida reduzida a um triste espetáculo de violência a alimentar o “moto-perpétuo” do absurdo existencial. No outro plano, o ritual do amor e morte, repetido até a náusea, dessacraliza o sacramento cristão da comunhão ritualística. Aqui, a morte, a beber o sangue do outro, é o gesto natural que acompanha a devoração do alimento em busca da sobrevivência. Morrer ou matar parece ser o terrível dilema em que se debatem as personagens desde o livro doloroso que reduz toda metafísica à negatividade.

Pão e Sangue apresenta em seu corpus uma concentração de temas e situações. Dos seus vinte e dois títulos, quatorze correspondem a textos em que uma personagem ou, em alguns casos, duas ou mais personagens contam a um ouvinte sempre impassível a sua versão de um fato de violência, assassinato ou estupro. No tocante às relações com o real, pela sugestão contida no vocativo “doutor” pelo tom de confissão ou depoimento, os contos parecem apontar a dissecação de dramas que alimentam ou entulham as delegacias.

Tecnicamente a experiência nos lembra um ponto magistral – “De baixo da ponte preta”, de O Vampiro de Curitiba, onde o registro de várias vozes dos envolvidos ou testemunhas de uma violência sexual são pontuados por um registro jornalístico. À exceção de “Estrela de Saravá”. “Pão e Sangue” e “O arrepio no céu da boca”, este último ambigüizado pela ironia de um narrador que vê de viés os equívocos amorosos do velho João, os demais textos comentados apresentam total ausência de uma voz narrativa mediando os fatos. Tal organização lhes dá um tom de indiferença moral ou ausência de avaliação ideológica. No entanto, não te fies na aparência, credo leitor! O que se constata aí, na verdade, é a habilidade com que o artista manipula, pelo avesso, os recursos da persuasão. Para melhor falar de uma sociedade essencialmente propensa ao rime e às paixões, ele atribui às personagens uma linguagem ideologicamente comprometida. Na perspectiva vislumbrada por esta estilização da linguagem, João, Maria ou Tito são prejulgados e conformados em estreitos limites, verdadeiro beco sem saída onde não importa apontar o criminoso. Porque todos o são ou só há vítimas.

Mas se no plano ideológico um texto espelha a angústia e a negação do outro, no plano formal Pão e Sangue se multiplica como nenhum outro do autor. Passando do conto curto para o haicai, Trevisan atinge a síntese e a essencialidade expressiva que declaradamente têm sido o seu objetivo maior. Os trinta haicais deste livro conquistam um espaço que era tímido nos livros anteriores, onde se manifestavam também sem serem enunciados. Apontamos, neste sentido, a experiência de refazer o enredo até miniaturizá-lo, quase haicaizá-lo nos capítulos finais de A Polaquinha. Despojados, os haicais de Trevisan tem algo de irônico e figurativo e uma textura poética que os fazem ressoar na sensibilidade do leitor. Um exemplo:

“Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:

João, Fale comigo, João.
Geme fundo, abre o olhinho vazio, soluça um palavrão.

Bruuuxa… Diaaaba…
Ai que susto. Graças a Deus”. (p. 39).
E outro:

“- Teu seio mais lindo – já viu dos gatinhos brancos bebendo leite no pires” (p. 89)

Numa experiência mais radical, o autor viaja do universo da prosa para o universo da poesia, em busca de novas formas de realização estética. “Minha vida meu amor” e “Querida amiga” expõem a triste condição feminina numa interpretação poética que retira da vida poesia. Já em “A balada do vampiro de Curitiba”, Trevisan reelabora os textos “O Vampiro de Curitiba” e “Incidente na loja”, ambos de O Vampiro de Curitiba, dando-lhes umas novas composições formais, optando pela síntese e por um novo ritmo, que se organiza no recorte das orações transformadas em versos. Monologando, Nelsinho passeia pelas ruas de Curitiba o seu destino de conquistador em busca das vítimas de paixão. Em “Canção de exílio” – paródia das paródias – o autor retoma Curitiba, cidade ambigüizada pelo amor e pelo ódio, espaço único de todas as suas viagens literárias.

Enfim, para os leitores que já conhecem Trevisan, Pão e Sangue é, como já dissemos anteriormente, a certeza de uma excelente leitura.  Para os iniciantes é a perspectiva de um fascinante encontro com a arte da vida.

BERNARDI, Rose Marye. “Pão Sangue – um novo encontro com a arte de Dalton Trevisan”. Nicolau, 29 jun., 1988.

A Trombeta do Anjo Vingador

Que faz de um livro sucesso em vendas e público? Muitos acreditam que seja o conteúdo, o relato da condição humana que devem permear as grandes obras. Creem que tais características são indispensáveis a um livro digno de ser lido, relido, guardado junto ao travesseiro, legado à posteridade. Gostaria de que esses fossem a maioria. No entanto, infelizmente, não o são. A maioria vai de encontro a tal entendimento. São os leitores de best-seller, de livros escritos por vencedor de Big Brother Brasil, por cantor sertanejo. Para estes, o que importa é a retórica. Mesmo sem imaginar, compram um livro pela capa, pelo título, pelo final da história. São uma prova de que, em geral, para ser aclamado pelo público, são imprescindíveis a uma obra publicidade, distribuição e final feliz.

Isso explica por que o livro de contos A Trombeta do Anjo Vingador, de Dalton Trevisan (1977), não figura entre os mais apreciados pela massa no gênero. Lançado sem grande pompa, sem divulgação na grande mídia, pela editora Codechi – longe de ser uma Companhia das Letras – e cujos contos não têm final feliz. Apesar de muitos especialistas da área o considerarem como um dos maiores contistas do país, apesar de ter vencido o Prêmio Camões de 2012, do Machado de Assis, neste mesmo ano, promovido pela Academia Brasileira de Letras – todo esse repertório não é suficiente. Dalton Trevisan permanece desconhecido de muitos leitores de best seller, de apresentador de telejornal, de cantor de rock, do grande público, enfim. Preterido. E A Trombeta do Anjo Vingador longe da estante das grandes livrarias.

Isso é compreensível: “leitores” que se lambuzam ante um livro de conto retórico, capcioso em demasia, com descrições intermináveis, períodos longos e enviesados, discursos em vez de relatos do cotidiano, finais felizes não encontram guarida em A Trombeta do Anjo Vingador. Com 141 Páginas, dezenove contos ao todo, curtos, que em geral tratam de questões do cotidiano do brasileiro comum: traição, brigas por dinheiro, explorações diversas, bebedeiras, mais bebedeiras, erotismo, família. Ah, a família… A dos contos do curitibano é bem diferente daquela do comercial de margarina que passa na tevê, daquela da novela das nove: é desregrada, fragmentada. O álcool está presente em boa parte dos contos, como um lenitivo às dores do mundo. As personagens, em geral, excedem-se nas doses e nas noitadas. Em busca de respostas, em busca de “amor”. Outra característica peculiar: todos os contos vêm ilustrados, com imagens, figuras que os representam.

Sobressaem, a meu ver, entre outros, os contos: “Repasto frugal”, em que a simplicidade começa pelo nome do casal – João e Maria – que vive uma relação amorosa tipicamente canarinho, entre tapas e beijos, regrada a álcool. João já é apreciador de longa data do líquido; Maria, não. Esta, certa ocasião, resolve tomar umas e, estimulada pela pinga, faz revelação indevida: João não é o pai do filho dela, como ele imaginara. Daí intensificam-se as agressões. Divorciar-se? Ora, quem irá sustentá-la? “– Na mesa, polenta, queijo e pinga” Que assim continue. Prefere o chicote à rua da Lama. Essa personagem me lembra Marina, de Angústia, de Graciliano Ramos: “– Escolher marido por dinheiro. Que miséria! Não há pior espécie de prostituição.” (ano, p. 83)

Em “Dorme, Gordo.” há mais exploração. Desta vez, os papeis se invertem: é o marido quem se ver em apuros. É ele quem “atende” aos anseios da mulher. Há um custo pelas saidinhas noturnas que ele pratica. Este conto poderia ter como título, em função da temática nele desenvolvida, “Assine, Gordo.” em vez de Dorme, Gordo.

E há “A Trombeta do Anjo Vingador”, no qual é revelado o preço de uma desgraça: doze milhões… E compreende-se por que o Anjo é vingador: o mundo anda caro demais. Tudo tem um preço, e o “amor” não foge à regra. Será que é possível dividir o ônus de paixões malsucedidas em doze suaves prestações? Sei não…

Sei que, em meio ao furdunço, à pressa em que vivemos atualmente, a leitura de A Trombeta do Anjo Vingador vem a calhar. Serve-nos como antídoto às dores do mundo. Faz-nos refletir sobre nossa condição ante o caos em que estamos imersos. Tudo isso em escrita elegante, objetiva, simples, sem penduricalhos, sem moletas linguísticas.

Por praticar tal estilo, Dalton Trevisan, sobretudo em A Trombeta do Anjo Vingador, é digno de apreço, de reconhecimento público. Porque, como disse Schopenhauer, em A arte de escrever:“…deve-se evitar toda prolixidade e todo entrelaçamento de observações que não valem o esforço da leitura. É preciso ser econômico com o tempo, a dedicação e a paciência do leitor, de modo a receber dele o crédito de considerar o que foi escrito digno de uma leitura atenta e capaz de recompensar o esforço empregado nela”. E isso o faz, como poucos, Dalton Trevisan.

 

Daminhao

Enviado por Daminhao em 17/06/2015
Reeditado em 26/06/2015
Código do texto: T5280593
Classificação de conteúdo: seguro

http://www.recantodasletras.com.br/resenhasdelivros/5280593

A velha querida

Em breve!

Abismo de Rosas

Em toda sua considerável obra, o contista Dalton Trevisan até agora só se preocupou em observar o mundo através de uma fresta de janela. Com “Abismo de Rosas”, essa fresta emagreceu ainda mais, deixando a parca paisagem do escrito reduzida a um retângulo de 3 x 4. Menos ainda: ao equivalente a um estampilha. Poderia ser um universo de miniaturista, se fosse possível considerar como miniatura aflitiva carência de estatura dos seus personagens. Todavia não é positivamente um universo anão, mas um universo truncado, mutilado, o que se oferece nestes 21 contos incomodamente trufados de diminutivos que acabam se transformando em cacoete estilístico: baixinha, olhinho, perninha, enjoadinha, lombinho, agradinho, azedinha, dentinho de ouro, assim “ad nauseam”. Aliás é de náusea mesmo a sensação que o livro transmite em seu desfile de personagens carcicatos, que então tem consistência, contorno, identidade, gelatinosos, fetais, desgastados, informes, oscilam entra licenciosidade venal de bordel periférico e inconvicente humor negro diluído em estereótipos: “No velório, a filha acha-se meio ressabiada: – Tiau, pai – e bate-lhe docemente nas mãos cruzadas. – Durma bem”.

A maioria das situações espelha uma subumanidade grotesca, evoluindo numa esfera infra-afrodisíaca confiante com a pornografia, na qual o sexo é exaustivamente visado como atividade circunscrita, ao esgoto. É um sexo de monturo, praticado por rufiões, faunos e arrabalde, sátiros, senis de cabelo pintado de dentaduras, homúnculos cuja irrisão é o único motivo de interesse, como “A Gorda do Tiki Bar”. Sua nudez, “só dobras, pregas, refolhos em cima e mamelões em baixo” propicia a Trevisan uma contradição, volúpia de três pálpebras para um só olho de tantas pétalas num só botão de rosa”. Um outro relato. “O Fim da  Fifi”, lembra pela delicadeza, rara no livro, o  poema de Francis Jammes sobre o cão, “humilde amigo” que  finda com os graves alexandrinos magnificamente traduzidos por Manuel Bandeira: “ah se de vós, meu Deus, a  graças eu alcançasse/ de face a face vos olhar na eternidade/ fazei que um pobre cão contemple face a face quem para ele foi um deus na humanidade”.

Infelizmente o talento do contista opta por outras coordenadas, explorando à exaustão três ou quatro variações patológicas, reiterativas como exercício escolar do plano. Nada mais explicitante dessa avareza temática do que uma bela metáfora, um pouco preciosa, do próprio narrador. “A chuva sovina conta e reconta suas moedas nas latas do Quintal”.

Trevisan em seus melhores momentos de codificador privilegiado da pequena-burguesia pátria-desmisticadora seu ritualismo oco, suas taras recessivas sua obsessiva vocação ao “Kitsch” baixa agora alguns degraus para flagrar camadas marginais de  um boêmia suburbana, clorótica, astênica. Estreita o foco de sua objetiva para assestá-la a uma galeria pan-obscena, pseudofreudiana, obsedada com a cloaca. A insistência com que seus personagens masculinos calçam pelas meias pretas deve ter algo a ver com a  perspectiva lúgubre dessa sexologia de desvão, desenrolada entre tabiques, em bordéis, consultórios médicos, delegacias de polícia”E um sexualismo claudicante, exíguo “degoustant”, sem euforia, sem beleza, melancólico, como um velório: erotismo estranhamente classificado numa perspectiva puritana que o enodoa, envolvendo-a com o enjoativo odor de permanganato.

Temática é caricatura, mas corrosiva do talento do ficcionista, circunscrito agora um beco sem saída: “Quem me dera o estilo do suicida no último bilhete”. Usar vitríolo contra um mundo injusto onde todos se degradam é sem dúvida, um gesto justificável, mas fazer humor a custa da promiscuidade, da miséria pode ser até condenável pela única censura a quem um criador deve submeter-se livremente: sua própria força criadora.

MOUTINHO, Nogueira. “Abismo de Rosas”. Folha de São Paulo, 20 novembro, 1976. Resenha a Abismo de Rosas.

Ah é?

O escritor Dalton Trevisan, 69 anos, conhecido como o “vampiro de Curitiba”, advogado, casado, duas filhas, leitor contumaz de “O Apanhador no Campo de Centeio” do norte-americano J. D. Sateio” do norte-americano J. D. Salinger, autor de 22 livros, acaba de publicar “Ah, é”? que estará nas livrarias semana eu vem . Reúne 187 pequenos textos, “ministórias”, como diz o subtítulo.

É o próprio Trevisan quem melhor definiu seu novo livro, em uma espécie de auto-retrato com postos há anos. “Há o preconceito de que depois do conto você deve escrever novela e afinal romance. Seu caminho será do conto para o sonecto e para o haical”. “A Polaquinha de 1985. “Ah, é? É o haical.

Não há  rima nestes 187 minúsculos contos. Mas a idéia de fulguração, de rápido clarão, contida no poema japonês, é o “Leitmoty”da obra do escritor curitibano desde seu primeiro livro , “Novelas Nada Exemplares”(de 1959).

A concisão é a marca de sua prosa, assim como a discrição é o retrato de sua vida. Não dá entrevista, só fragmentos de conversa. Não se deixa retratar, não faz pose. É metódico, de poucos amigos, avesso à publicidade. Greta Garbo de Curitiba, segundo um amigo.

Em “Ah, é? “ há novamente sexo, camas, velhas, doentes, balas Zequinha, suor, mocinhas, “peninha”, diminutivos, morte memórias e perguntas. Na medida do possível, o livro é um dicionário da vida. Seus fragmentos são verbetes. Da alma.

Trevisan é um dos maiores escritores brasileiros.Um vampiro sim, de almas, “espião de coração solitários”, que suga o estrito de quem e do que o circulou.

Seu mundo está em seus livros.

Sua arte está na precisão. Trevisan mais que vampiro é cirurgião. Corta  obsessivamente a  das palavras. Deixa o essencial. O verbo. O princípio.

Repete-se? Nas aparências ministória” 186, que diz o que o escritor, um irmão – sobrevivente de Caim e primo de Abel aparece nos anos 70. Volta com um “O” a mais. Passou escrevendo a frase antes “Escritor é irmão de Caim e  no distante  de Abel. Definiu “A chuva sovina conta e reconta suas moedas nas latas do quintal”(“ministória” 16).

CHIARETTI, Marco. “Dalton Trevisan publica seu 23º livro. Folha de São Paulo, 01 de abril, 1994.

Arara Bêbada

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“ARARA BÊBADA”

Dalton na velocidade da sombra
MARCELINO FREIRE
ESPECIAL PARA A FOLHA

-…
-?
-…
Toda vez que sai um livro do Trevisan é a mesma história. O povo fica sem saber o que dizer. Como eu, e agora? O enclausurado produz mais uma obra. Blablablá. Há quem diga que ele repete a fórmula. Que o vôo do Vampiro não quer mais voar.
Será?
Sei não.
De minha parte, pegarei o avião. E baterei em Curitiba. Para ficar de pirraça e de vigília. Ali, na porta de sua casa. Que mais parece castelo e tem pintura cariada, à esquina de uma rua movimentada.
Vim bater palmas.
E mesmo assim, nada. Que palhaçada! Desse jeito não dá. Penso em chamar a polícia armada. Entrarei com uma ordem judicial. Não se esconde assim um patrimônio nacional.
Gritarei um elogio. “Dalton, seu novo livro é animal.”
?!!
Putz! Essa foi mal.
Quem sabe lendo um trecho de um dos cem minicontos agora reunidos? Perolazinhas do tipo: “Diante do túmulo do velho bem-querido. Cabeça trêmula, a velhinha: E você? Por que ainda não me enterrou?”
É isso. Vou morrer ali, só para feder. Lembrarei: feito aquele poema do Drummond, “O Mito”.
Aproveitarei para dizer que continuo vendo, sim, proximidades entre Curitiba e a cidade de Itabira. O mesmo retrato na parede. A mesma vidinha besta.
Igualzinha àquela lá do miniconto “A Auréola”: “Não fumo, não bebo, não jogo, não minto, não trepo. Estou com medo de virar santa.”
Ou àquela da mãe e da filhinha sentadas na grama, “duas bolas de sorvete para cada uma”.
O que me fascina, mais uma vez, nas narrativas do Trevisan é o tom melancólico que elas têm. Sorrisinhos viúvos, demoninhos do bem. Tudo correndo sem pressa, para a morte que neste e nos outros livros do autor é sempre incerta.
Pra que pressa, pô? Engana-se quem acha que os contos do Dalton são rápidos porque são curtos. Não são flashes e nem relâmpagos. Têm eles a velocidade da sombra. Puxa, que coisa bonita!
Dalton, escute só: você escreve na velocidade da sombra.
Nossa, juro que depois dessa minha descoberta, ele abrirá a janela e me olhará.

?

Feito uma “Arara Bêbada”, sei que rachará o bico, pode apostar.
________________________________________
Marcelino Freire é escritor, autor, entre outros, de “BaléRalé”.

ARARA BÊBADA. Autor: Dalton Trevisan. Editora: Record. Quanto: R$ 19,90 (112 págs.)

Até você Capitu?

Ele é conhecido como o “Vampiro de Curitiba”, nome de um de seus livros. Recluso, o premiado escritor Dalton Trevisan evita ser visto em público, não recebe a visita de estranhos e não aceita dar entrevista. Mas gosta de reciclar ideias e lançar novos livros.

Até você, Capitu? é um lançamento de Dalton Trevisan que reúne ensaios, crônicas, cartas e  textos diversos sobre o autores mais caros a Dalton Trevisan, como Machado de Assis, Pedro Nava, Rubem Braga e Tchékhov. Seu interlocutor nas cartas é o escritor Otto Lara Resende (1922-1992).

Abaixo, um trecho da crônica “Capitu sem enigma”:

Você pode julgar uma pessoa pela opinião sobre Capitu. Acha que sempre fiel? Desista, ô patusco: sem intuição literária. Entre o ciúmes e a traição da infância, da inocência, do puro amor, ainda se fia que o bruxo do Cosme Velho escolhesse o efeito menor? Pô, qual o grandíssimo tema romancesco de então, as fabulosas Emma Bovary e Anna Karenina. A um pessimista, viciado no Eclesiastes, toda mulher (“mais amarga do que a morte”) não é coração enganoso e perverso, nó cego de “redes e laços”?

Inocentar Capitu é fazê-la uma pobre criatura. Privá-la do seu crime, assim a perfídia não fosse própria das culpadas? Já sem mistério, sem fascínio, sem grandeza. Morreu Escobar não das ondas do Flamengo e sim dos olhos de cigana, oblíquos e dissimulados. Por que os olhos de ressaca, me diga, senão pra você neles se afogar?

Capitu sou eu

MARCELO PEN
Crítico da Folha de S.Paulo

 

Dalton Trevisan une, no título de seu último livro de contos, duas heroínas da tradição oitocentista: a machadiana Capitu e Emma Bovary, sobre quem Flaubert um dia disse: “Madame Bovary, c’est moi!” (“Madame Bovary sou eu!”). A referência direta remete a um caso de infidelidade nunca provado, enquanto a citação subentendida aponta uma adúltera notória.

No conto epônimo do escritor curitibano, temos uma professora apaixonada por um aluno. No início, ela irrita-se pelo fato de o rapaz advogar a traição de Capitu. Segundo ele, não se trata de “debate literário”, mas de “questão pessoal”: Capitu é uma “simples mulherinha à-toa”.

Para os personagens de Trevisan, 78, não há sutileza nem meio-tom. Pessoas traem. Escravas de emoções abissais e dos instintos mais incontroláveis, também copulam o tempo todo. Das crianças aos velhos, do malandro ao delegado. No intervalo, desconfiam, enganam, ameaçam e matam.

Já se falou do caráter minimalista da prosa do autor ou, como o crítico Alfredo Bosi definiu, de “sua voluntária pobreza de meios”. Esse atributo está representado na frugalidade do estilo, no tamanho reduzido dos contos, mas também na repetição das situações, dos caracteres e das condições espaço-temporais.

Os personagens surgem enredados numa Curitiba semiprovinciana, cujo processo de modernização nunca se completa. Se há um travesti que clama não viver “sem pó e a pedra” e a presença de uma solitária câmera de segurança, muito mais fortes são as menções ao licorzinho de uva, à antiga marchinha de Carnaval, à pracinha, ao trenzinho que não pára de apitar. É interessante o uso expressivo do diminutivo diante da sordidez e do apelo sexual dos contos. Se, por um lado, sugere um estádio de inocência incompatível com a exibição de taras e obsessões, por outro, parece interromper a meio caminho o processo de dissolução em que se encontram os personagens.

Dessa forma, aprisionadas numa condição moral entre a inocência e a depravação, essas criaturas espelham a “cidade social” estacionária no curso da modernização. Ao ouvir que “Curitiba já não é a mesma”, um personagem reflete que o inverno anda “cada ano mais gélido”.

O frio dos descampados rurais entra, assim, sorrateiro (como um “terrorista”) no espaço urbano de Curitiba, lembrando que, embora a cidade tenha se desenvolvido, as forças da natureza, sejam elas atmosféricas ou ligadas a pulsões instintivas, podem atacar qualquer um, a qualquer momento.

Capitu, irremediavelmente ligada à adúltera Bovary, não tem direito à defesa no universo de Trevisan. Sentenciada de antemão pelo provincianismo arcaico que perdura nas estruturas semimodernas de uma sociedade pós-agrária, está aqui destinada não só à traição, mas às agruras de uma existência tacanha, sem remissão nem degredo.

Ao contrário da heroína de Machado, “enjeitada na Suíça”, a professora resigna-se com o “calvário” de humilhações a que se submete em nome do amado: “Condenada a vigiá-lo, a guardá-lo, a sempre esperá-lo”. Sua Suíça é aqui. Curitiba, Brasil.

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u38432.shtml

Cemitério de Elefantes

Se você vai ler Dalton Trevisan pela primeira vez, eu o invejo. Não é todos os dias que temos essa revelação do primeiro encontro com um grande escritor. Digo-lhe mais: você vai encontrar Dalton Trevisan em um de seus melhores momentos, este Cemitério de Elefantes.

Os elefantes são por definição mitológicos, não tivessem eles carregado o mundo no dorso durante tanto tempo, Dalton Trevisan é também um mito. Não ficaria nada admirado se, depois de ler o livro, você me viesse com uma pequena decepção. Afinal de contas os elefantes não são assim tão grandes. Há muitos anos, um amigo me pediu uma relação de romances que ele deveria ler. Indiquei alguns. Mais tarde me comunicou que desistira de lê-los, porque logo o primeiro, aquela história de pescaria, era de fazer dormir um pote. (Que história de pescaria). Moby Dick. Botei as mãos na cabeça: Moby Dick, uma história de pescaria! Nem o tamanho da baleia branca impressionara aquele diabo.

Pode acontecer que você já tenha lido elogios ao autor deste livro e queira saber por que nós o colocamos nos cornos da lua. Em primeiro lugar, não empregamos essa linguagem bárbara. Em segundo, achamos simplesmente que Dalton Trevisan é o maior contista brasileiro vivo e um dos maiores que o mundo possui atualmente. Por que então é ele mesmo conhecido do que o permitiriam esses títulos? Porque é um homem misterioso. Ninguém sabe onde ele mora, ninguém o vê. Sabemos que ele existe porque publicou alguns livros e porque – eis o principal – de tempos a tempos, alguns privilegiados recebem pelo correio um folheto rústico, onde se contém a melhor literatura escrita no Brasil. Quando isso acontece, esses privilegiados vão para um canto escondido e saboreiam as páginas de Dalton Trevisan como quem toma um excitante. Depois, na  qual, trocam sinais misteriosos, cochicham e olham para o resto do mundo com um ar de superioridade. Se alguém lhe falar no vampiro de Curitiba é Dalton. Especialmente se lhe falar em Curitiba. Há no mapa uma cidade com esse nome. É outra Curitiba, mesmo, está todinha em Dalton, com seus tarados e suas solteironas, seus botequins e seus casos noturnos. Alguns curitibanos ficam orgulhosos quando lhes dizemos que eles vivem na capital do mundo. Mas isso é um código nosso, que eles não entendem. A falar verdade, eles nem sequer vivem em Curitiba.

Leia este livro como se fosse um clássico. Não se preocupe com as histórias. Se elas não terminarem, é porque os personagens regressaram à sua vida normal, ou Dalton não quis acompanhá-los por mais tempo. Todos eles estão vivos, a  distância entre as páginas deste livro e a realidade é menor do que entre uma rua e outra. (Cuidado com os alfinetes. Eles podem esperar as duas moças gordas. Não dê dinheiro ao velho). O segredo da grandeza de Dalton Trevisan é esse: trazer o mundo para dentro de seus livros, sem distorções, sem desidratar a realidade. Viver já em si é uma coisa espantosa.  Manter a vida é como empalhar o pássaro sem que ele deixe de cantar. Que faz Dalton? Não empalha.

Nas suas histórias não há grandes tragédias nem sujeitos excepcionais. Seu mundo é tão real que talvez nem seja captado para nós de hoje: sua obra é todo um ato de sobrevivência – sobrevivência de uma linguagem, de um tipo de vida, de um tipo de morte. Nenhum outro escritor brasileiro atual traz mais do que ele a marca do futuro, o sinal forte da perenidade. Ele escolheu a estrada simples dos que têm alguma coisa a dizer.

Os elefantes morrem na solidão, você sabe, e além da tromba e do marfim tem os seus dias de circo e de furor. No mais, são medíocres e pacíficos. Não diferem muito dos homens. Para Dalton Trevisan, os homens vivem na sua florestazinha particular, num assombro. O homem e a mulher são animais que precisam de ternura e de sonho, e se alimentam de frustrações e de chocolates.

CUNHA, Fausto. “Quase Elefantes”. In:TREVISAN, Dalton. Cemitério de Elefantes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975

Chorinho Brejeiro

Chorinho Brejeiro

Continhos Galantes

Continhos Galantes

Sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Ficha Técnica

Gênero: Contos

Ano de lançamento: 2003

Ano desta edição: 2010

Editora: L&PM Editora

Páginas: 104

Idioma: Português

Citação: “- Agora de pé.
– Será?
– Aperte as pernas. Mexa. Suspire. Grite.
– Não sei.
– Não sabe dançar? Então dance. Sem sair do lugar.
Salve lindo pendão da esperança, salve, salve.
– Veja, estou tremendo. Será de…? Tão diferente.
Testinha úmida, revirava o branco do olho, o pescoço ondulante de cisne, a língua rolando no céu da boca.
– Desculpe a unhada.
Na hora nem sentiu, depois saiu sangue.
– O que você fez, querido? Ai, amor…
Vingado, eu, que nunca podia dançar com a moça mais alta. O baixinho de todas as paixões e nenhuma correspondida. Pardal nanico, por todas as tijiticas perseguido.
– Veja o que me fez. Minha mão, olhe, ainda treme. Ai, amorzinho.
Brilho no céu em raios fúlgidos o brado mais retumbante que ouviram do Ipiranga as margens plácidas.”

Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba, selecionou ele mesmo os contos que fazem parte desta coletânea. E, olha, selecionou muito bem. O livro é recheado de luxúria e sedução em 14 ótimos contos de um autor considerado mestre neste tipo de narrativa.

O livro começa com “Na pontinha da orelha”, onde Nelsinho, o próprio vampiro de Curitiba, em uma aventura de sua adolescência, visitando Neusa, tenta ludibriar a vó e guardiã da moçoila (“Mudá-la para o sótão. Acaba rolando da escada”) para poder trocar o óleo.

Em “O Roupão”, uma esposa adúltera e um amante desconfiado num encontro furtivo, com talvez alguém na platéia… O interessante de Trevisan é construir, em menos de 10 páginas, personagens complexos, com histórias, medos e frustrações, pequenos desvios de caráter, seus desejos e esperanças.

Em “Cafezinho com sonho”, um chefe dando em cima de sua funcionária durante o expediente (não é assédio se for de comum acordo, creio eu). Trevisan mistura o pouco que há de narração neste conto (são praticamente só diálogos), com as impressões do doutor Osíris (“um tanto afogueada, arzinho desafiante de riso – essa já perdeu o respeito”), não se preocupando com formalismos; o resultado sempre é gostoso de ler, como as investidas em dona Laura.

“Os mil olhos do cego” já foi comentado aqui, e trata de dois amigos que se reencontram, um deles bem disposto a “apimentar” a relação dos dois.

Em praticamente todos os contos do livro, um pouco de sedução, perversão ou luxúria: em “O Matador”, um homem se encontra com sua amada, “99 quilos de carne branca”, para uma noite de libertinagem. Em “Peruca loira e botinha preta”, um casal de amantes une-se para um último encontro furtivo: ela, somente com um casado a cobrir seu corpo nu, para satisfazer seu amado, mas morrendo de medo do marido; ele, pronto a fazer tudo que não pode em casa (“Quer mais, sua cadela? O quê? Senhora honesta? Não me faça rir”); quando se encontram novamente, a conclusão é simplesmente genial.

Um marido boêmio, um velhinho safado em confidências com seu médico (“As mais crescidas sabem tudo. Menina… a gente que ensina”), confissões de donas de casa atrevidas (“Foi lá uma tarde consertar o balcão. Eu passava pela sala, sentia o olho atrás de mim. Mulher sabe, ela adivinha. Não foi dita uma palavra. Voltei da cozinha, olhei aquele braço mais peludo. Me deu uma coisa. […] A cama estava perto, só fechamos a porta”), um conserto de chuveiro que aproxima dois velhinhos (“Vou com tudo, ela recebe num longo suspiro. Entro com firmeza. Aí geme e pede pra morrer. […] Quer mais? Castigo sem dó. Que se farte, a avozinha”), um advogado safado e uma cliente manhosa (“No meio das pernas um botão chamado cli-tó-ris. Ali é que meu dedinho ia bulir”). Os feromônios exalam das páginas, e Trevisan não deixa ninguém de fora de sua orgia literária.

Sem nunca deixar uma leve ironia pairando ao fim de cada conto, Trevisan não é óbvio, nem vulgar, não prega falsos moralismos, e excita a imaginação de quem gosta de boa literatura.

Postado por Sérgio às 12:36

Contos Eróticos

Os leitores de Dalton Trevisan não deixarão de saborear a involuntária ironia que é a publicação simultânea de uma seleção dos seus Contos eróticos (Rio: Record, 1984) e do dever escolar em que Nízia propõe uma exegese mítica da sua obra (Cemitério de mitos. Rio: Achiamé, (1984). Não é este o primeiro “estudo cuidadoso”  por ele inspirado: há vários outros, todos dissertações universitárias cuja tendência por assim dizer irresistível é Tomá-lo ao trágico e ao melodramático, como “crítico da burguesia” , ou do “capitalismo”, ou da condição humana, tudo isso, naturalmente, à custa de portentosas citações do jovem ou do velho Max, de Lacan e outros tratadistas do momento, e expressão no vocabulário absconso que procura sugerir insondáveis profundidades da análise. Tanto quanto o Brasil, que segundo  o famoso apotegma, merece políticos melhores que os usuais, pode-se dizer de Dalton Trevisan que não merece as  indignidades críticas a quem tem sido submetido.

Nízia Vilela atirou-se conscienciosamente ao trabalho, dedicando 45 das 100 páginas à exposição pela milésima vez repetida do que escreveram os grandes e os pequenos nomes e nomes do pensamento contemporâneo, nomeadamente o falecido Roland Barthes que, algo em outros centros  de cultura, ainda conserva entre nós os seus sortilégios. Isso representa mais d 50% do texto, porque as citações continuam, bem entendido, no que se pode ter como a Segunda parte da dissertação, em que a autora parafraseia os contos de  Dalton Trevisan para “acompanhar o processo de desmitificação das falas da pequena burguesia”. Se é de falas da pequena burguesia”. Se é de “falas” da pequena burguesia. Se é de  “falas’ que se trata e se as da pequena burguesia antes disso estavam mistificados, eram míticas ou mitológicas, é problema que, no caso, deveria Ter sido esclarecido antes de mais nada. Seja como for, a autora avança com desassombro pela floresta encantada das citações, evocando sucessivamente, como outros tantos exorcismos, os nomes de Gramsci, G. Genette, Barthes (a propósito, por exemplo, do teatro japonês), Ducrot, Armando Servovith, René Girard, Mircea Eliane, Freud, Lacan, Marcuse e outros menores, alguns já aludidos por outros, como os veneráveis  Platão e Aristóteles.

Assim, pretendemos, por exemplo, que “Cemitério de Elefantes é o ponto de partida e o limite de um processo de  frustração e estaticidade”, o que só pode ser entendi como a frustração e estaticidade da obra de Dalton Trevisan, o que, segundo imagino, não estava nas intenções da autora. É verdade que ele escreve por meio de  sintagmas, lexias sequência prooairéticas e semas, tudo isso constituindo o seu código retórico. Mas, há também o código actancial que assinala o início da narrativa, para nada dizer do código cultural que “remete à sociedade de consumo, à pressa que sobredetermina aqueles que dela fazem parte”. Que somos todos nós, creio eu. Contudo, em matéria de “consumo”, a sociedade de Dalton Trevisan vive concentrada em bens de outra natureza, em elegantes supermercados administrados pelas Otílias e pelas Dinorás (tomemos esses nomes como alusões simbólicas a um código cultural).

Nessas perspectivas, terá sido mera coincidência a atitude estudiosa em que se deixou surpreender o belo modelo escolhido para a capa dos Contos eróticos, mas, quem nos dirá que ela não está lendo, se não uma página de Lancan, pelo menos um conto de Dalton Trevisan? Um dos seus contos eróticos, claro está, como “Mocinha de luto” ou “Trinta e sete noites de  paixão”, exemplos ilustrativos das falas da pequena e até da grande burguesia. Se, pretendendo representar ou refletir as posições mais avançadas da crítica contemporânea (já agora se esgarçando por todas as costuras) esse livro se resolveu, afinal, numa tediosa repetição dos seus lugares-comuns mais esfaltados e das idéias jornalísticas em moda, nem por isso acrescentou qualquer território crítico a respeito de Dalton Trevisan. A propósito de  uma arte que se caracteriza, antes de  mais nada, pela originalidade narrativa, tudo o que a autora conseguiu foi voltar aos que já se disse e redisse de outras narrativas que com ela nada têm de comum (na hipótese, a obra de Balzac ou o teatro japonês).

Contudo, a simples leitura de “Dinorá, moça do prazer”, escrito “no estilo de Fanny Hill”, evidencia os processos literários de   Dalton Trevisan, em que a sátira dos costumes só tem sentido enquanto sátira da literatura convencional, e vice-versa; assim, para saber lê-lo seria preciso, no caso, Ter lido as “memórias de uma mulher de prazer” (1749), e não as congeminações de Roland Barthes a pretexto de uma obra menor de Balzac, já se pretendeu que Fanny Hill não é livro obsceno, ponto de vista idealizante a que os livreiros deram instintiva resposta sarcástica colocando-o sem hesitar na estante das obras pornográficas. Dalton Trevisan substituiu pela paródia pura e simples o sentimento pastoso e selaz de John Cleland, assim como este último, segundo se diz,  escreveu deliberadamente a réplica satírica a Pamela, modelo e protótipo da  novela sentimental, tudo isso na  atmosfera ao mesmo tempo puritana e  depravada do século XVIII. Como muitos escritores modernos parecem haver perdido o sentido das diferenças que vão das “graças de caixeiro viajantes” à literatura enquanto recriação metafórica da realidade, cabe notar, se  passagem, que, a exemplo dos grandes clássicos da literatura fescenina, John Cleland não emprega  um único palavrão, distinguindo-se, ao contrário, pelas elaboradas  perífrases e eufemismos  com que, no fim das contas, se torna repetitivo e por onde confina com a subliteratura. Mesmo assim, seu livro é, por esse lado, uma lição implícita aos supostos realistas dos nossos dias, que se julgam emancipados e desafiadores simplesmente por polvilharem os seus textos com a “pornografia que moleque escreve em muro”, para lembrar as palavras com que Andrade Muricy designava a “grosa vulgaridade pedantesca” do Serafim Ponte Grande.

É nessas perspectivas estruturais que devemos ler os contos de Dalton Trevisan, obra desmistificadora e desmistificadora se jamais houve alguma; não deixa de ser igualmente trevisiano que as leituras pedantes por ela provocadas tenham a inesperada conseqüência de desvendar como mistificadores e mitificantes os processos correntes da crítica.

MARTINS, Wilson. “Seqüências, proairéticas. “Jornal do Brasil”. Rio de Janeiro, 6 jul, 1985.

Crimes de Paixão

O  TRÁGICO DESTINO DOS JOÕES E MARIAS DE TREVISAN

Dalton Trevisan é autor austero com seus personagens não lhes concedendo mais de oito, nove palavras por diálogo, nada de delongas, um dos Joões explicando monocordicamente porque aceitar ser traído, bastam cinco palavras, o tom contido, o motivo – não precisam correr rios de  períodos, um capítulo inteiro. A narrativa, mesmo nos momentos de grandes tensões, obedece a idêntico      mister,    somente

funciona  importante, o necessário à compreensão do leitor e sua automática participação visual; nos trabalhos do autor paranaense é peça precípua saber ver através deles. Talvez daí a dificuldade da literatura de  Dalton Trevisan se encarada como especulação de laboratório apenas acessível aos exegetas de sua obra.

A inventividade da linguagem seca, não permitindo agrados a determinadas correntes moribundas, recusando interpor frases de efeito suspeitamente bucólicas processada por Trevisan, além de seu caráter insólito e estupenda. O adjetivo vem a propósito quando se observa que a construção das histórias está sedimentada em fatos corriqueiros acontecidos com Joões e Marias, habitantes de nossos submundos e psíquicos. Esses episódios crescem, extrapolam sua estética e sua concepção artesânica; difícil exprimir ou situar a qualidade preponderante nos contos do autor de “O vampiro de Curitiba”.

Recomendaria para cada texto de  “Crimes de paixão” uma atenção mais paradidática que de pura e entretedora leitura. Quem se propõe ler o livro como um mero registro mnemônico com certeza amargará para assimilar e entender precisamente o estilo narrativo e a modernidade linguística de Dalton Trevisan.

Fausto Cunha, aproximando um possível paralelo de Beethoven com Trevisan, diz que o primeiro “repetia interminavelmente as mesmas frases melódicas, e nisso estava o seu gênio”, ressaltando que esse recurso foi usado mais de uma vez nos contos de Dalton Trevisan, com grande mestria.

Entretanto, a cada verificação labores do autor, sempre algo inovador nos aboanha sensibilidade e espanto ora a ótica como o tema é conduzido ora o estigma social dos tipos, ora o desfecho às vezes esperado e ainda assim surpreendente.

Num dos contos de  “Crimes de paixão” – “A gilete na peruca” – a fatalidade que ameaça o coração em pânico de Laurinho traindo a  esposa é grotesca, porém humana. Estamos sujeitos a revesses como o de Laurinho, acontece com todo mundo, mas aí, quase como mágica. Trevisan acrescenta nesse sonho/pesadelo um toque pessoal de sua filosofia de escritor: seus personagens não luta pela redenção dos pecados cometidos, que o término do grito inconveniente brotando do peito, ameaçando tudo revelar aqueles que crêem nele. É trágico o destino das criaturas de Trevisan. Para eles não há perdão, comutação da pena – todos devem morrer; a morte aí não deve ser interpretada como aniquilamento absoluto da alma e do corpo, seria como a  diminuição de alguma coisa íntima, as pessoas se tornando cada vez menores, cuidando de respirar o que lhes permitir a mão do autor, como os diálogos do livro “Crimes de Paixão” mais exige do que concede, qualquer capitulação seria intencional.

AFFONSO, Wamilton Cardoso. “O trágico destino dos Joões e Marias de Trevisan”. O Globo. Rio de Janeiro, 08 de out., 1978.

Desastres do Amor

 Publicado em 1968, “Desastres do amor”, já na Quarta edição, confirmaria seu autor como indivíduo austero com seus personagens e tipos, não lhes concedendo mais que oito palavras por diálogo. Creio que a partir deste trabalho. Dalton Trevisan iniciava, de fato, a sagra dos joões e  Marias. A linguagem é seca, sem agrados ou simpatias para com as correntes ditas clássicas, além do seu caráter insólito.

O adjetivo vem a propósito, ao conservarmos que a construção dos contos está sempre sedimentada nos fatos corriqueiros das existências de João e Maria. Estes episódios crescem, perdem seu caráter ordinário e extrapolam a concepção artesanal do trabalho, atingindo um nível estético e formal de grande motivação humana. Entretanto, vamos observar que, mesmo nos momentos de desvairadas paixões, somente funciona o necessário à compreensão do leitor, nos textos do autor paranaenses carece saber enxergar através deles.

Recomendo a leitura de “Desastres do amor” uma atenção mais paradidática do que de pura e entretedora libação dos sentidos. Quem se propuser a ler o livro para mero registro Mormônico vai amargar bastante. Fausto Cunha, fazendo um paralelo entre Beethoven e Trevisan, assinala que o primeiro “repetia interminavelmente as mesmas frases melódicas, e nisso estava seu gênio”, que este recurso é usado mais de uma vez por Dalton Trevisan, e com excelente resultado. Há sempre uma atmosfera de  espanto e estranheza na boca de cada João, uma sensibilidade doentia, mesmo, nos comportamentos das Marias; ora a ótica que nos permite entrever o desmembramento da família e a tragédia social acarretada: ora o desfecho as vezes esperados e, assim mesmo . A fatalidade que amaça corações e a mesma que causa o alarido irreversível entre os pacatos os contemplados com a ignorância…

Estamos à mercê de Trevisan, tudo é grotesco é inquestionavelmente humano. É mágico.

Medonho seria o destino das criaturas de “Desastres do amor”, não fosse o filtro zombeteiro que o autor vai inoculando em todos os Joões e Marias (nossos reflexos inconscientes). Para eles a morte é uma solução em si, e não a do problema que os afligem. É como se alguma coisa íntima não se acabasse ali, apenas incapacitada de respirar. Dalton Trevisan mais exige do que acontece.

AFFONSO, Wamilton Cardoso. “Para desastres amorosos, o filtro do humor. O Globo, Rio de Janeiro, 01 de jul, 1979.

Desgracida

MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

Dalton Trevisan é como sexo e futebol: as posições e os momentos de clímax parecem sempre mais ou menos iguais, mas a gente continua gostando.
“Desgracida” não é essencialmente diverso de livros como “Pico na Veia” ou “Macho Não Ganha Flor”. Estão ali suas figuras de classe média, em cenas microscópicas de tara e crueldade, às vezes reduzidas a breves diálogos.
“Trate de arrumar logo uma mulher. (…) Ao menos uma namoradinha. (…) Que seja então uma diarista!”, diz o pai ao filho.
Mais à frente, num outro miniconto, duas mulheres conversam sobre uma garota abandonada pela “desgracida” da mãe, que planeja readmiti-la em casa porque, aos dez anos, “já lava uma loucinha”.
A forma elíptica é a melhor maneira de captar a redução dos seres à condição de objetos, de desentranhar da linguagem corriqueira seus mecanismos de “coisificação”.
Num conto mais dilatado, “Iluminação”, o narrador volta à casa de uma “polaquinha”, cujas coxas imaculadas lhe renderam uma “primeira iluminação erótica”, no dia de seu velório o que não o impede de entrever, nas pernas da filha da prostituta morta, um “mesmo branco de nova epifania”.
A morbidez das relações sociais se soma à fissura sexual (recorrente no uso de diminutivos que fuçam obscenidades) e à retórica de bolero (cuja pompa mascara pensamentos inconfessáveis). Podemos não compartilhar as taras das personagens de Dalton, mas ele reproduz a dinâmica do desejo, do deslizamento insaciável de uma sacanagem a outra na era da pornografia.
A insistência nesse universo repetitivo de pedófilos, onanistas ou crentes alucinados pelo erotismo bíblico sugere um escritor amarrado a suas obsessões. Mas obsessões que são sobretudo estilísticas, como provam as cartas do final do volume, na seção “Mal Traçadas Linhas”.
A edição não esclarece quem são os destinatários, mas é fácil para identificar o memorialista Pedro Nava e os cronistas Otto Lara Resende e Rubem Braga. Dalton solta o verbo: “Falemos mal do “Grande Sertão’”, e faz críticas à “pirotecnia verbal” de Guimarães Rosa na “história menos plausível na literatura de travesti”.
E, salivando maldade contra “O General em Seu Labirinto”, ele diz que Gabriel García Márquez “só fala por epigrama e aforismo, longo monólogo com a posteridade” comentário que vale como retrato em negativo da poética do próprio Danton Trevisan: um autor que busca, na forma breve e despojada, instantâneos de mortalidade.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2108201023.htm

Dinorá

Contos de Dalton Trevisan mordem o leitor
ANTONIO CALLADO
COLUNISTA DA FOLHA
O novo livro de Dalton Trevisan, “Dinorá”, nos faz pensar, mais ainda que os outros, em algum ourives absorvido em fazer, com seu ouro e suas pedras, minúsculos bichos, reais ou imaginários, que vamos examinando um a um, na palma da mão. Mas cuidado com eles. Eles mordem.
Eu anotei essa impressão de mordida ao ler em “Dinorá” o seguinte contozinho: “O marido, ao telefone: ‘Quando você vier para casa, não deixe a menina entrar no quarto –eu estou enforcado”‘.
Nisto leio um texto do Ivan Lessa, que mencionava o livro anterior de Dalton, “Ah, É?”, e observava: “…eu leio Dalton sozinho em voz alta; o estilo é tão afiado que eu tenho medo de me cortar; se me ferir, alguém voa com o band-aid”.
Por tudo isso, pelas mordidas e cortes, é que há uns 30 anos Helio Pellegrino chamou Dalton Trevisan de vampiro de Curitiba e o apelido foi aceito por todos, inclusive pelo apelidado. “Dinorá”, sem deixar de morder ou picar, embrenha-se também por uma espécie de jornalismo polêmico. Um desses artigos polêmicos chama-se “Capitu sem Enigma” e me deu a curiosa impressão de que eu já o havia lido.

Dalton começa firme, rodando a baiana, furioso como aqueles que querem roubar a Capitu o que ela tem de inebriante, capitoso, a infidelidade:
“Até você, cara –o enigma de Capitu? Essa, não: Capitu inocente? Começa que enigma não há: o livro, de 1900, foi publicado em vida do autor –e até sua morte, oito anos depois, um único leitor ou crítico negou o adultério? Leia o resumo do romance, por Graça Aranha, na famosa carta ao mesmo Machado: ‘Casada, teve por amante o maior amigo do marido’ –incorreto o juízo, não protestaria o criador de Capitu, gaguinho e tudo? Veja o artigo de Medeiros e Albuquerque –e toda a crítica por sessenta anos. (…) Agora quer o flagrante dos amásios? Lá está, no capítulo ‘Embargos de Terceiro’: a esposa alega indisposição, o marido vai ao teatro, volta de repente, surpreende o amigo que inventa falso pretexto. Em ‘Dez Libras Esterlinas’, Capitu revela os escondidos encontros com Escobar. (…) Quer mais, ó cara: a prova cabal do crime? A Bentinho, que era ‘estéril’, nasce-lhe um filho temporão –nenhum outro, um só e único”. Que era, por sinal, a cara do amigo, Escobar.

Aqui está o Otto: “Quem fica tiririca, e com toda razão, com essa história mal contada, e tão mal contada que desmente o próprio Machado, é o Dalton Trevisan”. E Otto, encarniçado contra a pretensa e desenxabida fidelidade de Capitu, troveja: “De onde os senhores professores tiraram esse despropósito e o passam aos imberbes e indefesos vestibulandos? ‘Dom Casmurro’ saiu em 1900. Machado morreu em 1908. Nenhum crítico nesses oito anos jamais ousou negar o adultério de Capitu. Leiam a carta do Graça Aranha, amigo pessoal do Machado. (…) Dar o Bentinho como o ‘nosso Otelo’ é pura fantasia. Bestialógico mesmo. (…) Refinadíssimo escritor, mestre do subentendido, do ‘understatement’, Machado jamais desabaria numa grosseira cena de alcova. Mas, se querem, o flagrante está no capítulo 113, ‘Embargos de Terceiros’. No anterior capítulo 106, ‘Dez Libras Esterlinas’, Capitu revela os escondidos encontros com Escobar”.

O que se conclui da leitura desses dois textos gêmeos, o da Folha e o de “Dinorá”, é que Otto e Dalton haviam discutido e esmiuçado o “Dom Casmurro”, em mais de uma das incontáveis conversas que tiveram um com o outro. Eram amigos como os que mais o fossem. Dalton Trevisan mais de uma vez viajou de Curitiba ao Rio para matar saudades do Otto, do fascinante papo do Otto.

Quando Otto e eu trabalhávamos juntos no “Jornal do Brasil”, mais de uma vez, ao sairmos da sala dos editoriais para retornarmos ao nosso pouso e nossas máquinas datilográficas, encontramos a figura clara de Dalton à espera, aquele ar enrustido de gringo fino. Era sempre amabilíssimo comigo, ou com quem mais estivesse presente, mas seu alvo e objetivo era ver o Otto, falar com o Otto. De preferência a sós.
Tal como a insônia parece ser hoje, essa era, naqueles tempos, uma das dificuldades vitais de Dalton: pegar sozinho o Otto gregário e perdulário do seu tempo. Muita gente assanhada e traquejada perdia às vezes a esperança de segurar o Otto num canto. Discreto, obstinado, Dalton Trevisan se limitava a esperar e esperar, como o herói de Kafka diante das portas fechadas do castelo. Às vezes, o Otto, malicioso, fazia conosco algum comentário “sotto voce” sobre o curitibano que viajava para vê-lo como quem viaja em busca de médico.

A verdade, porém, é que sempre acabavam almoçando ou jantando juntos, ou se recolhendo à casa do Otto. Para alegria de ambos. Eram amicíssimos e profundos admiradores um do outro. Otto foi descobridor e permanente admirador da literatura de Dalton e Dalton só fazia ao amigo uma crítica: a de que ele custasse tanto a dar como prontos os livros em que vivia empenhado.
E viva Capitu, que a todos fascina, de Graça Aranha e Medeiros e Albuquerque a Dalton Trevisan e Otto Lara Resende. A todos nós. Respeitemos um dos dogmas da nossa literatura, que é o da maculada conceição do filho de Capitu com Escobar. Cultuemos a sua infidelidade e não afastemos de nós a negra inveja que sentimos de Escobar.

Duzentos Ladrões

Duzentos ladrões é, salvo engano, a mais recente coletânea de contos do escritor curitibano Dalton Trevisan. Sempre fiel ao gênero, e frequentemente repetindo a experiência dos “micro” contos dos 111 AiS de 2001, Trevisan procura neste livro a essência das situações através de mínimos recursos literários. O ordinário, o patológico, a violência doméstica, as desiluções e suas consequências e o submundo são os elementos fundamentais desta experiência literária que poderia ser encarada como um ensaio sobre a maldade humana, ou sobre a humanidade sob condições de grande precariedade material e psicológica.
 
Em muitos dos breves contos, o autor personifica os seus personagens em discurso directo. Personagens rústicos que se exprimem por meio de um sociolecto minimalista, sem regras gramaticais ou concordâncias, mas que é sem sombra de dúvida a “vox populi” do Brasil contemporâneo.
 
Mas para quem na adolescência leu com avidez coletâneas como a Guerra Conjugal e o Vampiro de Curitiba, entre outras tantas, e viu por meio destas o retrato sem retoques duma realidade incômoda e perturbadora, fica uma pergunta fundamental, ainda que a reflexão pareça despropositada. Procura o autor a depuração de um estilo ou trata-se do declínio das suas capacidades narrativas? Muito provavelmente, é impossível sabê-lo ao certo, pois um escritor é necessariamente uma “antena” do seu tempo, um arauto do real e do possível, principalmente quando a realidade não é agradável à vista e ao coração. 
 
Com certeza, a ironia tão típica de Trevisan, continua intacta nesta coletânea. Exemplo disto é o curtíssimo conto:
 
No velório
 
No velório, a viúva:
– O que separou a gente foi a morte.
– Coragem, Maria.
Um longo suspiro
_ A vida dele acabou …
– …
– … e a minha hoje começa!
 
 
E também permanece a ubiquidade do escritor, que perspicaz não admite que nada lhe escape à sua mirada, ao seu olhar analítico, pois basta-nos recordar uma breve passagem de O Vampiro de Curitiba, para entender a premissa fundamental da obra de Trevisan:
 
“O que não me contam, eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo.”
 
Orfeu B.

Em Busca de Curitiba Perdida

Em Busca de Curitiba Perdida é uma coletânea com 23 textos de Dalton Trevisan, que dão uma noção geral da obra deste autor que parece não aceitar a modernização da cidade. No conto Lamentações da Rua Ubaldino, ele recorda o passado da rua onde reside – “No Princípio Era o silêncio na Rua Ubaldino” – mas o barulho da atual “metrópole” incomoda o escritor – “o amplificador dos agudos desafinados de Gog e Magog” – que amaldiçoa o tempo presente: “mais fácil passar um camelo pelo fundo duma agulha/ do que entrar um guitarrista cenobita no reino de Deus.” Em Curitiba Revisitada, Dalton pergunta: “uma das três melhores do mundo em qualidade de vida/ depois ou antes de Roma?”, e segue cutucando a capital ecológica – “cinqüenta metros quadrados de verde por pessoa/ de que te servem/ se uma em duas vale por três chatos?” – até definir Curitiba: “falso produto de marketing político.” Outro detalhe importante na obra do “Vampiro de Curitiba” é a utilização de personagens que vivem à margem da sociedade de consumo, sem perspectivas de ascensão social, praticamente presos a necessidades imediatas. “Ao utilizar sempre os mesmos João e Maria, o autor está fazendo uma crítica e ironizando a visão oficial da cidade, que não dá chance aos menos favorecidos”. No conto Canção do Exílio, o autor-narrador diz que apesar de ter vivido, não quer morrer em Curitiba. Ora, se alguém xinga tanto uma cidade, por que não vai viver em outro lugar? Dalton Trevisan, mesmo criticando, faz uma declaração de amor à cidade, às avessas. Considerado o maior contista da língua portuguesa de todos os tempos, Trevisan criou um estilo único de escrever, caracterizado por usar uma linguagem enxuta, que com poucas palavras consegue comunicar aquilo que deseja. Para ter uma idéia, basta ler um trecho de A Faca no Coração, quando ele define: “O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.”

Essas Malditas Mulheres

Em sua última coletânea de  contos – Essas Malditas Mulheres – Dalton Trevisan reafirma uma antiga obsessão. Como em outras obras, o contista levanta a  saia da sociedade curitibana para entrever-lhe a clandestinidade. O que é intimidade passa para o primeiro piano e o resultado, longe de ser excitante, erótico ou pornográfico, é antes, melancólico. Isso porque o sexo, na pena de  Dalton Trevisan, deixa de ser a  expressão das diferenças para organizar-se no palco onde se  dramatizam supostas diferenças.

Reunindo quinze contos, rápidos flashes que captam as personagens na adolescência, maturidade e velhice, o autor rompe com a noção de que cada conto dever organizar-se como uma unidade independente. Aqui, os contos debruçam-se uns sobre os outros, interrelacionam-se a ponto de um continuar o outro, os personagens avançam de um conto para outro, os temas e as situações se repetem e, nelas, o sexo culpado é o estigma que marca a relação homem/mulher. Nem mesmo o casamento atua como ritual de purificação da sexualidade. Nada. Nenhum sentimento é capaz de resgatá-la da nódoa que infecta por puro contacto.

Do ponto de vista da mulher, o sexo é tratado com um trampolim para a ascensão social (“Pobres Meninas”, “Modinha chorosa’). Trata-se sempre de uma ascensão ilusória, porque o máximo que a mulher consegue é aumentar a clientela masculina para quem vende revistas pornográficas e receber, num jogo tácito de prostituição disfarçada, uma ou duas pequenas notas.

Homens e mulheres confinados.

“- Um dinheirinho você tem?

Veja minha carteira.
Só isso? Só duas notas pequenas/
As grandes bem guardadas no bolso da calça.

Mais um pouco escondidinho aqui.
É só papel. Pode ver.
Pobre do meu velhinho”.
Em contrapartida, a mulher, nesse tipo de desempenho, impeto sexual.

Outras meninas, na posição em que está, elas premiam e nem suspira, você.
Sou assim, já disse. Bem, esta droga de vida’.
O casamento, a situação é aprisionada infelicidade. Homem e mulher buscam alguma saída nas relações extraconjugais, sem, no entanto, ameaçar a sua angústia, sua sensação de dano e perda (“Cântico dos cânticos). Na velhice, a imposição da doença, a presença marca da morte faz que cada um se dê mais e mais para si mesmo, sem saída possível.
Não há sonífero que derrube Dino Duca:
Vê se sou bobo de dormir – cochila noites inteiras sentado no sofá. Não acordo nunca. (p. 25)
Confrontos num cotidiano demoníaco.

Não obstante a malícia com que o autor sugere uma vasta combinação sexual, o que se tem na obra de Dalton Trevisan é uma espécie de erotismo solitário, porque homem e mulher estão confinados à autossexualidade, presos a um cerco narcísico de onde não conseguem sair, já que a presença do outro é instrumento impotente para desfazer o cerco autofágico de esterilidade, e morte.

Nesse contexto, homem e mulher têm a mesma medida e se equivalem. Assim mesmo, a herança bíblica faz da mulher a responsável pela sedução. É ela quem atrai o homem e o faz sob quem atrai o homem e o faz sofrer. Ela é culpada. Eva é culpada. As mulheres, então, reproduzem o gesto primeiro de tomar o fruto proibido, engendrando o pecado e a culpa bem como os malefícios de uma história contingente, de onde qualquer imagem paradisíaca está apagada. Atolados num cotidiano demoníaco, perdido o contraponto paradisíaco que deixa de existir mesmo como ilusão, homem e mulher são  postos frente à frente, em situação de diálogo direto (o narrador maquiavelicamente sai de  cena, o que subtrai da narrativa uma mediação, um plano a mais, uma visão perspectivista, lançando para a frente os interlocutores não mais contados, mas mostrados em sua ação). É o que é que se alcança com essa tática? Evidenciar, sem atenuar o modo como cada um se expressa através da linguagem.

Um estudo ligeiro de uso da  linguagem nos contos; levar o leitor a observar a relevância dos diminutivos, de frases feitas, do jargão erótico, do clichê, enfim, o que contradiz a idéia do sujeito de  discurso aqui substituída pela figura híbrida do reprodutor de discursos já elaborados, responsável pelo estranhamento do vazio no corpo da narrativa. Quer dizer, ao mesmo tempo que se reproduz ao infinito a situação de  enfrentamento do homem e da mulher, a linguagem que ambos utilizam é também reprodução. Embalsamada a linguagem preso os personagens num beco sem saída, as narrativas ganham força porque situam no nível do corpo, particularmente da sexualidade, a impossibilidade de um relacionamento capaz de instaurar o homem como um sujeito frente a outro. Nesse sentido, o sexo encarcera-se como uma representação simbólica da cristalização da vida social e a história que aí se conta é a história da alienação.

WALDMAN, Berta. “Vampiro entre as mulheres”. Correio Popular, Campinas, 20 fev., 1983.

Frufru Rataplã Dolores

Frufru Rataplã Dolores é o novo livro de Dalton Trevisan, que reúne ideias e excertos de contos publicados em outros livros seus. Reconhecido como um dos maiores contistas vivos da literatura brasileira, Trevisan compõe personagens e histórias intrigantes com seu estilo inconfundível, que alia linguagem popular e erudita.

Neste livro, estão os contos “Frufru Rataplã Dolores”, “João é uma lésbica”, A última ceia”, “Noventa cigarros por dia”, “Feliz Natal”, “Doce mistério da morte”, “O quinto cavaleiro do apocalipse”, “A velha querida”, “O menino do Natal”, “O carniço barbudo” e “O anão e a ninfeta”.

Óculo embaçado, bigode trêmulo, bem rouco:
– Eu quero você. Daqui não sai.
– Abra já essa porta. Se sou cadela, serei a mais escandalosa das cadelas. Abra ou se arrepende.
– Fale mais baixo.
– Se eu deito nesta cama você nunca mais se levanta.
– …
– Te deixo aí castrado e mortinho.
– Não grite. Por favor.

Derrotado, baixou os braços, afastou-se da porta.

Ela ajeitou a bolsa no ombro. E agarrou a sombrinha amarela. Para ver o que tinha perdido, a blusa meio aberta, sem sutiã. Ali o negro Jesus crucificado de delícias entre os dois biquinhos róseos.

– Desculpe, querida. Meu naco de pão. Fique. Meu copo de vinho. Só um pouco. Minha última ceia.
– Passe bem, doutor.

E saiu, loira de raios fúlgidos, vestido vermelho, espirrando fogo da botinha dourada.
Fim do corredor, olhou para trás: lá estava, a mão na parede, cabeça baixa. Muito longe para saber se chorava.

O autor recebeu o Prêmio Camões em 2012

Lamentações de Curitiba

Em breve!

Lincha Tarado

Bom escritor é aquele que não só inventa, mas que também persevera na invenção, no incessante recriar da própria obra. É o que diferencia o artista criativo do apenas repetitivo. Dalton Trevisan pertence ao primeiro caso, apesar de, aos olhos dos menos avisados, sua obra ser vista como redundante. Em realidade, um erro da  análise: a técnica de Dalton reside exatamente neste revolver de uma aparente mesma matéria sob ângulos inéditos, revelando-nos camadas profundas de um real estagnado pelo clichê. E é a ânsia de fugir do lugar comum e da fórmula (ainda quando magistra a formula do conto-síntese), neste “Lincha Tarado” , que faz que Dalton Trevisan experimente, não satisfeito com seus achados anteriores, correndo riscos por amor ao ofício.

“Lincha Tarado” retoma “Virgem Louca, Louca Beijos”  (Livro que inaugura uma nova fase), dividindo-se entre o conto curto, que abranda a  ácida ironia, na contemplação patética dos deserdados (“Tristeza do Viúvo”,”Chora  Maldito”  e “A Filha Perdida”); e o conto longo e/ou a narrativa polifônica, que se fragmenta ao longo do livro (com as mesmas personagens retornando mais adiante), no andamento progressivo de um caso. Pertencem a esta linha os contos referentes à namorada do sargento (e também estudante de álgebra) e os do velho à beira da morte. Ao lado destes dois enfoques principais, desenvolvidos nas narrativas mais longas, há os contos que desdenham línguas clássicas da  ficção daltoniana. Em “Não se Enxerga, Velho” e “Coiete, Poliana e Bengala”, o velho gavião, o rei da terra: em “Lincha Tarado, Lincha”, a prostituta, o rei da noite  e a  “santinha”, a guardiã do lar e, por fim em “Nove Haicais”, apenas o esboço dos seres que percorrem as narrativas mais longas.

A novidade, portanto, se oferece no conto longo ou fragmentário, que abrange, sob diversos ângulos, a classe média, mostrando que o destino de uma personagem se relaciona diretamente com o de outra. E as duas situações principais se oferecem como linhas mestras da crítica ferina de Dalton: a primeira centrada em Eros, exemplificada pela figura da candidata à prostituta, degradada no amor e em busca do homem perfeito”. Todos dizem isso/ – Esse não. É diferente. Quer até que eu conheça a mãe dele” (“Espadas e Bandeiras”). A Segunda representada por Tânatos, através da personagem do velho João, que morre lentamente, sob a floração de pitangueira e sob a vigilância da  “corruíra nanica’, que, de modo  simbólico, acaba por castrá-lo. A paixão humana esboça-se, portanto, entre os extremos; o amor e a morte, esta última encerrando, sem honra, e sem brilho, a aventura de sub-heróis, marcados eternamente pelo desejo insatisfeito. E tal desejo, na crítica implacáveis do Autor, termina no cemitério, na visão panorâmica das principais figuras da obra, decompostas pelo tempo e pela morte, no conto que encerra a antologia.

Nem tudo, porém, é positivo em “Lincha Tarado”, todo arranjo, toda inovação implicam risco. Enveredando pela narrativa longa, Dalton atenua a força dos casos, ao contrário do conto curto, que a primeira pela condensação, pela síntese dos efeitos, à semelhança de um haical. Mas tal deslize não diminui a força do livro, porque é apenas um oásis numa ficção que prima pela sutileza e pelo impacto da escolha adequada do detalhe significativo.

GOMES, Álvaro Cardoso. “Dalton Trevisan e os riscos da criatividade”. Folha de São Paulo, 26 out, 1980.

Macho não ganha flor

Dalton TREVISAN.- Macho não ganha flor.- Rio de Janeiro, Record, 2006.
Vinte e um contos e uma orelha que é um achado. Com ela, Dalton encontrou uma forma de se dirigir à crítica e aos leitores que o tacham de repetitivo. Qual é a tua, vampiro? Continuar «perdido entre a tautologia e a platitude»? Sim, mas com uma nova «galeria de monstros morais», pendurandose, assim ele o diz, «sobre o oco do próprio coração». Na verdade, uma das melhores coisas do livro é a supracitada orelha. Com ela, Dalton mostra que não ficou daltônico: continua a enxergar a vida como ninguém. Pelo menos uma face dela, a que lhe permite revelar-se como uma espécie de «moralista relutante».
Quem compõe essa nova legião de desnaturados? «Fornicários, sodomitas, pedófilos, sadistas, maníacos», uma grotesca «feira de aberrações» em que as deformidades estão mais, e principalmente, na alma. Difícil é acreditar que isso é novo, para quem sempre perscrutou os porões e os desvãos do ser humano. Toda essa gama de «filhos da noite desse vampiro de almas e lobisomem de espíritos» (ainda estamos na orelha) já se encontra disseminada por todos os 320 C.M.H.L.B. Caravelle
seus livros anteriores. Quem quiser que os procurem. Todos infelizes, grotescos, ridículos muitas vezes.
O que talvez seja uma novidade –não fomos reler todos os contos da vasta obra do autor– é a não concretização de «crimes» ou desejos reprimidos dos personagens deste Macho não ganha flor. Este é o caso, por exemplo, do estuprador fracassado, o macho em questão, personagem do primeiro conto do livro e que lhe dá título. A curra não resolvida: eis uma novidade, dirão os leitores, acostumados a estupros bem-sucedidos. O macho frágil na ação é potente na linguagem. A passividade da vítima esfria-lhe o sexo. Faz de tudo, e nada. Lembra-se de uma curra fantástica em que, após o gozo satisfeito, a mulher pensa em lhe dar de presente uma rosa ou um cravo pelo prazer sentido. Fica ofendido, não é boiola como o noivo de sua vítima e, como todo mundo sabe, flores são para viados e mulheres. «Que porra! Isso nunca me aconteceu» e «O que eu quero, vou lá e me sirvo», são duas frases repetidas no conto por esse macho destituído de poder. E isso, com raiva. Tendo broxado –Dalton aprovaria esse termo– o personagem sai de cena, deixando, ao fim do conto, o lamento de sua vítima que, após tentativa de suicídio, se casa com o noivo e passa a viver um relacionamento complicado: «Deve ser problema meu, sei lá. O nosso relacionamento não está dando certo».
Um dos melhores contos do livro é o terceiro, «Vestido vermelho». Parece uma continuação do primeiro. Naquele, em certo momento, o estuprador diz à vítima que se ela estivesse vestida de vermelho e salto alto ele ficaria excitado. No conto de agora, a personagem passa todo o tempo a se excitar imaginandose frente a seu homem, vestida de púrpura e de salto agulha. Na imaginação dela, ele não está nem aí.
Se no primeiro conto o impotente era o homem, agora aparece, em primeiro plano, uma mulher impotente em sua capacidade de sedução. Aqui, ela se despe lentamente, negaceia, busca a transa que não acontece. Enlouquecida de desejo, a frustração recai sobre o vestido vermelho que não foi capaz de erotizar o parceiro. Se o leitor quiser uma lista de cenas eminentemente pornográficas para testar a verve de Dalton, este conto é supimpa. Vejamos uma passagem em que a personagem se entrega de bandeja a este joão-ninguém morto-vivo:
Já serpenteio o strip da Virgem Prometida ao Minotauro – e tudo mostro sem nada tirar. Requebrando no salto agulha, assim gostosa, frente e atrás, se você pedisse.
Mas não pede. Me esqueceu para sempre? Pra você já não existo?(…)
Daí me ponho de joelho e descerro o teu zíper com mais devoção que uma samaritana descalça. Isso mesmo: sou uma putinha pra você se servir. Em adoração, eu beijo dardejo lambo. E a-bo-ca-nho com toda a gentileza. (…)
Nunca mais abraço cafuné mordida tapa amasso agarro beijo nó górdio da língua?
Deixa de ser bobo, homem!
Não está vendo este seio, esta coxa, este requebro de bunda?(…) Já não me quer, você? Tudo bem.
Despida dos meus sete véus, rastejando, te ofereço na bandeja de Salomé o coração apunhalado da minha pombinha e a cabeça falante do meu amor. (…) Basta que eu te olhe. Nem chego perto. Do outro lado da cama.
No deslumbrante vestidinho novo. Comprei com o meu dinheiro contado. Só pra ficar linda aos teus olhos.
COMPTES RENDUS 321
E sem você, ó puto dos meus pecados –coberta de púrpura ou nua em pelo–, pra que ser linda?
Maldito vestido vermelho.
Outra novidade é a pletora de palavrões em certos contos. Dalton sempre se utilizou deles, mas não tão violentamente, diríamos. Ao prazer em falar por metáforas (o professor de redação tem fardão da Academia Brasileira de Letras), junta-se a linguagem chula em nível nunca visto nos contos de Dalton. Cai-se no mau-gosto? E Por que não? Ele faz parte da vida, e o escritor sai-se muito bem, pois é notoriamente um mestre nisso.
Em «Prova de redação», por exemplo, a jovenzinha safada sabe exatamente por que espécie de prova vai passar se for à casa do professor: uma coleguinha lhe contou tudo, nos mínimos detalhes, e o conto se resume a isso –a reprodução do que a amiguinha diz a nossa personagem de 16 aninhos e que não é mais virgem. Se Dalton não tem vergonha de fazer falar seu personagem, o resenhista teme em reproduzir seu texto. Não cabe bem num artigo acadêmico… Mas, vamos lá:
Minha amiga diz que o doutor faz a gente pôr na boca o pau inteiro. Daí fala sacanagem (não tenho coragem de repetir) enquanto eu? Ela? obedece. Depois tem de ficar de pé, descer a calcinha, bem degava… devagarinho. Rebolar a bundinha e aí se masturbar na sua frente. (…)
Quando a gente pede pra morrer, o doutor oferece a pica bem dura, que ela? eu? abocanha e goza, de olhinho fechado.
-Ei, sua putinha! Assim, não. Olhe pra mim!
Eu abro e olho, o Carro de Guerra do Faraó todinho na boca. Ai, que vergonha. Que tremedeira. E gozo. E me reviro pelo avesso: ó gritaria na alma!
(…)
Minha colega preveniu que nessa hora não posso fraquejar. O quê? Mais?
O doutor ainda quer mais?!
-Só comer o cuzinho. (…)
À medida que você rebola, a Vara de Brasa Viva que separou as águas do Mar Vermelho (esse doutor tem cada uma!) se insinua de mansinho na tua fonte selada.(…)
E o doutor, que é poeta romântico, fica todo inspirado. Fala igual a uma arara bêbada no Passeio Público:
-Ta ouvindo, sua diabinha? O choro da maviosa Flauta Doce? É o que você bem queria, né? Diga sim. Sim. Gosta, sim. Dar o cu. Fala, vulgívaga. Já rebento as sete pregas desse rabinho. Até você gritar. Ai, como é bom. Engatar a minha pica todinha no teu cu.
Aí está muito pouco do mundo que Dalton Trevisan nos apresenta neste seu último livro de contos. Queres arriscar, leitor? Prepara o ouvido e os olhos para um mundo de palavras e de cenários no mínimo tristemente humanos.
Para terminarmos essa breve apresentação, voltemos à orelha do livro, ao final, no momento em que o autor fala de si mesmo, ironicamente, como um escritor menor. Aqui, repetimos a pergunta feita no início: Vampiro, qual é a tua? A resposta, deixamos ao leitor.
A nós outros o escriba sugere um amador de opereta bufa pornô. Os seus personagens são primos tortos da barata de Kafka e do rinoceronte de Ionesco. Ou gêmeos xifópagos espirituais do três irmãos Karamazov.(…) Não
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nos convence. Decerto esse não é o bom combate. Ao contrário, o autor perdeu a batalha, nem seque travada. Acabou a carreira.
Ora, direis: Um mestre do passado. Do passado, sim. Mestre, nunquinha.
Ai dele, sem presente. E o futuro? Só cinzas.
E só. E mais nada.

Sergio ALVES PEIXOTO
Universidade Federal de Minas Gerais

Meu Querido Assassino

A cada fim de ano ele surge na praça, invariavelmente. O público já se acostumou com suas investidas de dentes afiados, capa de seda curitibana, garras cintilando.

Seus contos, escritos em quarto escuro de portas trancadas são classificados por ele mesmo de “nada exemplares” e vêm sempre encapados com guerras conjugais: um homem (João) e uma mulher (Maria) que tanto podem estar circulando nas ruas neste momento como fixos em um passado sépia, um “belle époque” muito mais chique e menos dramática.

O amor só conhece duas faces em suas estórias que, se Edgar la Poe fosse brasileiro, escreveria: a do desastre e a do êxtase – João rei da terra e/ou vampiro de Curitiba; Maria puxando crimes de paixão; uma virgem louca oferecendo loucos beijos; um anjo vingador com sua trombeta executando chorinhos brejeiros sobre abismos de rosas.

Ele está sempre pintando o clima em seus títulos, geralmente coletâneas trazendo algumas obras primas do relato curto.

Agora chegando à marca do vigésimo, ele dá um balanço em sua criação, deixa o vampiro de lado, tira a casca e a máscara de alguns cacoetes e obsessões que emprestaram aos seus textos um estilo tão pessoal que qualquer leitor um pouco familiarizado com o seu trabalho é capaz de identificar à primeira vista mesmo sem sua assinatura.

Seu nome Dalton Trevisan. Seu instrumento de trabalho: o conto. Sua meta: amedrontar, deliciando. Sua cara: pouco veiculada. Seu endereço desconhecido. Seu diálogo com o público: um monólogo interior. Sua foto mais conhecida a tirada por um repórter com teleobjetiva atrás de uma árvore em uma tarde de outono. Seu número de telefone nem mesmo sua família sabe.

Esse misteriosíssimo escritor que muitos imaginam estar sempre bancando o charme do igualmente misterioso. Salinger (não dar entrevistas, não aparecer em público, não promover noites de autógrafos) talvez queria surpreender pela defesa exagerada da privacidade mas consegue muito mais do que isto: alcançar a notoriedade apenas pela sua forma de expressão requintadamente burilada sob a  aparência de matéria-prima não lapiada. Em outras palavras, um contista que mesmo à força de repetir o desejo de ser  o último dos menores, impera solitário.

Com os dezesseis contos deste “Meu Querido Assassino” que a Ed. Record distribui agora nas livrarias. Trevisan vem novamente à luta, estilista que Geraldo Galvão Ferraz com muita felicidade chamou de guerrilheiro com diálogos certeiros.

GOMES, Duílio. “Estilo Guerrilheiro”. “Estado de Minas. Suplemento Literário. Belo Horizonte, 10 nov., 1983.

Mirinha

Dalton Trevisan: “Mirinha”

Fabricio Muller, 10 de novembro de 2015

Desde a adolescência, tenho lido esporadicamente livros de Dalton Trevisan (cheguei a escrever algumas resenhas, reproduzidas no meu site). Sempre gostei, mas sempre esqueci assim que os li: aquelas histórias de mundo cão curitibano tinham, para mim, um impacto que se desvanecia rapidamente.

Pouco tempo atrás comprei num sebo duas edições pequenas de Dalton Trevisan editadas pela L&PM, a novela “Mirinha” (lançado em 2011) e a coleção de minicontos “111 ais” (de 2000). Neste ano o escritor curitibano fez 80 anos, a notícia teve destaque nos jornais do Brasil todo (a Folha, por exemplo, fez uma excelente edição especial apresentando detalhes do dia a dia do misantropo Dalton Trevisan), e fiquei com vontade de ler alguma coisa dele.

“Mirinha” conta a história da personagem título, uma moça que tem um caso com um homem casado, é expulsa de casa pelos pais e é sustentada pelo amante. Uma série de acontecimentos fazem com que a moça vire alcoólatra e tenha que se prostituir – e seu temperamento pouco maleável faz com que ela tenha dificuldades cada vez maiores. O famoso estilo seco e direto do escritor – sem absolutamente nada que não seja absolutamente essencial – não impede que sua personagem tenha uma grande profundidade psicológica.

http://fabriciomuller.com.br/wp/?p=1969

Mistérios de Curitiba

Curitiba, como se sabe, não existe. Pelo menos a Curitiba imaginária que serve de cenário aos contos e livros de Trevisan: uma cidade provinciana em que meninas são deformadas em colégios de freiras, em que mocinhas são defloradas em becos, esquinas e praças. Cidade onde o diabo ainda solto no meio do rodamoinho, meio à vidinha cotidiana, assumindo às vezes a forma de um vampiro, um vampiro sem assombrações e sem “make-up”, um vampiro humano correndo atrás da última fêmea da noite. E o mundo das guerras conjugais, de mortes na praça, de desastres de amor, abismos de rosas, crimes de paixão, mundo onde soa  – ressoando a moralidade bíblica – a trombeta do anjo exterminador. (Tídos, não por coincidências, de alguns livros de Trevisan).

São estes os mistérios da Curitiba trevisiana, embora estes “Mistérios de Curitiba” não representem os melhores momentos do autor. O livro – agora em Quarta edição, sendo a primeira de 1968 – não atinge o nível de “Novelas nada Exemplares”, de “O Vampiro de Curitiba” entre outros. Um Trevisan menor, portanto? É possível, o que não significa afirmar que não deva ser levado em conta. Afinal, não são poucos os que se referem a Trevisan como “um mestre do conto”. No caso, um mestre, sim, mas…

João e Maria, novamente, percorre a maioria desses relatos curtos, João e Maria, ele e ela, nomes simples para personagens simples, marcando ainda a simplicidade das narrativas e do mundo que ela reflete. Uma simplicidade que se traduz no estilo, cada vez mais seco, direto, usando poucas palavras – o mínimo – para dizer o máximo, o máximo possível, pelo menos. Sabe-se que Trevisan só reedita seus livros depois de refazê-los, reescrevê-los, ficando o estilo cada vez mais telegráfico. Bom ou mau sinal? Ele tem sido elogiado e criticado por isso. Não sei se a  edição definitiva de “Novelas Nada Exemplares”, é superior à primeira, editada pela velha José Olympio. Seus contos ganham em concisão, perdem às vezes em espontaneidade, àquela espontaneidade disfarçada (porque trabalhosa) que os bons autores conseguem transmitir.

Desta luta entre o domínio do texto e  a criação nascem os livros de Dalton Trevisan. Talvez seja acadêmico discutir se ele consegue melhorar ou piorar seus contos; talvez aconteçam as duas coisas. É possível que ele seja, ao mesmo tempo, o grande contista da província e o grande contista provinciano  – de uma província chamada Curitiba, cidade que, em sendo imaginária, existe realmente como se sabe.

COSTA,  Flávio Moreira da. “Mistérios de Curitiba”, de Dalton Trevisan. Gazeta Mercantil, Local 27 abril de 1979.

Morte na Praça

Morte na Praça, o segundo livro do contista curitibano Dalton Trevisan, antes editado com o título de Minha Cidade (1), vem mostrar não haver nele nenhum desejo de expressão rebuscada ou excepcional, também nenhum abandono, antes um lúcido horror à banalidade de algumas formas e processos literários de seu tempo. As primeiras obras caracterizam com nitidez o autor. Em Morte na Praça (2), encontramos praticamente tudo aquilo que constitui esta pessoal visão de mundo, que Trevisan enriquecerá e desenvolverá nos trabalhos posteriores. Precisa e compacta, sua obra ganho outro tom para aquele que não se contenta em olhar a superfície dos casos narrados.

Desde o início a perspectiva de Dalton Trevisan é nítida: não procura tocar em coisas que desconhece ou não compreende. Sabe que, para questões especiais, existem os especialistas. Compete a eles falar sobre os problemas da comunidade, os destinos do capitalismo, o perigo do alcoolismo, as doenças. Seu círculo é tão limitado quanto o de outro qualquer especialista. O artista observa, escolhe, intuí, mas todos os seus atos pressupõem haver uma idéia inicial, catalisadora. Se desde o início o escritor não se propõe nenhum problema, não haverá muito por intuir, quase nada para escolher. Se negarmos no processo de criação todo problema e toda intenção bem definida, então é preciso crer que o artista cria sem nenhuma premeditação, sem qualquer esboço pré-determinado, sob a influência de uma simples emoção. Se o escritor não tem nenhuma perspectiva, se escrever sob o impulso desordenado da inspiração, pouco consegue dizer. Não se poderá confundir aqui um problema básico: o fato de achar a solução de um problema e o fato de colocar o problema de uma maneira correta, objetiva. Só o segundo vale para o artista.

Em Cemitério de Elefantes nenhum problema é resolvido, mas a obra satisfaz assim mesmo, porque todos os problemas são colocados e distribuídos com clareza no limitado espaço-tempo do conto, e qualquer conflito surge sempre do personagem em situação.

A missão de um escritor não é a de resolver problemas. Seu trabalho consiste em criar os personagens, as circunstâncias e as formas nas quais eles falam de Deus, do pessimismo, da vida ou da situação política. Para Trevisan o escritor não será nunca o juiz de suas criaturas, mas sua testemunha quase imparcial. E este é o caso de Morte na Praça.

Os personagens de Dalton Trevisan não apenas, compõem a narrativa: têm o segredo de saber impulsioná-la por estranhos inesperados, como a Juventude “Começo de Vida”: “Não havia olhado uma vez sequer, no menos que ela percebesse. Alguns minutos mais tarde Juve recebeu o pacote e saiu para o sol. Não, nada ficará olhando da janela, enquanto Juve se afastava, desconfiado bem quer era inveja pelo seu vestido de seda azul, com decote debruado de branco, um pouco solto na cintura.”

O personagem não é criado segundo um parceiro. A característica ficcional de Trevisan deixa entrever um autor caminhando no rasto de suas criaturas, autônomas por isto mesmo, e autênticas. Personagem autêntico é aquele que se impõe ao escritor, delineando por vontade própria o seu destino. Juve é assim: tem exigências, recusa intervir em certos episódios que lhe estavam preparados e busca outros mais de acordo com a sua índole: “A senhora não mostrou o vestido rasgado e os vestígios do que ele lhe deixou”? “Não senhor – eu passei de viagem. Estava atrasada para o almoço e era dia de lavar roupa”.

A maneira de um pai preocupado, o escritor espera de sua criatura, muitas vezes, um doutor. Surpreende-se ao deparar com um jogador de futebol, estranhamente criado por ele. Assim, mesmo, com orgulho vai dizendo à galeria: “Este é meu filho”. Naturalmente, há uma escala de valores para o artista, segundo a qual ele escolhe, prefere, é influenciado, delimitado o mundo espaço-temporal de seus personagens. A autonomia que eles possuem é um dos segredos das narrativas de Dalton Trevisan.

A autenticidade das pessoas que vamos encontrando pelas histórias de Morte na Praça, repousa na luta que elas travam para ver os seus caminhos: luta desesperada e surda, sem solução muitas vezes, mas sempre luta em busca de uma condição humana digna: “Nenhum dos dois falava, empenhados numa luta surda, entre exclamações, de raiva, dor e desafio. Enquanto, não a derrubou, orgulhosa de sua força, Juve acreditou que poderia com ele. A mão foi arrebatada da vassoura, arrancando folhas, galhos e raízes. Os dois embolaram no pó. Debaixo dele, ao sentir-lhe o peso, Juve deu um grito”.

Há sempre um tom, alguns detalhes evocados, um silêncio inesperado e profundo, alguns prolongamentos perceptíveis por detrás de cada personagem ou situação, a presença de qualquer coisa insólita e maior do que aquilo que vem escrito. E isto que sugere Juve com sua atitude, sua resposta àqueles que querem destruí-la: “Estava atrasada para o almoço e era dia de lavar roupa”. Ela tem objetivos daí a sua força do problema, criado pelos outros e pelas circunstâncias adversas, é possível pela consciência que Juve tem de sua autenticidade. Não há obstáculo para quem arranca “folhas”, galhos e raízes, em busca de si mesmo.

Referindo-se aos contos deste livro, Assis Brasil comenta: “Falar da posição literária de um jovem autor, plenamente realizado, é situar o efêmero na ficção brasileira de hoje. E é, para o crítico, um fato alentador verificar que uma meia dúzia de jovens contistas tem elevado este tipo de expressão a um nível artístico nunca antes alcançado na literatura nacional. O conto como forma, atingiu, no estágio atual da ficção brasileira, uma dimensão universal, que faz de alguns autores, tão diferentes na concepção pessoal, protótipos de uma literatura adulta” (3)

Se não é o autor plenamente realizado, Dalton Trevisan possui todos os segredos para se tornar o mais importante contista nacional de nosso tempo.

Minha Cidade. Ed. do autor, 1960 – Curitiba.
Reedição da mesma obra. Foi modificado o título. Ed. do autor, 1964.
Assis Brasil, “A posição de Dalton Trevisan”, SDJB – 22,23/outubro, 1960.

APPEL, Carlos Jorge. Morte na praça. Correio da Manhã. Rio de Janeiro: 30 jan., 1965.

Nem te conto, João

Nem te conto, João 

Maria: adolescente, apaixonada, prostituta e virgem

out 8, 2013

Em “Nem te conto, João”, Dalton Trevisan traz diálogos que parecem acontecer nos 5 minutos de cada cigarro entre a bela moça de vestidos indecentes e botinhas sedutoras e João, um experiente dentista casado de classe média alta.

A história, produzida a partir de ideia e trechos de outros contos publicados pelo autor, trata da indecisão de Maria sobre se guardar, ainda que o dinheiro do seu pão dependa do empréstimo de seu corpo. Em passagens curtas e atemporais, ela se entrega na medida do possível e relata seus amores, casos e dificuldades financeiras a João, que parece lhe ouvir de forma superficial, apenas interessado na parte em ela tira sua roupa e faz o que lhe é pedido (mas sempre deixando as botinhas…).

Apesar de manter seu portfólio amoroso em meio às exigências do trabalho, a paixão da moça parece ser o Sargento, que foi para o Quartel sem mandar notícias, que lhe bagunça os pensamentos e volta vez ou outra exigindo sua presença. Entre nervos dessa confusão mental, dores de cabeça e falta de dinheiro, Maria vai ao consultório do dentista na busca de palavras, carinhos e reais.

Com um linguajar atrevido sem beirar a vulgaridade, Trevisan deixa ao leitor, quase um espectador capaz de sentir a fumaça do cigarro de Maria, a tarefa de aprofundar cada cena e entender os não ditos de suas reticências e exclamações.  A intensidade e velocidade das conversas permite uma leitura igualmente intensa e ligeira. E o final, como em boas histórias da vida real, não é tão óbvio, se é que existe.

“- Está pálida.

– Ai, João. É dos cuidos.
– Tem falado tão pouco.
– Sou assim.
– Não contou mais do Sargento. Do viúvo da cicatriz. Do hominho da Bíblia. Onde estão eles? Que fim levaram?
– Credo, João. Você decorou minha vida.”
(pg. 74)

http://livroecafe.com/2013/10/08/nem-te-conto-joao-dalton-trevisan/

Novelas Nada Exemplares

O volume “Novelas nada exemplares”, do Sr. Dalton Trevisan, tem 214 páginas. É fácil calcula o tamanho médio das 30 calorias. Várias só têm é  pagamento a mais comprida, 14 páginas não correspondem, por tanto, o conceito usual da “novela” como conto longo ou romance breve. Mas tamanho não o critério. Em face das confusões que os  falsos manifestações difundirem da arte novelística de Tchekov, um conhecedor da matéria, o professor Johannes Klein, em sua Geschichete der deutschen Novelle (Wiesbaden, 1954), esforça-se para caracterizar melhor os gêneros afins: a novela, pelo elemento da surpresa (que a proxima do drama) e a “short-story” pela “pointe” que a aproxima do epigrama). Chega mesmo a uma definição epigramática que cito sem querer assiná-la: “Uma novela é boa, quando surpreender; uma história curta surpreendente, quando é boa… Mas para que servem as discussões multisseculares e estéreis sobre generalidade e subgêneros?  “Tous les genres sont bons, bors l’enmuyeux”. Etimologicamente, a novela é o gênero que nos conta algo de novo digno de ser contado. E que é que o Sr. Dalton Trevisan nos conta?

A matéria do Sr. Dalton Trevisan é a vida de gente primitiva: crianças, adolescentes, pequenos empregados, prostitutas, criminosos, idiotas, loucos. Exemplo: um menino adoece; os pais ficam desesperados; o menino morre; e é só. É o enredo de “Pedrinho”, que abre o volume. O acontecimento é triste, mas não é trágico não é dramático, não surpreendente, não é novela. Diriam que censura, seria definição. A vida da gente primitiva costuma ser trivial. Por isso, o termo define perfeitamente as trinta histórias do volume.

Tudo é trivial naquelas vidas. Triviais são os horrores: descrições minuciosas de agonias, tentações, crimes (“O morto na sala”; “Tio Galileu”; “O convidado”. “Últimos dias”); nas 8 páginas de “Aventuras de João Nicolau” condensou o autor uma biografia inteira cheia de todos os crimes e objeções possíveis, contada com estilo telegráficos  como se fosse necrológico de um malfeitor na crônica policial de um vespertino. Triviais são as cenas escabrosas (“No bêco”; “A velha querida”), instantâneos de visitas em casa de prostituta principiante ou em bordéis. Quando o autor quis deixar sem explicação os motivos do comportamento dos seus personagens (“o noivo”, “o Domingo”, “Quarta de hotel”), conseguiu transformar em trivialidade o Absurdo. Em histórias como “Gigi” ou “Meu avô”, o próprio assunto é a trivialidade “tout court”e mesmo muito curta.

Assim como W. H. Bruford (Tchecov and his Rússia, Londres, 1947) desenhou um mapa da Rússia habitada pelos personagens do grande contista, assim seria instrutivo um mapa da Trevisanlândia: país habitado por loucos, idiotas, sádicos, prostitutas, meninos perversos, pederastas, cornos, assassinos, incestuosos, estupradores, presidiários, que moram em celas sujas, em pensões sujas, em becos sujos. Todas as 30 histórias são parecidíssimas, cada uma com cada qual outra. São como as caras de que dizia Wilde: “Uma vez vistas e nunca mais lembradas. “Seriam “nada exemplares”? Não. São exemplos perfeitos daquele gênero ennuyeux. Caracterizam-se pela ausência total do humor. No entanto, o autor pensou no maior dos humoristas ao escolher o título do seu volume, que evoca as Novelas exemplares de Cervantes, provavelmente o mais importante livro de novelas da literatura universal.

A pretensão inédita desse título parece desafio ã crítica. No entanto, esta, insensível a provocações, não deixará de assinalar, logo mais, o lado positivo da novelística do Sr. Dalton Trevisan. De um livro totalmente inútil o melhor seria não falar. Sou contra o conceito que atribui à crítica a tarefa de policiar o mercado de livros. O protesto só se justifica quando a publicidade ameaça perturbar a hierarquia dos valores, iludindo o público e, sobretudo, os escritores principiantes, sempre em perigo de seguir maus exemplos muito elogiados.

Só acontece isso com livros publicados por grandes casas editoras que, nem sempre bem aconselhadas na escolha das suas publicações, empenham seu prestígio, com imparcialidade, a favor de obras boas e de obras menos boas. No caso de Novelas nada exemplares já se podia ler que não se trata de “obscenidades gratuitas”, mas de um corajoso ataque contra as convenções morais. Examinarei logo mais a natureza desse ataque. Mas se, talvez, leitores ingênuos caírem na cilada, esperando delicias escandalosas em letras de forma, sejam advertidos: o livro do Sr. Dalton Trevisan não é pornográfico. Numa história como No beco, encontros de um adolescente com uma prostituta principiante, o autor chega a fazer uso abundante de cautelosas reticências. A mais audaciosa das suas – “ergueu o vestido para que eu visse, e eu vi” -não é revelação, a não ser para um adolescente. Mas mesmo alguns leitores já mais crescidos acharão o flagrante bem observado.

É este o lado positivo da novelística do Sr. Dalton Trevisan: é observador atento dos pormenores da realidade. Sabe imitar a fala da gente primitiva. Talvez sua verdadeira vocação seja a de cronista do cotidiano; e o cotidiano nem sempre é muito limpo. Se não fossem aquelas reticências, o Sr. Dalton Trevisan poderia parecer naturalista.

Mas é o Sr. Trevisan naturalista? Tratando dos dois maiores contistas do naturalismo, Maupassant e \’erga, críticos como Croce e Luigi Russo, como Renato Serra e Roland Barthes salientaram os motivos de piedade misericordiosa e de pavor pânico na descrição das existências primitivas e dos seus destinos catastróficos, o que – nem em Verga nem em Maupassant – exclui a serenidade superior do humorista. O Sr. Dalton Trevisan, que desconhece a atitude do humor, tampouco se apieda das suas criaturas. O motivo da sua atividade de novelista é outro: é a profunda aversão contra a vida que criou essas criaturas e contra a vida que levam.

Considerado assim, o livro do Sr. Dalton Trevisan pertence a uma grande tendência da literatura moderna: para defini-la bastam nomes como Sartre, Camilo José Cela e Moravia. É a literatura da nausée. Mas sente-se na leitura das Novelas nada exemplares que não foram escritas em Paris nem em Madri nem em Roma. A nausée do autor curitibano não é produzida pela vida sans phrase, mas apenas pela estreiteza da vida provinciana, que lhe parece maldição apocalíptica. Sabe descrever esses seus ambientes com a segurança de um naturalista. Mas exagera tremendamente. Não se sente seguro dentro desse mundo porque, na realidade, não é seu mundo.

Essa falta de segurança revela-se nas vacilações do seu estilo. Às vezes, despena o enredo (Chuva); outras vezes, conta em poucas páginas uma movimentadíssima vida inteira (Aventuras de João Nicolau). As mais das vezes conta em estilo de telegrama ou de notícias de repórter; outras vezes, perde-se nos meandros de intermináveis frases pseudoproustianas (A velha querida). Não é principiante no gênero, mas parece principiante na vida, de menor idade emocional do que intelectual.

Os muitos pormenores observados na realidade não se integram numa realidade artística, reflexo da outra. As histórias do Sr. Dalton Trevisan, contos de más fadas, parecem-se com Tagtraeumen, sonhos de acordado, excessos de imaginação desenfreada de um adolescente cheio de ódio contra sua realidade que é”luxe, calme et volupté” duma existência comodamente burguesa. Eis o motivo que inspira a esse jovem discípulo de Gide o grito de revolta contra a falta de sentido na vida. Mas muito naturalmente – ninguém renunciaria à sua vida para escrever contos – o autor só encontra essa falta de sentido na vida de outros, de criaturas inferiores, primitivas, insignificantes. Daí a extrema insignificância dos seus enredos. Como lema do volume poderiam servir os versos de Shakespeare:

“…(Life) is a tale

Told by an idiot, full of sound and fury,

Signifying nothing.”

O Sr. Dalton Trevisan responsabiliza a Vida pela falta de sentido das suas histórias. Mas – com licença para a observação – é ele, o autor, que as conta.

Não é esse o caso das novelas que o Sr. Dalton Trevisan evocou ao escolher o titulo do seu volume. No entanto, a comparação com o grande livro de Cervantes poderia servir para justificar a tentativa audaciosa do escritor paranaense. Conforme Joaquín Casalduero (Sentido y forma de las Novelas Ejemplares, Buenos Aires, 1943, p. 40), os acontecimentos nas novelas de Cervantes criam nos personagens um estado de alma próprio “para el hombre salvare”. Nas novelas nada exemplares do Sr. Dalton Trevisan, os acontecimentos criam nos personagens um estado de alma próprio para o homem perder-se. É uma inversão perfeitamente legitima, à condição de os acontecimentos prepararem, justificarem a surpresa da perdição (como, em Cervantes, a da salvação); isto é, à condição de tratar-se de novelas. Assim voltaremos às conclusões de Johannes Klein: “Uma novela é boa quando surpreende; uma short-stoty surpreende quando é boa.”Já se vê que as histórias curtas do Sr. Dalton Trevisan não surpreendem”.

CARPEAUX, Otto Maria. “Pretensão sem surpresa”. O Estado de São Paulo, 30 jan. 1959.

O Anão e a Ninfeta

– Me fiz de bêbado entre os bêbados, para ganhar os bêbados.

Me fiz de tudo para todos, para por todos os meios chegar a entender um só – ai de mim!

As duas linhas acima são a íntegra do conto “O Escritor”, do novo livro de Dalton Trevisan, O anão e a ninfeta (Editora Record, 159 páginas). A alusão bíblica é clara: Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível (I Coríntios, 9, 29). Mas enquanto o apóstolo Paulo queria converter os homens, Dalton Trevisan quer entendê-los. E a humanidade que o maior escritor paranaense enxerga é cheia de vícios, torpezas e defeitos.

No conto que dá o título ao livro, um anão gasta todo o seu dinheiro com prostitutas, que não só o satisfazem sexualmente, como frequentemente roubam suas roupas e o que ele tem na carteira. Em mais de uma história do livro, um velho senhor compra livros numa livraria apenas para chamar a atenção da balconista – que lhe dá atenção, mas não o que ele quer. Em “O jogo sujo do amor”, um homem bem sucedido tenta se equilibrar ente o amor da esposa e da amante, que vivem em cidades diferentes. No conto mais impressionante de todos, “O caniço barbudo”, um esquisito e avarento herdeiro vive só, acompanhado apenas pela empregada e por seus jornais – dos quais não se desfaz de jeito nenhum. “O velho poeta” conta, em primeira pessoa, o encontro do narrador (o próprio Dalton?) com um pretensioso e patético poeta. Em “O rosto perdido”, um homem abandonado pela mulher tenta se consolar com a companhia do cachorro. Até Inri Cristo e Maria Bueno aparecem. Ele, no pungente “O reencarnado”. Ela, num poema que tenta contar a história da santa popular de Curitiba.

E, claro, não poderia faltar os personagens habituais de Dalton Trevisan: prostitutas, bêbados, viciados, assassinos, miseráveis. Estes normalmente aparecem nas histórias curtas de “O anão e a ninfeta”, como a chocante “Programa”, em que o curto diálogo mostra todo um universo decadente:

– Vamos, bem?

– Quanto?

– Dez.

– Onde?

– Logo ali.

– Tá.

– Chegamos.

– Se alguém vê?

– Não tem perigo.

– Dez. Tome.

– Com dente?

– Hein?!

– Veja. Sem dente.

– Não. Sim.

– Qual é?

– Sim. Fique.

– Tá bem.

– Mas não morda.

Não posso afirmar se Dalton Trevisan conseguiu entender a humanidade sobre a qual se debruça, mas o carinho que ele sente por seus personagens é sentido também pelo leitor, é sim. Lemos “O anão e a ninfeta” um tanto chocados, e um tanto enternecidos.

Fabricio Muller 15 de junho de 2015

(publicado no Mondo Bacana em 2011)

http://fabriciomuller.com.br/wp/?p=1127

O anel mágico

Em breve!

O Beijo na Nuca

Crítica: “Beijo na nuca”, de Dalton Trevisan

  • Por Tribuna do Paraná
  • 10/12/2014
  • 02:00

Dalton Trevisan não é difícil de se encontrar em Curitiba. Ele está em todos os lugares. E não está em nenhum. Aquele homem, de quase 90 anos, com um boné, óculos de aro, camiseta e tênis – além das inseparáveis sacolas de compras – é o famoso Vampiro. Ele não se esgueira pela cidade. Dalton desce a Ubaldino do Amaral com tranquilidade. Esse passeio pelas ruas é que o faz dele um cronista moderno de assuntos antigos. Duvida? Espere para ler Beijo na nuca (Record, 144 págs., R$ 32), a nova coleção de textos do contista.

Dalton é um dos poucos escritores brasileiros capaz de se reinventar usando sempre os mesmos temas e personagens. São os mesmos Joãos e Marias, os mesmos merdunchos – como diria João Antônio – que povoam os cantos mais remotos e mais centrais de Curitiba. O amor da “Namorada” ou o “O Anjo” pornográfico que assoma à janela ou porta da virgem louca são as paisagens preferidas do escritor. Dalton não tem medo da crueldade, dos ciclistas mortos no trânsito (“Pardais”) e das noites frias do Passeio Público (“Noite”) – que bem poderia se chamar “passeio púbico” no universo do Vampiro.

Mas nem só das alegrias dos inferninhos é que vive a prosa do curitibano. Dalton chega a um momento em que a consciência da efemeridade é visível (“O Ladrão”), mas toda a carga de culpa e desculpa é aliviada do mesmo jeito há décadas: um punhado de balas zequinha. Esse é o Dalton. Esse é o Vampiro.

Tapa na casa

Em uma (das poucas) entrevistas que concedeu (como uma bênção ao afortunado repórter), ele disse que sua família fica surpresa ao vê-lo escrever sobre aquele universo tão particular. Parte desse espanto vinha do fato de que o advogado e empresário (Dalton era dono de uma fábrica de vidro) não frequentava aqueles lugares.

O corpo até podia não estar, mas a escrita ainda vive lá. Sua revolta com Emiliano Perneta (1866 – 1921) ou a antipatia por Helena Kolody (1921 – 2004) passam ao largo de Beijo na nuca, mas sem deixas de estapear a cara do leitor folgado, acomodado e que acha que já leu tudo.

Não, não leu. E é bem certo que nunca lerá. Dalton é como Gregor Samsa ou Robinson Crusoé que deixar de o que é sem abandonar a essência. Esse é o Dalton. Esse é o Vampiro.

http://www.tribunapr.com.br/blogs/contracapa/critica-beijo-na-nuca-de-dalton-trevisan/

O Grande Deflorador

O paranaense Dalton Trevisan é realmente um mistério. Não por ser um recluso que não concede entrevistas nem se deixa fotografar. O que o torna um caso à parte é ter preservado intacta a força de sua obra, ao longo de quarenta anos, sem nunca abandonar os mesmos assuntos e técnicas. Até os autores mais talentosos podem dar sinais de cansaço. Rubem Fonseca, por exemplo, parece imitar a si mesmo em contos recentes. Trevisan, jamais. Sua arte espartana, adepta do mínimo mais mínimo necessário, sempre produziu frutos maravilhosos. É o que provam os 21 contos reunidos no livro O Grande Deflorador.
Não estão presentes, nessa coletânea, textos de apenas uma ou duas linhas, como aqueles que Trevisan de vez em quando escreve. Mesmo assim, a concisão é extrema. Todas as histórias resolvem-se em poucas páginas. Para falar como o próprio autor, que usou essa expressão no título de um outro livro, a maioria dos contos trata da “guerra conjugal”. Os personagens estão entre os mais emblemáticos da obra de Trevisan: o marido brutal e a mulher submissa; homens traídos e homens abandonados, que então revelam sua natureza ridícula ou assassina; casais de velhos que se odeiam ou preservam grotescamente o afã sexual. Mas o livro também possui um conjunto de textos particularmente fortes, que revelam com clareza a visão desoladora que Dalton Trevisan tem de “nossa humana condição”. São contos cruelmente irônicos, cuja moral talvez se pudesse expressar desta maneira: “Não há salvação na inocência. Mais cedo ou mais tarde ela vai ser profanada”.
Dois contos, Meu Querido Assassino e Diálogo entre Sócrates e Alcibíades, mostram crianças que aguardam suas mães enquanto elas se entregam a perversões dignas do marquês de Sade. “Dorme, pobre menina, antes que o bicho-papão te pegue”, diz o sarcástico narrador num deles, ao observar a criança cair no sono depois de tanto esperar. O terceiro conto, brilhante e devastador, descreve a sucessão de tragédias na vida de uma mulher. Seu título é o mesmo do livro, mas, ao contrário do que o leitor suporia, o “grande deflorador” em questão não é outro dos homens sórdidos tão comuns nos contos de Trevisan. Ele é o próprio, digamos, Papai do Céu. Isso porque na realidade descrita por Trevisan não pode haver consolo em coisas “elevadas”, como Deus ou a arte. Não há transcendência. O que existe é a gigantesca roda da carnalidade, que vai destroçando os laços de família e o verniz da fé, da moral e das boas intenções.
Carlos Graieb

O maníaco do olho verde

Obscuro ou não, sexo é melhor que a violência em novo livro de contos

ADRIANO SCHWARTZ
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um rápido levantamento nos contos do novo livro de Dalton Trevisan, “O Maníaco do Olho Verde”, aponta para os seguintes temas principais, que obviamente terminam por se misturar: o mundo das drogas, da marginalidade e da bandidagem; a degradação da velhice; a questão sexual e suas variações agressivas e ilegais; e, com destaque, a violência policial. Os textos ligados ao último tema, na ordem do dia nesses tempos de milícias e tiros disparados com tanta facilidade, curiosamente provocam as passagens frágeis do volume. Parecem escritos com menos interesse pelo autor, como se ele precisasse cumprir uma suposta obrigação de reelaborar com a máxima carga possível o vínculo da ficção com a realidade mais atual.

Sexualidade humana
O contrário acontece com os textos que de algum modo lidam com os cantos obscuros e não tão obscuros assim da sexualidade humana. Dalton Trevisan já escreveu algumas narrativas marcantes sobre o assunto ao longo dessas décadas em que, com uma regularidade impressionante, vem publicando seus contos. Aqui, a história de maior alcance é a que dá nome ao livro. O personagem, que aparecera outras vezes durante a obra, assume a voz e tenta entender as razões de seus desvios. Ele começa assim: “Basta ser mulher, só o que vejo. O assobio, só o que escuto. É uma doença, certo? O bruto que se empina aqui no meio das pernas. Corcoveia e relincha. De mim faz o que bem quer. Ordena, eu executo. Não consigo controlar”. A partir daí, o tom quase arrependido vai se alterando, numa demonstração magistral de ritmo, para, ao final, se transformar completamente: “Podem me condenar, babacas e bundões. O que eu faço? Tudo o que vocês gostariam. Eu sou um de vocês”.

Desfecho redentor
Sem sair das investigações sexuais, mas em outro registro, que beira o cômico apesar da tragédia descrita, também merece destaque “O Noivo Perneta”, em que Dalton Trevisan quebra as expectativas do leitor apontando para um desfecho redentor que, em seguida, desmorona. Enfim, a despeito da constatação de que há em “O Maníaco do Olho Verde” tanto contos memoráveis quanto contos esquecíveis, o que fica é a confirmação, mais uma vez, de uma das mais consistentes produções da literatura brasileira contemporânea.

ADRIANO SCHWARTZ é professor de literatura da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

O Pássaro de Cinco Asas

O aparecimento de cada novo livro de Dalton Trevisan dá margem a que, de parte de alguns críticos, surjam as clássicas restrições como falta de originalidade da trama dos contos, a repetição de tipos e situações, as eternas focalização dos mesmos ambientes. De fato, nos 22 contos que integram “O Pássaro de Cinco Asas”, voltamos a percorrer as ruas do submundo curitibano, penetramos nos mesmos melancólicos “inferninhos”, corremos as mesmas fileiras de casas de lâmpadas vermelhas, deparando, nas esquinas, com nosso velho conhecido, o distinto Vampiro de Curitiba e seus companheiros da noite, sempre às voltas com bizarros impulsos, sonhos líricos e pesadelos sem fim.

De certa maneira, muitos destes contos parecem o desdobramento de aspectos do imenso painel que o autor vem pintando, desde os livros de cordel da fase inicial, da vida de uma comunidade que, embora aparentemente perdida no tempo e no espaço, tem contornos cuidadosamente definidos. Sim, neste livro os temas e os tipos se repetem. Mas – colocando o problema no campo da pintura – ao que nos consta, os críticos de artes plásticas jamais investiram contra, por exemplo, um Di Cavalcanti, pelo fato de repetir nas suas telas as mulatas, os olhos de mormaço. O mesmo poderia ser alegado a propósito dos eternos Cristos e dos palhaços melancólicos de Rovalt. E que dizer de Chagall, sempre a evocar o alado casal de amantes, a branca cabrita e o folclórico violinista no telhado?

Seria ocioso repetir que o importante, num ficcionista, não é, basicamente, a originalidade de temas ou de tipos, mas sim a capacidade de, em menor ou maior intensidade, recriar o milagre da vida e o mistério do ser humano. E já que tratamos de um contista, lembrar o exemplo de Carlos Drumonnd de Andrade, quando em Contos de Aprendiz, acentua que, nesse gênero, o que o seduz não é o enredo e desfecho, a moralidade, e sim um aspecto particular da narrativa, a resposta de um personagem, o mistério de um incidente, a cor de um chapéu…”.

Nas narrativas de Dalton Trevisan, por sua vez, o que nos seduz não é o interesse anedótico, a grandiosidade dos sentimentos focalizados, a amplitude da visão do mundo – mas, sim a sutileza da exposição do absurdo dos personagens, o impossível lirismo e a arte de, com duas linhas, criar uma personagem que respira, chora e ri. Veja-se, por exemplo, no conto “A Noite não tem Segredos”, com que destreza ele caracteriza, numa única frase, a heroína “Rita o amou por que ele era lindo e a explicava sem dó”. “É como em” Última Corrida de Touros em Curitiba “, e logo na Terça entrava em casa às três da manhã”.

Por outro lado, os heróis destes contos são sempre “noturnos”. A noite é o seu “habitat” natural e a linguagem é a da madrugada sem fim. Os episódios decisivos têm por cenário a noite e somente nela têm sentido.  Nessa paisagem noturna, o Vampiro de Curitiba, galopa puxando o cordão de “sabath” no qual, entre contorções e gargalhadas, desfilam “Ávila, a cortesã de novecentos quilos”, Lucila, que foi rainha dos jogos universitários e agora rola bêbada pelas sarjetas; Candido, o de cabelos de brilhantina brilhando na meia luz dos dancings; Valquiria, que embebeu as roupas em querosene e lhe pôs fogo; as louras “taxi-girls” da “Caverna Curitibana”. O “João Banana” que investe de bengala contra os que o apupam; Otília, a que deixava explorar por todos, Carlinhos o herói dos entreveros de cididos e navalhadas, a moça que tomou formicida com gasosa de ambrosia, o Homem – da – Capa Preta, e tantos outros figurantes da mitologia Trevisiana, inclusive o próprio Dalton, morto que sobreviveu aos seus fantasmas, gemendo desolado entre as ruínas da Curitiba perdida (p. 81).

Na fixação dessa sarabanda através dos bairros boêmios da capital dos pinheirais (que num passe de mágica se transforma em microcosmo), a linguagem do ficcionista, despojada ao extremo, ganha agudeza de ponta de buril, transformando-se em elemento da própria ficção da atmosfera da narrativa e da maneira de ser dos protagonistas. Essa sintonia entre forma e conteúdo confere às estórias dimensões de baixo relevo, acentuando a particularidade das suas criaturas viverem sempre em profundidade, mergulhadas em encubos que desafiam os exorcismos.

Seria ocioso ressaltar, aqui a importância do autor na renovação do conto brasileiro contemporâneo. Seja-nos permitido, porém, apontar, neste livro, um aspecto até certo ponto inédito em sua bagagem de técnico do gênero. Deixando de lado o costume de metamorfosear “fatos diversos” em contos, ele incluiu nesta coletânea um trabalho que fugindo às raízes kafkaninas, se situa mais (no tocante à estruturação técnica) na área de Maupassant, com começo, desenvolvimento e desfecho inesperado. Tratava-se de “Ó Doce Cantiga de Ninar”, episódio de uma aberração sexual tratada com profundo sentido humano e que, num “tour de force” artesanal, é resolvido numa única inarticulada frase – a da “bailarina da noite”.

Finalizando, concorde-se em que “O Pássaro de Cinco Asas” é possível de provocar, no público, reações as mais diversas: de surpresas, estupefação, perplexidade, repulsas, estranheza, espanto, horror. Alguns leitores poderão, também, chocar-se com a insistência do realce do lado mórbido das personagens. Não faltarão, ademais, os que, num ou noutro trecho, serão invadidos por sensação de náusea. Mas ninguém poderá honestamente, deixar de reconhecer que estamos diante de uma obra de arte.

BARBOSA, Rolmes. “O Vampiro de Curitiba reaparece”. O Estado de São Paulo, 12 maio, 1974.

O Rei da Terra

Mais um volume de contos de Dalton Trevisan. O Rei da Terra  que só agora leio, decorrido um ano de sua publicação. O ficcionista curitibano especializou-se na história  curta. Não quer saber do romance, quanto a isto, foge à regra entre os nossos prosadores contemporâneos, os quais, mesmo nascendo contistas, ou premiando  o conto com as suas preferências, estabelecem rodízio entre este gênero e o romance.

O conto, para Dalton, é o gênero bom, o gênero forte, o gênero nobre. E enquanto aumenta sua bibliografia, ele se afirma também pela qualidade no espaço que soube conquistar. É o nosso Tchecov. O conto brasileiro só  encontrava dois exemplos de tanta pertinácia e amor tanto: Machado de Assis, no passado, e Dalton agora. Ambos produziram histórias curtas com o fervor da intensidade, com o facciosismo do culto idólatra.

Sempre que se fala em conto moderno, acode logo o nome de Anton Tchecov. É o ponto de referência imprescindível à conceituação das mudanças estruturais sofridas pelo gênero e ao seu prestígio em todas as literaturas de hoje. O russo desprezou a ação externa, concentrou-se nos espaços interno. O episódio serve apenas de moldura, ponto de partida, jamais se comprazendo em si mesmo. O realismo do ficcionista surge indiretamente através da instituição, da sugestão, da arte de exprimir o que aparentemente é indizível. Um realismo portanto, de extração impressionista.

Dalton Tchecov brasileiro, chegou por caminho direto ao realismo. Em suas histórias muita coisa acontece. Pode-se dizer que o Dalton dos últimos anos stá empenhado em acumular dados. Chegou ao ponto da extrema condensação, no qual o conto mostra sua armação óssea. Descarnado, sintético, sem admitir composição literária (no sentido de adorno), o conto do autor de Cemitério de Elefantes parece uma ficha pessoal, um resumo microfilmado de certas vidas. O nosso contista conseguiu isolar o realismo, deixando-o emitir sua luz forte cegante.

Seus contos são o núcleo do realismo sem disfarces, a glorificação do real em sua maior crueza, com o deslumbramento e o nojo que possa causar. As personagens de ficção explicam-se por obra dos acontecimentos em que envolvem. Quer soltem o fluxo de sua consciência ou se deixem simplesmente narrar, a luz que vem de fora tem a nitidez do  relâmpago. Vasculha escaninhos. O contista tem o dom da presença  invisível. Surpreende suas criações. É a consciência de cada uma, a vida dramática ou trágica que lhes cabe levar.

O mundo ficcional de Dalton  Trevisan é o da pobre gente batida não apenas por condições econômicas desfavoráveis, mas também por tempestades emocionais e desencontros afetivos. O universo pequeno-burguês de funcionários públicos, damas da noite, velhos solitários, homens e mulheres traídos, doentes desenganados, filhos desamparados. Reina a impiedade. O solidarismo raras vezes  ocorre entre essas criaturas que, pela simples condição de estarem vivas, parecem haver elegido o sofrimento, a miséria física e moral. O ficcionista acompanha a decomposição familiar na sociedade urbana, a quebra de valores e sua substituição por princípios em rápido processo de mudança. Neste mundo, que é o mundo de O Rei da Terra, o homem como que vive em estrado de brutalidade, guiado por intuições e fatalismos, minado por instintos atávicos, sobretudo em relação ao sexo. E vê-se que o escritor, mesmo quando saí de seu mitológico universo curitibano, é para encontrar, no ambiente rural onde a urbanização mal começa, os mesmos comportamentos. O conto Mãezinha, passado numa  pequena cidade sem nome do interior, é exemplo de que a vida moderna estaria abraçada aos mesmos terrores e caprichos.

O Rei da Terra prolonga a  atmosfera de A Guerra Conjugal, penúltimo título de Dalton Trevisan. Encontramos nestes dois volumes a fabula do amor insatisfeito, cruel, frustrado. O amor concebido como forma de aproximação e instrumento de concórdia fere-se, em vez disso, num campo de batalha. Os destroços dessa guerra sem tréguas constituem o material dos contos de Dalton. Não vale a pena mudar o nome de suas criaturas armadas contra si próprias e contra o seu semelhante. Basta chamar o homem de João, a mulher de Maria. As fábulas entristecidas com essa gente adulta reproduzem o conto infantil em torno dos meninos extraviados, mas sem a compensação do final feliz.

A guerra, nos contos de  Dalton, conjugal ou não, é generalizada, permanente. A ambivalência está flagrante, como neste trecho do último conto do volume, aliás um obra-prima: “Enquanto se debate na dúvida,  ela inclina-se e beija-o com meiguice. Pronto se desvanece o ressentimento, ó pobre diabo que não pede senão um pouco de amor, gesto de perdão, palavra de carinho. Não devolve a carícia, inacessível, de olhos fechados. Beijar ou não beijar é o mesmo – nada mais entre os dois, tudo acabado e, como prova, também a beijou”.

Se o amor conjugal é uma guerrilha, a surda hostilidade travada à frente e à retaguarda do homem, outras situações também não lhe dão descanso. Há dois ou três contos sobre a  velhice – total, que baixa como uma condensação, e a velhice que se aproxima furtivamente, instilando crises. E igualmente sobre doenças incuráveis. Ler estas narrações que o contista expõe em seu estado de chaga é inquietar-se. O contista convoca o solidarismo mediante esse tratamento de choque. Ao acentuar a precariedade de suas criaturas, cria um universo quase mitológico, varrido pela tragicomédia. E não faltam, nesta coleção de alegrias  e dores sórdidas, outros mitos: a mulher, castradora de maridos, a noiva esfaqueada no banquete de  núpcias, o moço loiro. Em todos Trevisan deixa os dentes do vampiro.

PÓLVORA, Hélio. “O mito do sofrimento”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 13 fev, 1974.

O Vampiro de Curitiba

O Vampiro de Curitiba é o primeiro lançamento em inglês da obra de um escritor brasileiro que promete, pesa força de sua temática, tornar-se uma figura da maior importância. Ele já é um escritor poderoso, ainda que a matéria deste volume não seja extensa. Eis um homem que resolve a mesma ferida viva, expondo o que é podre, gangrenado, corrupto. Embora estremeçamos cada vez que toca num nervo exposto, ele nos prende com singular fascínio.

O assunto pode ser repelente, mas sim arte é hipnótica. Em tom o ambiente é severo e osturno, lembrando um pouco o sherwood Anderson de “Winesburg ohio” e Giovani Veiga no brutal realismo.

Gregory Rabassa, cuja tradução é impecável, fato evidente mesmo a alguém não familiarizando com o português sugere como influência a obra de Machado de Assis. Creio que Trevisan é essencialmente ele mesmo. O estilo é conciso e tenso ao extremo. Há 44 contos neste volume de tamanho médio. Efeitos e mudanças de tempo e lugar são sutis, alcançados com mínimo de artifícios técnicos. O leitor deve imitar a concentração do autor.

Trevisan pode ser tão importante no tom e tão objetivo na emoção como um relatório policial.

“O Espião é o registro da breve história de uma criança abandonada num asilo pelo pai (…) Assim Trevisan constrói um relato gramático na consistência e pungente no efeito.

Ele demarcou seu território a cidade natal de Curitiba, que Rabassa nos descreve como de regular tamanho em região produtora de café. Mas para Trevisan é um lugar de decadência moral e dissolução humana. Responsabilidades sociais são reduzidas a níveis animais. Homens espancam e abandonam suas mulheres e filhos ou são indiferentemente infiéis. Mulheres enganam seus maridos e cada encontro de rapaz com moça remata em posse da qual, incidentemente alguém sempre sai ferido.

“Morte na praça” é a sórdida história da ruína de Jonas. Ele não pode ficar sem jogar nem a mulher se trair. Lentamente seu melodrama barato amplia-se até abarcar todos os elementos da praça, e a morte no título não é simplesmente a de Jonas mas a da cidade em volta da praça (…) Em “Dia de matar porco” um homem chama de volta para casa a mulher da qual abusou durante anos. Dela carece para matar um porco. Mas o porco em que ele pensa é a própria mulher. Em “Boa Noite, senhor” um homossexual, inseguro de si, estabeleceu malogrado relacionamento com um rapaz. “O morto na sala” uma jovem recorda os anos de tortura com o velho parasita que havia sido o seu pai e afinal, vinga-se de forma rude mais eficazes no cadáver dele.

Existe forte veio de erotismo nestas histórias. Não é exibicionista, mas funcional para as intenções do autor. É mesmo o símbolo o absurdo da cidade, de seus estreitos e confinados horizontes. Homens e mulheres são reduzidos aos jogos amorosos porque não têm outra saída. O jogo e a bebida são auxiliares do objetivo maior. Através do envolvimento sexual é que homens e mulheres afirmam sua individualidade, buscam safar-se da condição que os mantém prisioneiros, única maneira de tentarem mudar o inevitável da sua existência. É o rio Lethe, a viagem muito longa, a visão do que poderia ter sido.

Estes encontros são também o momento em que são mulheres e homens são mais bestiais, quando são mais longe arrastados de seus egos civilizados. A ironia talvez menos ironia que verdade auto-evidente é que tais uniões revelam-se um fracasso como nas suas próprias vidas. O vazio nunca é preenchido.

O material erótico pode ser sombrio e assustador, hilariante. Em “Menino caçando passarinho, uma das histórias mais alegres, a mulher acusada de adúltera, no desquite pelo marido, nega a imputação. É defendida por um advogado menos interessado na causa que nela. O empenho dele na defesa será o preço de uma vistoria sobre a mulher. Ela poderia vencer, por assim dizer, só se perder.

Trevisan é brilhante ao transmitir o tom, a atmosfera, a realidade, desses eventos: no bordel, em casa, no próprio leito conjugal onde os maiores desastres são registrados. Num dos mais inquietantes e audaciosos contos, o herói, apanha na igreja uma horrorosa e grosseira prostituta, na Sexta-feira Santa, e leva-a para um hotel próximo. Logo se sente nauseado por tudo o que ela é e representa. Já não pode livrar-se e, o coração perturbando, fica estabelecendo remissões entre a sua alma doente e os episódios daquele dia no Novo Testamento. Tal historia. “A noite da paixão” resume sua arte: corajosa, muito concisa, o natural e o simbólico entretecidos, rica de nuances inesquecível e perturbadores.

LASK, Thomas. “Dalton daqui para o mundo”. Gazeta do Povo, 12 jan., 1973.

Pão e Sangue

0 A última obra de Trevisan, Pão e Sangue, enfatiza a coerência de um projeto criativo que o autor vem desenvolvendo pacientemente em mais de 30 anos de atividade literária. Passando ao longo dos modismos da última década, Trevisan manteve-se fiel a si mesmo e ao seu compromisso com a arte. Não fez literatura documental ou jornalística nem literatura ensaística. Fez apenas ótima literatura, que podemos fruir em todos os vinte e um livros que ele produziu regularmente, a começar por Novelas nada Exemplares, publicado pela Editora José Olympio, em 1959, e que o tornou nacionalmente conhecido. Mas devemos lembrar ainda os anos de preparo e exercício – os anos da revista Joaquim dos idos de 40, e, na década de 50, a elaboração dos chamados “cadernos de cordel”.

Desde então, ele se tem dedicado a aprimorar o gume do seu estilo, tornando-o cada vez mais apto ao corte preciso na consciência do leitor. Atitude que se apreende em todos os detalhes desta obra, coisa da perfeição, cujo objetivo é informar o máximo pelo mínimo minimalista que sempre foi sua, e parece ser o ritmo preferencial da arte mais atual.

Mas comecemos pelo título. Aliás, é só atentarmos para alguns deles: o já citado Novelas nada exemplares. O Vampiro de Curitiba, de 1965, O rei da terra, de 1972, A Trombeta do anjo vingador, de 1977, ou ainda Virgem louca, loucos beijos, de  1979, para termos um seguro indício de uma particular visão de mundo transformada em texto. Já nesta escolha o autor brinca, parodia, dialoga e/ou contesta os mitos que subjazem a nossa herança cultura e a nossa herança literária e religiosa. Pão e Sangue não foge à regra, antes a leva às últimas conseqüências, remetendo a um instigante cruzamento de registros, inferências ao estabelecer um mordente diálogo com duas expressões de diferentes campos semânticos: “pão e circo” e “pão e vinho”. Na primeira perspectiva ideológica, deslocando o sentido dos sangrentos festivais com que se distraíam a miséria e a indolência dos libertos da antiga Roma, metaforiza e focaliza, nos vários textos-flashes, a vida reduzida a um triste espetáculo de violência a alimentar o “moto-perpétuo” do absurdo existencial. No outro plano, o ritual do amor e morte, repetido até a náusea, dessacraliza o sacramento cristão da comunhão ritualística. Aqui, a morte, a beber o sangue do outro, é o gesto natural que acompanha a devoração do alimento em busca da sobrevivência. Morrer ou matar parece ser o terrível dilema em que se debatem as personagens desde o livro doloroso que reduz toda metafísica à negatividade.

Pão e Sangue apresenta em seu corpus uma concentração de temas e situações. Dos seus vinte e dois títulos, quatorze correspondem a textos em que uma personagem ou, em alguns casos, duas ou mais personagens contam a um ouvinte sempre impassível a sua versão de um fato de violência, assassinato ou estupro. No tocante às relações com o real, pela sugestão contida no vocativo “doutor” pelo tom de confissão ou depoimento, os contos parecem apontar a dissecação de dramas que alimentam ou entulham as delegacias.

Tecnicamente a experiência nos lembra um ponto magistral – “De baixo da ponte preta”, de O Vampiro de Curitiba, onde o registro de várias vozes dos envolvidos ou testemunhas de uma violência sexual são pontuados por um registro jornalístico. À exceção de “Estrela de Saravá”. “Pão e Sangue” e “O arrepio no céu da boca”, este último ambigüizado pela ironia de um narrador que vê de viés os equívocos amorosos do velho João, os demais textos comentados apresentam total ausência de uma voz narrativa mediando os fatos. Tal organização lhes dá um tom de indiferença moral ou ausência de avaliação ideológica. No entanto, não te fies na aparência, credo leitor! O que se constata aí, na verdade, é a habilidade com que o artista manipula, pelo avesso, os recursos da persuasão. Para melhor falar de uma sociedade essencialmente propensa ao rime e às paixões, ele atribui às personagens uma linguagem ideologicamente comprometida. Na perspectiva vislumbrada por esta estilização da linguagem, João, Maria ou Tito são prejulgados e conformados em estreitos limites, verdadeiro beco sem saída onde não importa apontar o criminoso. Porque todos o são ou só há vítimas.

Mas se no plano ideológico um texto espelha a angústia e a negação do outro, no plano formal Pão e Sangue se multiplica como nenhum outro do autor. Passando do conto curto para o haicai, Trevisan atinge a síntese e a essencialidade expressiva que declaradamente têm sido o seu objetivo maior. Os trinta haicais deste livro conquistam um espaço que era tímido nos livros anteriores, onde se manifestavam também sem serem enunciados. Apontamos, neste sentido, a experiência de refazer o enredo até miniaturizá-lo, quase haicaizá-lo nos capítulos finais de A Polaquinha. Despojados, os haicais de Trevisan tem algo de irônico e figurativo e uma textura poética que os fazem ressoar na sensibilidade do leitor. Um exemplo:

“Assustada, a velha pula da cadeira, se debruça na cama:

João, Fale comigo, João.
Geme fundo, abre o olhinho vazio, soluça um palavrão.

Bruuuxa… Diaaaba…
Ai que susto. Graças a Deus”. (p. 39).
E outro:

“- Teu seio mais lindo – já viu dos gatinhos brancos bebendo leite no pires” (p. 89)

Numa experiência mais radical, o autor viaja do universo da prosa para o universo da poesia, em busca de novas formas de realização estética. “Minha vida meu amor” e “Querida amiga” expõem a triste condição feminina numa interpretação poética que retira da vida poesia. Já em “A balada do vampiro de Curitiba”, Trevisan reelabora os textos “O Vampiro de Curitiba” e “Incidente na loja”, ambos de O Vampiro de Curitiba, dando-lhes umas novas composições formais, optando pela síntese e por um novo ritmo, que se organiza no recorte das orações transformadas em versos. Monologando, Nelsinho passeia pelas ruas de Curitiba o seu destino de conquistador em busca das vítimas de paixão. Em “Canção de exílio” – paródia das paródias – o autor retoma Curitiba, cidade ambigüizada pelo amor e pelo ódio, espaço único de todas as suas viagens literárias.

Enfim, para os leitores que já conhecem Trevisan, Pão e Sangue é, como já dissemos anteriormente, a certeza de uma excelente leitura.  Para os iniciantes é a perspectiva de um fascinante encontro com a arte da vida.

BERNARDI, Rose Marye. “Pão Sangue – um novo encontro com a arte de Dalton Trevisan”. Nicolau, 29 jun., 1988.

Pico na veia

Dalton Trevisan – Pico na veia. Rio de Janeiro: Record, 2002.

Berta Waldman

Um livro de Dalton Trevisan é sempre a hipérbole da encenação da violência. Pico na Veia não foge à regra. A visão apocalíptica que emoldura o dia-a-dia das metrópoles modernas toma Curitiba como parâmetro, e é nela que se mostra o cotidiano vivido como o pão que o diabo amassou:

Pare na primeira esquina e conte os minutos de ser abordado por um pedinte, assediado por um vigarista e trombado por um pivete – se antes não tiver a nuca partida ao meio pela machadinha do teu Raskolnikov (texto 145).

Esse mundo calcado no negro, perdeu o céu como parâmetro, detendo- se num corpo-a-corpo com o real, sem o anteparo de qualquer idealização ou promessa de redenção. Curitiba, neste sentido, é apresentada como um palco miniaturizado vazio de expectativas positivas e ideologizadas, construídas para serem consumidas “aqui” e “agora”, no grande supermercado em que se transformou o espaço global. Quer dizer, o empenho do autor é o de desvelar essa ideologia, pondo a nu tudo aquilo que ela esconde. Assim, sua cidade natal, “essa grande favela do primeiro mundo” (texto 18), funciona como uma espécie de “zona zero”, por onde transitam e para onde convergem vozes, onde interagem discursos, espaço em que os diálogos fenecem, porque não há sujeitos capazes de sustentá-los.

Escuta atenta e aguda, o autor registra falas de grupos e as põe em circulação em seu livro. Facilmente identificadas pelo leitor, variadas, o autor as vai atualizando. Assim, em Pico na veia, ganha espaço o discurso do viciado em crack e em outras drogas. Em livro anterior, o autor incluiu falas relacionadas a seitas e grupos religiosos divulgados pela media, que trazem a promessa de se montar uma vida espiritual pelo prefixo telefônico 0900, em ligação direta com deus. Esses discursos deslocados do real para a ficção compõem com breves pinceladas uma espécie de “quadro vivo” concentrado no essencial, sem alçapões ilusionistas, nem jogos de luz enganadores. Funcionando como moeda corrente, essas falas são dessubjetivadas, não se ligam a um corpo, correm soltas na boca de João, Maria, do pivete que passa, do bacana que leva a facada:

– O meu café da manhã é uma pedra. Se estou na pior, um baseado. Aí me dá uma fominha desgracida. Vou chegando bem doidona: “Ei, tô com fome. Ei,galera,tô com fome.” Até descolar um rango.

Ali no ponto de ônibus: “Ô tio, só pra inteirar a passagem? Valeu. Tem condição, ô tia? valeu.” Quando você vê, tá riquinha de moeda. Esse golpe é fatal.” (texto 2)

A medida aleatória dos textos (contos? hai-kais? poemas?) obedece a um princípio rígido de corte. O autor corta no ponto a partir do qual o texto alcança sugerir ao leitor uma imagem, uma metáfora, independentemente de sua extensão, da definição das personagens, da organização do espaço e do tempo, do enredo etc. Segmentos cegos de título – ficam perdidas as indicações de algum ponto aglutinador do enredo, de uma certa atmosfera ou de um caminho narrativo, que cabe ao título iluminar. Apenas numerados, os textos reforçam a composição de um mundo alienado e indiferenciado. Lentamente, os números ganham espaço na ficção descarnada de Trevisan, que já os usou até mesmo como título de obra. É o caso de 234.

A indiferenciação dos sujeitos – também eles não nomeados (com exceção de João e Maria – para sempre presente na ficção do autor), corre paralela ao sexo, uma engrenagem a mais na enorme máquina da alienação. O corpo, no texto, transforma-se em objeto mercável e dedica-se a distintas formas de associação sexual, todas abstratas, porque voltadas a uma combinatória erótica na qual o que conta são os mecanismos, o jogo de poder, tornando-se assim matéria abstrata, número, frase, cujo sentido se evapora. Longe de qualquer acordo amoroso possível entre pares, o autor reinstala a cada livro a “guerra conjugal”, onde o desencontro, a destruição do outro, as taras e a violência sexual seguem o curso de um beco sem saída.

Um vulto ao longe – será a tua alma gêmea? Ele se aproxima, um tipo qualquer.

De perto é sim João, o Estripador (texto 23).

Atento à violência fora da retórica desgastada na afirmação de um bem universal e abstrato, Trevisan mostra o mal inerente não ao homem, mas ancorado a uma história humana. Nela, a exclusão ocupa papel importante. Veja-se, por exemplo, o texto 28. Um desempregado conta a história de como, para alimentar a família, busca trabalho, qualquer serviço a troco de comida. Sendo ele próprio o narrador do texto, a posição de humilhado, desprezível vai sendo acentuada, enquanto a figura da dona de um casarão que lhe dá trabalho,

cresce como opressora que tiraniza o trabalhador sem registro, exigindo dele cada vez mais serviço e precisão:

Ela vem fiscalizar o trabalho. Reclama sempre: esqueceu de aparar aqui, não varreu ali. Essa velha imprestável. Não faz nada e fica dando ordem. Me vira as costas para entrar na casa.

A velha é assassinada com um “arrocho de goela”, e o desempregado rouba suas jóias, dólares, talão de cheque etc. É interessante o efeito que o texto alcança com um giro pronominal:

O que posso ainda levar? Ouço a velha gemer. Chego, ela me olha com ódio. Dou mais um aperto na coleira. Depois tenho uma idéia. Enfio o saca-rolha no teu ouvido esquerdo…

O narrador desliza da terceira pessoa – velha, ela, para a segunda, teu (ouvido), marcando uma aproximação com a personagem feminina, que passa a ocupar o lugar daquela com quem ele fala – tu. Mas essa segunda pessoa inclui o leitor, o interlocutor do texto, em quem também respinga a violência do ato, transformando a todos em co-participantes dessa vida crua, feita da distribuição global de miséria e morte.

O homem de capa preta, o exibicionista, o velhote safado, o Doutor, João e Maria, o casal de velhos, a mãe, o filho, o pai bêbado, a putinha atravessam os textos organizados como um jogo de espelhos, que vai montando nas idas e vindas paralelismos, citações. Mas, em vez de constituir e consolidar a identidade do objeto refletido, o espelho retira-lhe a substancialidade, reduzindo-o a sombra, sem dimensão de profundidade. Essa a matéria-prima do autor. Ele se repete? Trata-se de um imitador de si mesmo? O autor oferece uma resposta a essa questão:

– Ora, direis, ele se repete. E eu vos direi, no entanto, como poderia se cada personagem é baseado numa pessoa diferente?

Se alguém se repete são elas, essas pessoas iguais, sempre as mesmas. Pô, destino próprio, história única, vida original – não há mais? (texto 192)

A mesmice, o mundo indiferenciado que lhe serve de matéria é o responsável pela repetição no plano ficcional. Assim, repetir é um modo funcional de contar a repetição a que estamos condenados. Na repetição, porém, o autor depura e lapida a palavra, reduzindo-a ao mínimo, ao osso. Ele sabe, como ninguém, que “Um bom conto é pico certeiro na veia”.

Ponto de crochê

Em breve!

Primeiro Livro de Contos

Uma mulher, trazendo em seu corpo vários símbolos eróticos e um vampiro, são as imagens que poderão ser vistas nas capas dos livros de  Dalton Trevisan, “Mistérios de Curitiba”, em Quarta edição revista e  “Primeiro Livro de Contos” editados pela Record, ainda no início deste ano. As fotografias não são novidades, Dalton é, especialmente, ligado a símbolos eróticos e isso poderá se ressentido em quase todos os seus livros: seus contos tendem sempre para o erotismo de palavras e pensamentos, embora raras vezes os personagens passem para a situação de atuantes.

Certamente que as imagens, à primeira vista, poderão causar ao leitor uma visão talvez falsa. Dalton não se atém a provocar situações eróticas em seus trabalhos. Ele trata do dia-a-dia do habitante de Curitiba, quase sempre com os nomes bastante comuns, João e Maria, procurando mostrar a simplicidade de sentimento e de aspirações de seus personagens. É a vida do habitante desta cidade, vista sob o prisma do contista. E a cada edição, o autor se preocupa em revisar os contos deixando-os sucintos, mas, porém, bastante próximos da realidade.

Insistindo sempre na inutilidade de uma entrevista para comentar sobre seus trabalhos, Dalton Trevisan é hoje um dos escritores brasileiros mais elogiados pela crítica. Seus livros, a maioria já editados por mais de uma vez, fazem parte obrigatória de qualquer leitor apaixonado pelas ruas escuras de uma cidade e pela vida estranha que Dalton faz sentir, em cada um de seus personagens, sempre os colocando no entanto, como o vizinho próximo desse mesmo leitor, isto é,  como um personagem real, copiado de uma pessoa normal, como qualquer um poderia ser. Dalton é mestre em fazer o leitor reconhecer-se em cada um de seus personagens. Talvez isso explique a procura intensa, de seus livros, tanto que cada um deles, salvo raras exceções, já foram editados por várias vezes e até mesmo traduzidos e lançados em outros países. Sempre com vendagem garantida.

Difícil falar sobre Dalton Trevisan. Ele não é uma pessoa comum (ou talvez seja demais) e por isso  mesmo se fecha em seus pensamentos. Falar e analisar os fatos, sua especialidade. Com um espírito altamente crítico, nada escapa aos seus olhos, porém, seu pensamento é  colocado para fora sempre de uma maneira superficial. Nunca se sabe,  caso seu interlocutor seja parcialmente distraído, quando e escritor faz uma análise ou mesmo uma observação opinativa.  E isto é fato percebido na maioria de seus contos e  mais ainda, em suas reedições. Dalton procura a cada vez, eliminar palavras e mais palavras, que passa a  considerar inúteis ou simplesmente dispensáveis. Hermilo Borba Filho, homem de teatro nordestino, já  falecido, que assina a orelha de “Mistérios de Curitiba”, em seus contatoso com as obras do escritor, o analisa.

– É chover no molhado dizer-se que Dalton Trevisan possui um completo domínio da técnica do conto – e do conto curto – mestria no manejo do seu instrumento – a linguagem – e um raro poder de equilíbrio de lírico com o trágico. Nele, o enredo é o de menos, importantes são as suas palavras aparentemente fáceis em estórias fáceis, mas ninguém se iluda: esta facilidade foi adquirida às custas de um infatigável trabalho de meditação, vivência, observação, numa espantosa recriação do cotidiano. Seus assuntos podem – e são, na maior parte das vezes  – flagrantes diários que bem poderiam aparecer em notícias de jornal e as notícias de jornal fossem escritas, sempre por um escritor de talento, como é o caso do paranaense que recria da maneira mais forte imaginável um gênero que já teve dois pólos de  tanta força e tão afastados no tempo e na técnica: Machado de Assis e Bareno Acioli, citando apenas dois. Trevisan se coloca entre os dois com suas inovações e poder poético, com a vantagem de, constantemente, nos cegar com esses “flashes” de amores desastrados: cartas súplicas, mortes, ais, penas, dores, desencontros, frustrações, raramente a esperança amparando a mísera condição humana.

Esses mistérios acontecem em Curitiba, também recriada pelos seus dons poéticos, uma cidade vista pelos olhos de um sujeito que é mais sensível que a maioria dos seus concidadãos para descobrir coisas que eles não vêem mas seus olhos enxergam, atravessando paredes e  muros, alcançando um céu diferente, enfeitiçado pela antevisão do seu Dia do Juízo, nesta apocalíptica “Lamentação de Curitiba”, mas sobretudo piedosos para os pequenos (pequenos para quem não os sente) dramas que podem ser de nossos vizinhos conhecidos ou companheiros de trabalho, apenas transfigurados pela arte mas conservando todo o impacto da tortura humana nas “penas de amor perdidas”, no mistério das coisas. Curitiba é “provinciam cárcere”, lar “onda ainda pode ser visto um sujeito eu “cospe-se em seco, tão velhinho não tem mais saliva”.

“Todo homem”, continua Hermilo Borba Filho, em sua análise sobre a obra de Dalton Trevisan, “se chama João e toda mulher se  chama Maria. A velha história de  João e Maria, não somente feita de  amor, mas de frustrações, porque aí que está a coisa: cada um de nós é um João ou uma Maria, aqui não apenas amando, mas sobretudo enganados, por tantos motivos mil pelas ilusões de amor. Dalton Trevisan tece variações inúmeras em torno de um tema só (e haverá tema mais importante, mas sempre  com um senso de humor difícil de conseguir (e ele consegue) no tratamento de coisa tão séria, tão fundamental. João e Maria são qualquer homem e mulher que se amem inteiramente ou pela metade, não importam   nomes, mas que se envolvem no mistério, séria ou levianamente, símbolos daquilo que os chineses chamam de Yin (princípio feminino) e Yan (princípio masculino), acasalados de uma ou de outra maneira para o bem ou para o mal, num constante repúdio e numa constante atração, ligados ou repudiando-se, no fim cada um sozinho com sua própria piedade – nunca se possui inteiramente outra pessoa, sempre restando alguma coisa inatingível – daí ocorrendo os desastres de que fala Trevisan, comuns ao ser,  mas de qualquer modo o amor conta e, através dos seus mistérios, chegamos a amar todos os seus Joões e todas as Marias de uma Curitiba fantástica, mais verdadeira que a geograficamente localizada, porque é a Curitiba do poeta”.

Quem tem medo de Vampiro

QUEM TEM MEDO DE VAMPIRO?

E mais uma vez eu volto aqui trazendo uma excelente obra de Dalton Trevisan, Quem tem medo de vampiro?, um livro de contos publicado pela Editora Ática e que faz o leitor mergulhar numa leitura intensa entre personagens que não tem definição específica, são joões, marias e franciscas que podem viver perto de você, que podem ser você ou pessoas com quem você nunca teve contato antes… Nomes que não possuem rosto mas tem voz, em nome de tantos outros milhares…

São maridos traídos, mulheres que só pensam em dinheiro, velhos abandonados à solidão, jovens amargurados e feridos de amor. Vítimas e algozes convivendo num mesmo corpo,  que vencem na vida e os que nela vivem perdidos… Ao todo, o compilado traz 23 contos do genial ‘Vampiro de Curitiba’, e em alguns momentos vulneráveis na histórias destes personagens, o leitor pode se encontrar…

A narrativa de Trevisan dispensa suavidades, ele é implacável quando nos apresenta cenários desgraçados, personagens em frangalhos e situações cotidianas com toques de dura urbanidade. O fracasso do indivíduo é o tempero de seus monólogos.

Aos novos leitores, ou que nunca ouviram falar do autor, não se enganem achando tratar-se de um romance nacional sobre vampiros. Nada há de sobrenatural aqui. O vampiro do título, alter ego do autor – é na verdade um sugador de ‘meandros sombrios da alma humana’, é aquele que busca a desgraça e infelicidade do ser que vive no mais completo [des]amor, [des]esperança e [des]alento…

Apelo é sobre alguém que foi embora, e fica alguém sofrendo de saudades. Tio Galileu pode ser aquele velhinho que você conheceu e que deu seu último suspiro devido à ganância de parentes mal-intencionados. O duelo – um de meus preferidos pelo seu desfecho – é o homem de bem e pai de família que vai á igreja aos domingos e mata gato envenenado. Mas o que se faz, aqui mesmo se paga…

E quem não já viveu ou conheceu a história de ‘O senhor meu marido’, em que ela cai de amores por um malandrão e o homem chora de dor e amor pelo abandono. Mas quando ela volta desiludida, ele acolhe passando por cima da vergonha e humilhação? Há muitos Joões e Marias mundo afora…

Pedrinho é o grito da mãe que perde um filho para as moléstias infundadas da vida. Sem remédios, sem entendimento, a morte vem e leva, não importa a idade… A comadre sempre paga a dívida do marido, ainda mais quando é a ausência dele que torna o pagamento prazeroso… Destaquei alguns de meus contos preferidos…

Ao fim do livro, ainda temos uma entrevista com aquele que odeia entrevistas. Arredio, não se deixa fotografar, não recebe visitas, não sai de casa. É um escritor com manias peculiares. As respostas para as perguntas são tiradas de sua ficção [tão real que nem parece ficcional…]

Em suma, Trevisan é para poucos, mas os poucos que queiram apreciar a sutileza de palavras para a dureza de suas ‘tramas’…

Escrito por: Maria Valéria | 18 março 2016 | | #Categorias: autores brasileirosBrasilcontosdalton trevisaned. ática,Resenha

http://torporniilista.blogspot.com.br/2016/03/contos-do-maravilhoso-trevisan-quem-tem.html

Rita Ritinha Ritona

Sob pena de cometer alguma injustiça, fica até difícil escolher os melhores contos em uma coletânea de tão alto nível literário. De todo o modo, entre os pontos altos indiscutíveis pode-se apontar o arrependimento de Nelsinho, o famoso “Vampiro de Curitiba”[na verdade, apenas um marido adúltero e tarado] em “A Noite da Paixão”; a fantástica noite de aventuras dos boêmios em “Esta Noite Nunca Mais”; a ao mesmo tempo pungente e angustiante conversa de amigos de “O Quinto Cavalheiro do Apocalipse”; a triste história do aborto de “O Menino de Natal”; e a irônica e ácida história de uma professora feminista que se apaixona por um aluno brucutu em “Capitu Sou Eu”.

Se, por um lado, a concisão é uma característica comum de todos os 33 “contos escolhidos”, por outro, as mudanças no estilo do autor à medida em que o tempo foi passando são evidentes. Os contos iniciais – os mais antigos – são literariamente mais elaborados apresentando, com freqüência, frases poéticas de efeito dramático ou irônico [alguns exemplos: “O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem”, em “A Faca no Coração”; “Ó prazeres no leito de tão pouca dura”, em “A Doce Inimiga”; “Direto ao banheiro, que água lavaria a imundície da alma?”, em “O Maior Tarado da Cidade”]. Já os mais recentes possuem estrutura mais simples e linguajar mais direto.

Outra característica interessante da evolução de Dalton é na temática. Em seus primeiros contos a Curitiba é praticamente uma cidade do interior, com suas polaquinhas e seus boêmios que deixam suas pobres mulheres sozinhas em casa. Já na produção mais recente aparecem personagens de uma nova cidade: moças modernas e independentes, dependentes de crack, evangélicos…

E é neste estilo, quase jornalístico e mostrando as mazelas da vida moderna, que se pode enquadrar a grande maioria das histórias de Rita Ritinha Ritona (Editora Record, 125 páginas), o novo lançamento de Dalton Trevisan.

Alguns dos contos – como “O Gringo” e principalmente “Maria, Sua Criada”, que conta a história de uma imigrante nordestina batalhadora – são inesperadamente belos e doces. Muito interessantes também são o conto que dá título ao livro, no qual uma moça independente literalmente se anula por causa do noivo conservador; o erótico “O Mestre e a Aluna”, que mostra o relacionamento sexual intenso e controverso de um professor com sua pupila; “Filho Ingrato”, onde Dalton Trevisan, com oitenta anos recém-completados, insinua que os velhos nem sempre são mais dignos de respeito que os mais novos; e “Adeus, Vampiro”, com Nelsinho, o “Vampiro de Curitiba”, se apresentando totalmente decadente – aqui o autor revive o estilo literário do início de sua carreira.

Violetas e Pavões

Crítica/”Violetas e Pavões”

Dalton Trevisan maravilha e horroriza em contos inéditos

Tipos do escritor se tornam menos freaks e mais “ordinários”, nos dois sentidos 

ALCIR PÉCORA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um novo livro de Dalton Trevisan, mesmo pequeno, não é pouco. Ainda atuando no terreno estreito da estilização do cafajeste à moda antiga, há sempre um novo veio de perversão a exibir, como num museu de cera, que maravilha e horroriza ao mesmo tempo. As faces dos monstros, entretanto, são cada vez mais de gente comum.
Nisto talvez resida uma mudança na produção recente de Trevisan. Os seus tipos, aos poucos, se tornam menos freaks, mais ordinários, embora venha a calhar aí o duplo sentido do termo “ordinário”: o que é corrente, partilhado por todos, mas também o que é reles, rebaixado, repulsivo até. Em “Violetas e Pavões”, a galeria de personagens se distribui por 22 textos mais ou menos curtos, os quais, por sua vez, se deixam dividir em três categorias bem definidas: cartas, depoimentos e casos. As cartas são de amor; os depoimentos e casos são policiais.
Em todos há o flagrante de ilícito, seja penal, seja erótico. As narrativas de casos são as mais numerosas -metade dos textos. Trata-se de glosas de lugares comuns do cotidiano das classes média e baixa às voltas com a marginalidade. Como num inventário ilustrativo, são relatadas histórias de assassinato do drogado da família; ameaça de morte pelo tráfico; estupro pelo vendedor; assalto a ônibus; falsidade ideológica; mulher incendiada pelo marido; roubo no dia do pagamento; incesto; voz de prisão por uso de droga.
Só dois casos não dizem respeito à criminalidade, mas ao tormento de mães exploradas pelos filhos. A rigor, os casos são menos eventos que “ocorrências”, tópicos de um livro de registros policiais. O segundo tipo de texto acomoda certo procedimento experimental da prosa de Trevisan, que desconstrói as frases, por vezes decepando-as ao mínimo significativo.
Nada há tão radical, mas são empregadas frases curtas sem pontuação, cada uma delas a ocupar um parágrafo, como série de enunciados declaratórios. O efeito de depoimento de suspeito em interrogatório é imediato. Ressalta o aspecto equívoco de tudo o que é dito, de modo que tanto pode ser como se diz quanto o contrário, por malandragem ou denegação.
A verdade “não adianta”, sempre escorregadia na cascata da frase. Nem para o acusado, que não prova sua inocência; nem para o leitor, sem jeito de conter alusões contraditórias.

Cartas 
As cartas são o melhor do livro; todas escritas por mulheres ao “morzinho”, “caríssimo Senhor meu”, “neguinho meu”. Magoam-se de que eles não saibam se aproveitar do pasto de delícias que o seu corpo gostava de lhes servir; anseiam para que se livrem do vício da “perífrase” em torno da “gentil palavrinha porca”.
A fantasia de vocabulário cru e chulo vale para entender o livro todo. Ao reduzir a presença dos vampiros anômalos da província diante da expansão dos tipos banais de qualquer grande cidade, “Violetas e Pavões” apresenta, como disse ao início, uma variante na estilização de Trevisan. A saber: o seu parnasianismo irônico vai perdendo o gosto do retrô em favor do pornô (“meigamente dedilho o cuzinho em flor”).

VIOLETAS E PAVÕES 
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0310200912.htm

Virgem Louca, Loucos Beijos

Uma ficção longa e cinco ficções breves compõem este Virgem Louca, Loucos Beijos. Quase escusava dizer que uso “ficção” aqui no sentindo em que Borges consagrou a palavra, muito embora, por sua feroz objetividade e por sua permanente recusa às facilidades do realismo dito fantástico, a arte de Dalton Trevisan nada tenha de borgiana. Nas ficções breves, o aficcionado encontrará de pronto aquele andamento em staccato a que o habituou desde sempre o laconismo do Vampiro de Curitiba. E não deixará tampouco de encontrá-lo na ficção longa que dá nome ao volume, uma espécie de novela ou micro-romance cuja extensão por assim dizer quilométrica, quando medida pela trena curta desse mestre do instantâneo, demonstra à maravilha ser a concisão menos um problema de comprimento que de Weltanschauung, se me perdoam a má palavra.

O título do livro traz logo à memória a passagem de Mateus (25:1-13) sobre as virgens loucas e as virgens prudentes, alusão evangélica adiante reforçada pelo nome do último conto, “O Quinto Cavaleiro do Apocalipse”. Tais reminiscências não são de estranhar em quem confessou um dia ter achado no Pe. João Ferreira d’Almeida seu supremo modelo estilístico. É bem de ver, porém, que a impregnação bíblica, em Trevisan, vai muito além do nível da linguagem, tanto assim que o seu pequeno mundo curitibano – tão inconfundível, nas suas idiossincrasias, quanto a Dublin de Joyce ou o Grande Sertão de Guimarães Rosa – está regido pelos signos da Queda e da Paixão, sendo ainda de mencionar-se, pela ausência, o signo da Redenção. Tais signos se articulam entre si pro nexos de causalidade: a Queda, vale dizer, a perda da identidade primeva. É conseqüência direta da Paixão, no seu duplo significado de ímpeto do sexo e périplo de sofrimento. Essa gramática ficcional ilustra-a bem o destino de Maria, protagonista de base e avatar de Justine de Sade, cuja condição natural de virgem-de-boa-família é enfaticamente anulada, primeiro pelo desejo e pelo ciúme obsessivos de João, protagonista complementar de igual modo decaído de sua posição inicial de homem-com-esposa-e-filhos, mais tarde pelo mergulho dostoievskiano nos infernos do bordel e do bar sem nome,, de onde ela emerge, não para redimir-se, mas para expiar no purgatório da casa paterna, depois de a mãe queimar-lhe as roupas de orgia e vestir-lhe o quimono de penitente, a sua culpa irresgatável.

Os nomes de João e Maria com que são designados os heróis da ficção-título de Virgem Louca, Loucos Beijos vão servir também para designar os das restantes ficções, a exemplo do que acontecia em outros livros do autor. Esta generalização do nome próprio como que marca, nos contos de Trevisan, seu caráter de parábolas. Mas – atenção – parábolas sem moralidade alguma, se é que se pode conceber tal coisa. Talvez fosse mais apropriado, por isso, chamá-los de Koans. Koans, como se  sabe, são aquelas pequenas fábulas paradoxais de que se valem os mestres Zen para incutir nos discípulos a noção de que as experiências fundamentais não são redutíveis a palavras e têm de ser vividas por cada um para  poderem ser entendidas. Assim, quando o discípulo pergunta ao mestre o que é  a dor, este, em vez de perder tempo com digressões filosóficas, dá-lhe simplesmente uma bofetada. As delgadas fatias naturalistas de vida que, com precisão cirúrgica, Trevisan arranca à carne do cotidiano, são tão eficazes e tão lacônicas quanto a bofetada Zen. Alcançam incutir em nós, de imediato, a consciência de ser o paradoxo e a gratuidade o próprio fio de que a vida é tecida. Nesta presentificação do absurdo de viver parece-me estar o projeto da arte impiedosa de Dalton Trevisan. Impiedosa eu disse, não desumana. A piedade sempre envolve, ostensivo ou escamoteado, um sentimento de superioridade do privilegiado sobre o desvalido.. Nos contos de Trevisan, não há superiodades: somos todos grotescos e patéticos Joões e Marias perdidos na selva selvaggia da vida, caçados pelas feras dos instintos, sem esperança de encontrar jamais a diritta via. E é com descobrir no anódio dia a dia do pequeno-burguês de Curitiba uma vocação para o grotesco e para o patético capaz de  transfigurá-lo em personagem de novela que a contística de Dalton Trevisan revela seu teor de humanidade.  Humanidade de que as seis ficções reunidas neste livro dão representativa amostragem ao revelarem as loucuras e as tristezas da carne na parábola da virgem louca,  nos encontros apressados de “O Beijo Puro na Catedral do Amor” e de “Orgia de Sangue”, nos impasses domésticos-anatômicos de “Mais Dores, Mais Gritos” e de “O Baile do Colibri Nu”, e, sobretudo, no carpe diem de “O Quinto Cavaleiro do Apocalipse”, onde bêbado e de cuecas, Jó volta a coçar as velhas chagas e a zombar das ciladas do destino enquanto, espera a chegada do Juízo Final. Dele e de todos nós.

PAES, José Paulo. “Da fatia de vida ao Koan.” In: TREVISAN, Dalton. Virgem louca, loucos beijos. Rio de Janeiro: Record, 1979.

Vozes do Retrato

(Em quinze contos, breves flagrantes do cotidiano são captados pelo olho implacável de um narrador que enxerga muito além das circunstâncias. Com Suplemento de Leitura.) Os contos deste livro — que constituem algumas das obras-primas da arte de escrever de Dalton Trevisan — não foram reunidos por acaso. São histórias que formam um autêntico retrato da crueldade da vida. Personagens comuns vêem-se enredados em situações de conflito, mostrando a face trágica da convivência humana.
Depois de ler Vozes do Retrato, pode-se ficar com a impressão de que os contos repetem situações e personagens. Em vários deles, por exemplo, os conflitos amorosos e familiares são representados por Joões e Marias. No entanto, não é bem assim. Na verdade, a repetição dos nomes é feita com o fim específico de representar uma pessoa qualquer, um cidadão comum.
Mentiras e verdades participam aqui do mesmo jogo. Pode um filho matar o pai e sentir alívio? Podem os bêbados deitar-se para morrer na terra como os elefantes? Até que ponto é possível uma mulher humilhar-se diante de um homem? Nas páginas de Vozes do retrato o notável escritor paranaense demonstra ser um retratista implacável dessas e de outras situações. Seus textos expõem a realidade como ela é. Suas frases curtas e objetivas não se desviam do alvo: relatar as tragédias de pessoas comuns, criando pequenos retratos de uma vida cruel.
Dt. Inclus.: 28/5/2001 17:00:02  (comentário acerca do livro)

Filmes

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Daltonismo

O filme, produzido como trabalho acadêmico, pelos estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Ana Clarissa Hupfer, Ana Cristina Seciuk, Célio Yano, Elaine Santos, Erike Feitosa e Jaqueline Bartzen, aborda aspectos da vida e da obra do escritor Dalton Trevisan (1925), um dos mais míticos personagens da cidade de Curitiba. O vídeo mostra um grande bate-papo entre amigos sobre o autor. No elenco de entrevistas, estão autores como Cristóvão Tezza, Fábio Campana e Nego Pessoa, o livreiro Eleotério Burrego, o ator e diretor teatral João Luiz Fiani e o jornalista Luiz Geraldo Mazza.

O Escapulário

A mini-história O Escapulário, de Dalton Trevisan, é transformada em curta-metragem. Esta é a terceira obra do escritor que vira filme pelas mãos do videomaker Estevan A. Silvera. Os primeiros foram O Ezequiel e Que fim levou o vampiro de Curitiba. Em nove minutos de duração, O Escapulário faz homenagem ao cinema mudo.
Não há um diálogo sequer. As cenas são expressivas o suficiente para dar conta do recado. E assim mostram a história de um malandro que se dá bem com as mulheres e, a toda hora, esquece o bendito escapulário que costuma usar. É justamente esse esquecimento que dá margem a outros casos amorosos.
Apesar de mudo, o curta é colorido e feito em câmera digital. O elenco é formado por Tadeu Perone, Jana Mundana, Eloá Petreca e Dig Dutra.

Penépole

Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.
Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba.
Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.
Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.
Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura.   Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o. Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.
— Que vai fazer?
— Queimar.
Não, ele acode.  Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal.
A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.
— Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.
O canto das sereias chega ao coração dos velhos? Esquece o papel no bolso, outra semana passa. No sábado, antes de abrir a porta, sabe da carta à espera. A mulher pisa-a, fingindo que não vê. Ele a apanha e mete no bolso.
Ombros curvados, contando a mesma linha, ela pergunta:
— Não vai ler?
Por cima do jornal admira a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, azuis como no primeiro dia.
— Já sei o que diz.
— Por que não queima?
É um jogo, e exibe a carta: nenhum endereço. Abre-a, duas palavras recortadas. Sopra o envelope, sacode-o sobre o tapete, mais nada. Coleciona-a com a outra e, ao dobrar o jornal, a amiga desmancha um ponto errado na toalhinha.
Acorda no meio da noite, salta da cama, vai olhar à janela. Afasta a cortina, ali na sombra um vulto de homem. Mão crispada, até o outro ir-se embora.
Sábado seguinte, durante o passeio, lhe ocorre: só ele recebe a carta?  Pode ser engano, não tem direção. Ao menos citasse nome, data, um lugar. Range a porta, lá está: azul. No bolso com as outras, abre o jornal. Voltando as folhas, surpreende o rosto debruçado sobre as agulhas. Toalhinha difícil, trabalhada havia meses. Recorda a legenda de Penélope, que desfaz a noite, à luz do archote, as linhas acabadas no dia e assim ganha tempo de seus pretendentes. Cala-se no meio da história: ao marido ausente enganou Penélope? Para quem trançava a mortalha? Continuou a lida nas agulhas após o regresso de Ulisses?
No banheiro fecha a porta, rompe o envelope. Duas palavras… Imagina um plano? Guarda a carta e dentro dela um fio de cabelo. Pendura o paletó no cabide, o papel visível no bolso. A mulher deixa na soleira a garrafa de leite, ele vai-se deitar. Pela manhã examina o envelope: parece intacto, no mesmo lugar. Esquadrinha-o em busca do cabelo branco — não achou.
Desde a rua vigia os passos da mulher dentro de casa. Ela vai encontra-lo no portão — no olho o reflexo da gravata do outro. Ah, erguer-lhe o cabelo da nuca, se não tem sinais de dente… Na ausência dela, abre o guarda-roupa enterra a cabeça nos vestidos. Atrás da cortina espiona os tipos que cruzam a calçada. Conhece o leiteiro e o padeiro, moços, de sorrisos falsos.
Reconstitui os gestos da amiga: pós nos móveis, a terra nos vasos de violetas úmida ou seca… Pela toalhinha marca o tempo. Sabe quantas linhas a mulher tricoteia e quando, errando o ponto, deve desmanchá-lo, antes mesmo de contar na ponta da agulha.
Sem prova contra ela, nunca revelou o fim de Penélope. Enquanto lê, observa o rosto na sombra do abajur. Ao ouvir passos, esgueirando-se na ponta dos pés, espreita à janela: a cortina machucada pela mão raivosa.
Afinal compra um revólver.
— Oh, meu Deus… Para quê? — espanta-se a companheira.
Ele refere o número de ladrões na cidade. Exige conta de antigos presentes. Não fará toalhinhas para o amante vender? No serão, o jornal aberto no joelho, vigia a mulher — o rosto, o vestido — atrás da marca do outro: ela erra o ponto, tem de desmanchar a linha.
Aguarda-o na varanda. Se não a conhecesse, ele passa diante da casa. Na volta, sente os cheiros no ar, corre o dedo sobre os móveis, apalpa a terra das violetas — sabe onde está a mulher.
De madrugada acorda, o travesseiro ainda quente da outra cabeça. Sob a porta, uma luz na sala. Faz o seu tricô, sempre a toalhinha. É Penélope a desfazer na noite o trabalho de mais um dia?
Erguendo os olhos, a mulher dá com o revólver. Batem as agulhas, sem fio. Jamais soube por que a poupou. Assim que se deitam, ele cai em sono profundo.
Havia um primo no passado… Jura em vão, a amiga: o primo aos onze anos morto de tifo. No serão ele retira as cartas do bolso — são muitas, uma de cada sábado — e lê, entre dentes, uma por uma.
Por que não em casa no sábado, atrás da cortina, dar de cara com o maldito? Não, sente falta do bilhete. A correspondência entre o primo e ele, o corno manso; um jogo, onde no fim o vencedor. Um dia tudo o outro revelará, forçoso não interrompê-la.
No portão dá o braço à companheira, não se falam durante o passeio, sem parar diante das vitrinas. De regresso, apanha o envelope e, antes de abri-lo, anda com ele pela casa. Em seguida esconde um cabelo na dobra, deixa-o na mesa.
Acha sempre o cabelo, nunca mais a mulher decifrou as duas palavras. Ou — ele se pergunta, com nova ruga na testa — descobriu a arte de ler sem desmanchar a teia?
Uma tarde abre a porta e aspira o ar. Desliza o dedo sobre os móveis: pó. Tateia a terra dos vasos: seca.
Direto ao quarto de janelas fechadas e acende a luz. A velha ali na cama, revólver na mão, vestido brando ensangüentado. Deixa-a de olho aberto.
Piedade não sente, foi justo. A polícia o manda em paz, longe de casa à hora do suicídio. Quando sai o enterro, comentam os vizinhos a sua dor profunda, não chora. Segurando a alça do caixão, ajuda a baixá-lo na sepultura; antes de o coveiro acabar de cobri-lo, vai-se embora.
Entra na sala, vê a toalhinha na mesa — a toalhinha de tricô. Penélope havia concluído a obra, era a própria mortalha que tecia — o marido em casa.
Acende o abajur de franja verde. Sobre a poltrona, as agulhas cruzadas na cestinha. É sábado, sim. Pessoa alguma lhe pode fazer mal. A mulher pagou pelo crime. Ou — de repente o alarido no peito — acaso inocente? A carta jogada sob outras portas… Por engano na sua.
Um meio de saber, envelhecerá tranqüilo. A ele destinadas, não virão, com a mulher morta, nunca mais. Aquela foi a última — o outro havia tremido ao encontrar porta e janela abertas. Teria visto o carro funerário no portão.   Acompanhado, ninguém sabe, o enterro. Um dos que o acotovelaram ao ser descido o caixão — uma pocinha d’água no fundo da cova.
Sai de casa, como todo sábado. O braço dobrado, hábito de dá-lo à amiga em tantos anos.  Diante da vitrina com vestidos, alguns brancos, o peso da mão dela. Sorri desdenhoso da sua vaidade, ainda morta…
Os dois degraus da varanda — “Fui justo”, repete, “fui justo” —, com mão firme gira a chave.  Abre a porta, pisa na carta e, sentando-se na poltrona, lê o jornal em voz alta para não ouvir os gritos do silêncio.

Teatro

peças, críticas e cobertura de imprensa

Agência Estadual de Notícias

Circuito Cultural Banco do Brasil reapresenta “O Vampiro Contra Curitiba”
Data 06/11/2006 16:20:00 | Editoria: Cultura
Sucesso de público e crítica, o espetáculo “O Vampiro Contra Curitiba”, adaptação teatral de 20 contos de Dalton Trevisan, é um dos destaques do Circuito Cultural Banco do Brasil. A produção da Cia. Máscaras de Teatro será apresentada nesta terça-feira (07), a partir das 21 horas, no Guairinha, com entrada gratuita. Pede-se a doação de 2 quilos de alimentos não-perecíveis que serão encaminhados para entidades assistenciais.
Dirigida por João Luiz Fiani, a produção traz ao palco o universo da capital paranaense sob a perspectiva de Dalton Trevisan, um dos maiores contistas brasileiros. Dalton situa seus personagens em uma Curitiba da qual ele tem saudades, do tempo em que se podia passear tranqüilamente na Rua XV ou na Praça Tiradentes. Ao mesmo tempo, o espetáculo é focado na Curitiba moderna, “feita pra turista ver”, como diz o conto “Curitiba Revisitada”, que abre a peça. Dos 60 contos selecionados, a Cia. Máscaras chegou à seleção final de 20, aprovada pelo próprio autor, que acompanhou de perto os ensaios.
Dalton Trevisan, nasceu em Curitiba, em 1925 e sempre foi enigmático. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em modestíssimos folhetos. Em 1945 lançou seu primeiro livro: Sonata ao Luar; hoje é considerado o maior contista brasileiro, respeitado não só no Brasil, mas também fora dele; pois seus livros já foram traduzidos para o espanhol, inglês, alemão, italiano, polonês e sueco, sendo sucesso em diversos países. Ainda residindo em Curitiba, Dalton encontra-se em plena atividade. Em 2003, seu livro Pico na Veia recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura, considerado hoje o maior prêmio literário do País.
Circuito Cultural – Um dos principais eventos culturais itinerantes do País, o Circuito Cultural Banco do Brasil percorrerá 16 cidades em 2006 levando o melhor da arte e cultura. De abril a dezembro, Belém, Brasília, Belo Horizonte, Teresina, Curitiba, Manaus, Salvador, Anápolis, Florianópolis, Campinas, Rio Branco, Londrina, Porto Alegre, Ribeirão Preto, Recife e Governador Valadares recebem eventos musicais, de artes cênicas (teatro e dança), exposições (artes plásticas e fotografia), programas educativos (oficinas, seminários, palestras etc.) e mostras audiovisuais.
Com uma mescla de artistas locais e consagrados, o Circuito colabora para a democratização do acesso à cultura ao oferecer atrações de relevância nacional e internacional, gratuitas ou a preços populares, a diversas cidades do Brasil. Parte da bilheteria e a totalidade dos alimentos arrecadados em cada etapa são revertidos a programas sociais. Tendo cumprido 121 etapas desde 1999, o Circuito Cultural já percorreu 32 cidades e recebeu um público de mais de 1,2 milhão de pessoas.
Fonte:
http://www.aenoticias.pr.gov.br/modules/news/print.php?storyid=24224

Centro Cultural Fiesp

TEATRO POPULAR DO SESI
Educação Sentimental do Vampiro
(confira a ficha técnica)
Educação Sentimental do Vampiro é um intenso e bem-humorado apanhado dos personagens do escritor curitibano Dalton Trevisan. Com direção de Felipe Hirsch e produção da Sutil Companhia de Teatro, o espetáculo faz uma viagem pelos textos do autor, considerado um dos mais importantes da literatura brasileira do século 20.
Felipe Hirsch idealizou um trabalho artístico contemporâneo e repleto de emoções no qual o espectador é confrontado com um universo extremamente rico e divertido, construído a partir de idéias que incorporam um feixe de relações mitológicas, memorialísticas e psicológicas.
O humor de Educação Sentimental do Vampiro é cáustico, elegante e reflete muito bem o mundo de Dalton Trevisan, atualmente com 81 anos, aclamado autor de contos publicados numa vasta lista de livros, entre eles O Vampiro de Curitiba, que acabou lhe rendendo igual apelido pelo fato de levar uma vida social nada intensa.
Para este espetáculo, Hirsch e a Sutil Companhia de Teatro convidaram a cenógrafa Daniela Thomas, o iluminador Beto Bruel e os músicos Rodrigo Barros Homem Del Rei e L.A. Ferreira – antigo integrante da banda punk curitibana Beijo aa Força –, responsáveis pela montagem de samplers e criação da trilha sonora original.
O diretor ressalta que a encenação se apóia na força dos textos de um escritor brilhante como Dalton Trevisan, na sintonia dos atores e na justificativa rara de uma montagem teatral que tem como preocupação levar à cena uma peça de qualidade e ao mesmo tempo tocante para todo público.
Sobre o Autor – Dalton Trevisan
“O que não me contam eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo.”
Dalton Trevisan
Dalton Trevisan transformou a literatura latino-americana em uma das mais experimentais da atualidade. Suas epifanias atingem a revelação das personagens de Maupassant e Tchekhov. A reação que se tem ao ler Trevisan é uma espécie de raiva. Raiva da perfeição do escritor, de sua absoluta invisibilidade moral, quando sabemos que ele deve estar espreitando, escondido atrás de seu genial estilo”. The New York Times Review
Recluso, Dalton Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não cede o número do telefone, assina apenas “D. Trevis” e não recebe visitas — nem mesmo de artistas consagrados. Incorrigível arredio, se enclausura em casa de tal forma que mereceu o apelido de O Vampiro de Curitiba, título de um de seus livros.
Fazendo jus à lenda de seu dono, a casa onde mora é de construção antiga, com paredes cinzentas desbotadas, sótão, cortininhas desajeitadas em todas as janelas. Ela é parte de um cenário que desaparece rapidamente na moderna cidade planejada. Isolado dos intelectuais, a partir dos habitantes da cidade, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular.
Nascido em 14 de junho de 1925, o curitibano Dalton Jérson Trevisan sempre foi misterioso. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em folhetos. Em 1945, estreou com um livro de qualidade incomum, Sonata ao Luar, e, no ano seguinte, publicou Sete Anos de Pastor. Dalton renega os dois. Declara não possuir um exemplar sequer dos livros e “felizmente já esqueci aquela barbaridade”.
Feita de lendas que ele nunca se dispôs a desmentir, a reputação do Vampiro segue crescendo em mistério, a despeito dos tempos modernos que assolam Curitiba. De concreto, sabe-se que estudou Direito, trabalhou como repórter policial e crítico de cinema, foi casado e tem duas filhas (a mulher, Yole, morreu aos 66 anos).
Contos de Dalton Trevisan usados no espetáculo:
Uma Vela para Dario, Noite da Paixão, Lição de Anatomia, Três Tiros na Tarde, A Filha Perdida, Haikai, Debaixo da Ponte Preta, Morre Desgraçado, 37 Noites de Paixão, Onde Estão os Natais de Antanho?, O Almoço de Natal, Balada das Mocinhas do Passeio, Paixão e Agonia da Cigarra, Abigail, Senhor, Bichos da Noite, O Plano.
Local
Teatro Popular do SESI
Data
De 11/04/07 a 18/11/07 *
Horário
Quarta a Domingo às 20h
Duração
120 minutos
Gênero
Tragicomédia
Capacidade
456 lugares
Ingressos
Entrada franca às quartas, quintas e domingos. Sextas e sábados preço promocional R$ 3,00 (promoção não cumulativa – não dá direito a meia entrada). Vendas na bilheteria do teatro ou pela Ticketmaster, (11) 6846-6000 ou www.ticketmaster.com.br. Para os dias gratuitos, os ingressos podem ser retirados a partir da abertura da bilheteria, no dia do espetáculo. São distribuídos dois ingressos por pessoa.
(Confira os horários da bilheteria)
Reserva
para escolas (sessões de quarta e quinta-feira) 11 3146-7439, de segunda a sexta-feira, das 14h às 17h
Reserva para funcionários da indústria
11 3146-7396, de segunda a sexta-feira, das 10h às 13h e das 14h às 17h
Indicação Etária
Espetáculo não recomendado para menores de 16 anos. Será permitida a entrada do menor somente acompanhado dos pais ou responsável legal após preenchimento de um termo de autorização.
Fonte:
www.sesisp.org.br/home/2006/centrocultural/Prog_teatro_vampiro.asp

Daniel Piza

Graphic Dalton
por Daniel Piza, Seção: teatro às 10:43:34.
A peça “Educação Sentimental do Vampiro”, dirigida por Felipe Hirsch com textos de Dalton Trevisan, é muito boa. O universo de taras, crimes e violências do Vampiro de Curitiba é traduzido numa linguagem gráfica bem apropriada, que é o elo entre diretor e autor. A encenação parece mistura de graphic novel (romances em HQ) com filme noir, cheia de ousadias no trabalho dos atores, da cenografia e da iluminação, para não falar da trilha sonora (que vai de Bartók e Schoenberg a bolero e tango). A seqüência do cinema é memorável, e também aquela em que Nelsinho (Guilherme Weber, ótimo como todo o elenco da Sutil Companhia de Teatro) tenta vencer a impotência. Piadas e histórias breves se alternam com as mais longas, por isso em raros momentos a atenção se perde.
Experimental e popular ao mesmo tempo, a montagem nos faz pensar num Nelson Rodrigues visto por Gerald Thomas, mas sem moralismo nem pedantismo. Em Dalton, as chamadas perversões não são busca de redenção; são inextricáveis do ser humano, como um daltonismo moral. Dessa terra e desse estrume é que nasceu esse verbo.
Fonte:
http://blog.estadao.com.br/blog/piza/?title=graphic_dalton&more=1&c=1&tb=1&pb=1

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O Vampiro Contra Curitiba
Teatro Lala Schneider
Rua 13 de Maio, 629 – Centro
A Peça
O universo da Curitiba de Dalton Trevisan é proposto através de trechos de 18 contos (“Ezequiel”, “O Fantasma”, “A Festa é Você”, “O Perdedor”, “Vestido Vermelho”, entre outros) escolhidos pelo próprio autor. Drama, erotismo, comédia e tragédia são visitados a partir de personagens marcantes criados por Trevisan, como Nelsinho, Dinorá e a Polaquinha.
Dalton Trevisan, nasceu em Curitiba, em 1925 e sempre foi enigmático. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em modestíssimos folhetos. Em 1945 lançou seu primeiro livro: “Sonata ao Lua”; hoje é considerado o maior contista brasileiro, respeitado não só no Brasil, mas também fora dele; pois seus livros já foram traduzidos para o espanhol, inglês, alemão, italiano, polonês e sueco, sendo sucesso em diversos países.
Muitas foram as atrações da última edição do Festival de Teatro de Curitiba, porém algumas foram aguardadas com mais ansiedade. Certamente uma delas foi o espetáculo “O Vampiro Contra Curitiba”, produção da Cia. Máscaras de Teatro, de Curitiba, dirigida por João Luiz Fiani, onde são apresentados, na íntegra e sem adaptações, 18 contos de Dalton Trevisan, considerado pela crítica literária especializada, o maior contista brasileiro. Após o FTC o espetáculo permaneceu em cartaz ininterruptamente por 6 meses.
“O espetáculo foi montado a partir de contos selecionados pelo próprio Dalton. No início partimos de cerca de 60 contos indicados pelo autor, os quais fomos estudando e discutindo um a um, até chegarmos à seleção final; esta seleção foi novamente submetida à aprovação do Dalton e com a aprovação final dele, partimos para os ensaios propriamente ditos”, explica João Luiz Fiani, diretor do espetáculo.
O universo de Dalton Trevisan é riquíssimo, personagens dotados de grande magia, mas ao mesmo tempo absolutamente simples, com os sentimentos mais normais de qualquer ser humano. Dalton situa seus personagens em uma Curitiba da qual ele tem saudades, do tempo em que se podia passear tranqüilamente na Rua XV ou na Praça Tiradentes, porém também é focada a Curitiba, moderna “feita pra turista ver”, nas palavras do conto “Curitiba Revisitada”, que abre o espetáculo.
“Para nós do elenco, está sendo uma oportunidade única à qual estamos nos abraçando com intensa paixão e uma entrega total, pois são personagens muito ricos e fortes, em histórias intensas e ao mesmo tempo simples e por isso mesmo tão difíceis de se representar com naturalidade. Um grande desafio, pois não é um espetáculo comum, e estamos nos esforçando para dar o melhor de nós”, diz Marino Jr., refletindo a sensação de responsabilidade que todo o elenco tem para com o espetáculo. “O Dalton assistiu nossos ensaios e, portanto, temos a certeza de que nossa montagem está agradando ao mais alto padrão de exigência, então o público só pode esperar o melhor”, complementa Marino.
Datas e Horários
Domingo, 03/06/2007 – 18h30
Domingo, 10/06/2007 – 18h30
Domingo, 17/06/2007 – 18h30
Domingo, 24/06/2007 – 18h30
Domingo, 01/07/2007 – 18h30
Ficha Técnica
Companhia: Cia. Máscaras de Teatro
Autor: Dalton Trevisan
Direção: João Luiz Fiani
Elenco: Marino Jr, Jader Alves, Marcyo Luz, Juliana Biancato, Sônia Bacila, Mônia Sartor, Laryssa Neufeldt, Glaudiane Krul
Gênero: Tragicomédia
Duração: 70 min.
Ingressos
Preços: R$ 20,00, R$ 15,00 (bônus) e R$ 10,00 (estudantes e idosos)
Fonte:
http://www.descubracuritiba.com.br/?s=teatro&ss=peca&id=228

Felipe Hirsch

TEATRO POPULAR DO SESI APRESENTA NOVO ESPETÁCULO DE FELIPE HIRSCH
Educação Sentimental do Vampiro , baseada em textos de Dalton Trevisan, é a quarta montagem do diretor e da Sutil Companhia de Teatro produzida pelo SESI-SP.
São Paulo, 5/04/2007 – Em 11 de abril estréia mais uma produção inédita do Teatro Popular do Sesi. O espetáculo Educação Sentimental do Vampiro é a primeira montagem que a Sutil Companhia de Teatro faz baseada em um autor brasileiro. A peça fica em cartaz no Teatro Popular do Sesi, de quarta-feira a domingo, até novembro. Às quartas-feiras, quintas-feiras e domingos a entrada é franca. Na sexta-feira e sábado, os ingressos têm preço popular de R$ 3.
Conhecido como O Vampiro de Curitiba , Dalton Trevisan teve 18 contos – de seus quase 40 livros – adaptados para o palco. “Essa peça começou a ser criada há um ano e meio. Mas, é claro, começou a ser criada quando pisei em Curitiba pela primeira vez, em 1980. Morei minha vida por aqui. Do belo centro da minha juventude, de lugares conhecidos por Boca Maldita ou Rua das Flores, até a minha casa, é certo, sempre passar pela casa cinzenta de esquina onde mora o Vampiro”, comenta o diretor Felipe Hirsch.
Os ensaios começaram em dezembro de 2006, em Curitiba. Daniela Thomas repete a parceria com a Sutil e assina mais uma vez a cenografia. No elenco estão Erica Migon, Guilherme Weber, Jorge Emil, Luiz Damasceno, Magali Biff, Maureen Miranda e Zeca Cenovicz. No início do próximo ano, a companhia – fundada em Curitiba – completa 15 anos de carreira.
“Percebo claramente quatro fases distintas na Companhia. A primeira era dividida entre trabalhos solo do Guilherme e recriações de clássicos. Na segunda fase, estudamos profundamente os caminhos da memória. O choque dos cortes de tempo e espaço induzidos pela narrativa de memória e o choque dessa linguagem rápida com a interpretação naturalista é a principal característica da Sutil Companhia nesta fase, da qual eu destaco ‘A Vida é Cheia de Som & Fúria’ (2000)”, comenta Felipe Hirsch.
O diretor assinala que a memória é até hoje usada como ferramenta. A terceira fase marca a chegada da cenógrafa Daniela Thomas e a montagem de “Os solitários” (2002). O agora veio com ‘Temporada de Gripe’, produzida pelo SESI em 2003. “Ela nos colocou no caminho das obras inéditas, que podem ser inspiradas em um tema racional ou até instintivo. Depois disso, uma conexão com minha juventude, Avenida Dropsie (2005 – também produzida pelo SESI) e o que acho o mais emocionalmente impactante trabalho da Companhia: O Castelo do Barba Azul (2006), ainda inédito em São Paulo”.
Para Felipe, que hoje mora em São Paulo, escolher a obra de Dalton Trevisan foi “simples como recolher um livro caído na calçada da frente da sua casa”. Educação Sentimental do Vampiro é o primeiro trabalho da Sutil Companhia com texto de um autor brasileiro (excluindo os inéditos desenvolvidos pela própria Companhia). O cenário do espetáculo usa imagens de trabalhos do artista plástico Raul Cruz, morto precocemente. Cenógrafo premiado, Raul foi influenciado pelo ambiente de Dalton Trevisan e produziu uma série de linoleogravuras, que agora chegam ao palco.

Sobre Dalton Trevisan

“O que não me contam eu escuto atrás das portas. O que não sei, adivinho e, com sorte, você adivinha sempre o que, cedo ou tarde, acaba acontecendo.”
Dalton Trevisan

“Dalton Trevisan transformou a literatura latino-americana em uma das mais experimentais da atualidade. Suas epifanias atingem a revelação das personagens de Maupassant e Tchekhov. A reação que se tem ao ler Trevisan é uma espécie de raiva. Raiva da perfeição do escritor, de sua absoluta invisibilidade moral, quando sabemos que ele deve estar espreitando, escondido atrás de seu genial estilo”.
The New York Times Review

Recluso, Dalton Trevisan continua recusando a fama. Cria uma atmosfera de suspense em torno de seu nome que o transforma num enigmático personagem. Não cede o número do telefone, assina apenas “D. Trevis” e não recebe visitas — nem mesmo de artistas consagrados. Incorrigível arredio, se enclausura em casa de tal forma que mereceu o apelido de O Vampiro de Curitiba, título de um de seus livros.
Fazendo jus à lenda de seu dono, a casa onde mora é de construção antiga, com paredes cinzentas desbotadas, sótão, cortininhas desajeitadas em todas as janelas. Ela é parte de um cenário que desaparece rapidamente na moderna cidade planejada. Isolado dos intelectuais, a partir dos habitantes da cidade, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular.
Nascido em 14 de junho de 1925, o curitibano Dalton Jérson Trevisan sempre foi misterioso. Antes de chegar ao grande público, quando ainda era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em folhetos. Em 1945 estreou com um livro de qualidade incomum, “Sonata ao Luar”, e, no ano seguinte, publicou “Sete Anos de Pastor”. Dalton renega os dois. Declara não possuir um exemplar sequer dos livros e “felizmente já esqueci aquela barbaridade”.
Feita de lendas que ele nunca se dispôs a desmentir, a reputação do Vampiro segue crescendo em mistério, a despeito dos tempos modernos que assolam Curitiba. De concreto, sabe-se que estudou Direito, trabalhou como repórter policial e crítico de cinema, foi casado e tem duas filhas (a mulher, Yole, morreu aos 66 anos).

Contos de Dalton Trevisan usados no espetáculo:

Uma Vela para Dario, Noite da Paixão, Lição de Anatomia, Três Tiros na Tarde, A Filha Perdida, Haikai, Debaixo da Ponte Preta, Morre Desgraçado, 37 Noites de Paixão, Onde Estão os Natais de Antanho?, O Almoço de Natal, Balada das Mocinhas do Passeio, Paixão e Agonia da Cigarra, Abigail, Senhor, Bichos da Noite, O Plano.

FICHA TÉCNICA

Educação Sentimental do Vampiro
De Dalton Trevisan
Direção Geral: Felipe Hirsch
Elenco: Erica Migon, Guilherme Weber, Jorge Emil, Luiz Damasceno, Magali Biff, Maureen Miranda e Zeca Cenovicz
Cenografia: Daniela Thomas
Figurinos: Veronica Julian
Iluminação: Jorginho de Carvalho
Trilha Sonora Original e Edição de Trilha Sonora: Rodrigo Barros Homem Del Rei e L. A. Ferreira
Trilha Sonora Pesquisada: Felipe Hirsch e Murilo Hauser
Diretor Assistente: Murilo Hauser
Co-Criação: Guilherme Weber e Erica Migon
Equipe de Projeções e Design Gráfico: Ricardo Fernandes e Frederico Freitas
Obras usadas nas Projeções e no Design Gráfico: Raul Cruz (Linóleogravuras)
Assistentes de Cenografia: Iara Terze e Tânia Nenecuti
Construção do Cenário: Jotapupe
Cenotécnico Responsável: Lázaro Batista Ferreira
Equipe de Cenotécnica Tour: Sergio Richter e Anderson Quinsler
Produção de Objetos: Marcio Murilo Tesserolli
Assistente de Figurino: Sarina Sena e Foquinha
Visagismo: Emi Nagano
Operadora Responsável e Assistência de Iluminação (Iluminação e Vídeo) Sarah Salgado
Operador de Sonoplastia: Guto Gevaerd
Fotografias: Carol Sachs
Assistente de Produção Sutil Companhia: Mônica Placha e Rodrigo Fornos
Assistente de Produção São Paulo: Thiago Cavalli
Colaboração de Produção: Marcelo Contin
Direção de Produção: Nena Inoue
Criação: Sutil Companhia de Teatro
Realização: Teatro Popular do Sesi
SERVIÇO
Espetáculo: Educação Sentimental do Vampiro
Local: Teatro Popular do SESI – Avenida Paulista, 1313 – Metrô Trianon-Masp
Temporada: de 11/04 a 18/11 de 2007 – de quarta a domingo, às 20 horas.
Duração: 150 minutos
Recomendação etária: espetáculo não recomendado para menores de 16 anos.
Capacidade: 456 lugares
Informações: (11) 3146-7405 / (11) 3146-7406
Entrada: R$ 3, às sextas-feiras e sábados; e franca, às quartas-feiras, quintas-feiras e domingos – A distribuição dos ingressos tem início a partir da abertura da bilheteria no mesmo dia do evento – Horário de funcionamento da bilheteria: quarta-feira, das 12 às 20 horas; quinta-feira, sexta-feira e sábado, das 12h às 20h30; domingo, das 11h às 19h30. São distribuídos dois ingressos por pessoa.

SESI-SP e SENAI-SP / FIESP www.sesisp.org.br e www.sp.senai.br
Jornalistas Responsáveis: Evelyne Lorenzetti (MTb. 42.375) e Rosângela Gallardo (MTb. 23.025).
Apoio de atendimento: Ligia Juliano
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Vanessa Cardoso
In Cena Assessoria de Imprensa.
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Guia Curitiba

O Vampiro Contra Curitiba
Muitas foram as atrações da edição de 2006 do Festival de Teatro de Curitiba (FTC), porém algumas foram aguardadas com mais ansiedade. Certamente uma delas foi o espetáculo “O Vampiro Contra Curitiba”, produção da Cia. Máscaras de Teatro, de Curitiba, dirigida por João Luiz Fiani, onde são apresentados, 18 contos de Dalton Trevisan, considerado pela crítica literária especializada, o maior contista brasileiro. O espetáculo foi absoluto sucesso naquela ocasião, seguindo em temporada por mais de seis meses.
Tanto sucesso, trouxe o “Vampiro” novamente aos palcos do FTC em 2007, onde o espetáculo fez duas apresentações com lotação esgotada e retorna agora para nova temporada em horário alternativo no Teatro Lala Schneider, somente aos domingos às 18h30.
“O espetáculo foi montado a partir de contos selecionados pelo próprio Dalton e com a aprovação final dele, partimos para os ensaios propriamente ditos”, explica João Luiz Fiani, diretor do espetáculo.
O universo de Dalton Trevisan é riquíssimo, personagens dotados de grande magia, mas ao mesmo tempo absolutamente simples, com os sentimentos mais normais de qualquer ser humano. Dalton situa seus personagens em uma Curitiba da qual ele tem saudades, do tempo em que se podia passear tranqüilamente na Rua XV ou na Praça Tiradentes, porém também é focada a Curitiba, moderna “feita pra turista ver”, nas palavras do conto “Curitiba Revisitada”, que abre o espetáculo.
– Serviço:
Onde: Teatro Lala Schneider.
Rua 13 de maio, 629.
Ingressos:
R$ 20,00 ,
R$ 15,00 (bônus) e
R$ 10,00 (estudantes e idosos).
Informações: 3232-8108
Fonte:
http://www.guiacuritiba.com.br/noticias/noticiasVer.php?id=1695

João Luiz Fiani

Formou-se pelo Curso Permanente de Teatro do Teatro Guaíra. Tem em seu currículo alguns dos mais importantes espetáculos do teatro paranaense. Trabalhou com importantes diretores como: Ademar Guerra, Oraci Gemba, Oswaldo Mendes, Ivone Hoffmann, Lala Schneider entre outros. Esteve como ator em: “Zumbi”, “Colônia Cecília” “Mistérios de Curitiba” e ”Carrasco Do Sol” e “O Mágico de Oz”, “Noite na Taverna”, “O Vampiro e a Polaquinha”, “O Inimigo do Povo”, “Gritaria nos Muros da Cidade” entre outros. Dirigiu mais de 50 espetáculos em Curitiba entre produções profissionais, amadoras, próprias e para outras companhias. Escreveu mais de 70 textos para o teatro entre infantis, comédias e dramas. Criou e mantém a Fundação Teatro Lala Schneider em Curitiba. Vencedor do Troféu Gralha Azul Prêmio Governador do Estado do Paraná como Melhor Diretor de 1999. Recentemente realizou a adaptação e a direção de “O VAMPIRO CONTRA CURITIBA” de Dalton Trevisan o maior contista vivo brasileiro.

Luiz Henrique Pellanca

MAIS PERTO
Hoje, no palco do Guaíra, uma das peças mais bem-sucedidas do ano
Dirigida por Hector Babenco, Mais Perto traz no elenco astros da televisão, como José Mayer e Renata Sorrah, e nomes revelados no teatro, como Guta Stresser, de O Vampiro e a Polaquinha
Luis Henrique Pellanda
A montagem é uma das mais bem-sucedidas do ano. Marca a volta do cineasta Hector Babenco à direção teatral. Tem artistas da Globo no elenco. Gringo Cardia, que hoje tem sua imagem associada à MTV, é o cenógrafo. E ainda há um motivo extra para interesse: Guta Stresser, responsável pelo maior sucesso de bilheteria da história do teatro curitibano. Ela foi a primeira atriz a interpretar a protagonista de O Vampiro e a Polaquinha, baseada na obra de Dalton Trevisan. Guta começou a carreira trabalhando com Felipe Hirsch, diretor de A Vida é Cheia de Som e Fúria. Depois do sucesso sob a direção de Adhemar Guerra, trabalhou muito tempo com Antônio Abujamra. Não são muitas as oportunidades de vê-la por aqui. O texto, do inglês Patrick Marber, conta a história de quatro desconhecidos que se encontram em Londres. Apaixonam-se e traem-se mutuamente enquanto buscam no amor maiores possibilidades de satisfação.
Mais Perto. Teatro Guaíra. Praça Santos Andrade, s/n, Centro % 200-1993. Sexta (17) e sábado (18), às 21h. Ingressos: R$ 25,00 (platéia), R$ 20,00(1° balcão) e R$ 15,00 (2° balcão).
Fonte:
http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=281&textCode=4775¤tDate=974448509000

O vampiro está de volta

O Vampiro está de volta
Após estrear no Festival de Teatro de Curitiba (FTC), de 2006 com absoluto sucesso, seguindo em temporada por mais de seis meses, o espetáculo “O Vampiro Contra Curitiba”, retornou aos palcos do FTC em 2007 , onde fez duas apresentações com lotação esgotada e retorna agora para nova temporada em horário alternativo no Teatro Lala Schneider, somente aos domingos às 18h30. O espetáculo é uma produção da Cia. Máscaras de Teatro, de Curitiba, onde são apresentados, 18 contos de Dalton Trevisan, considerado pela crítica literária especializada, o maior contista brasileiro. “O espetáculo foi montado a partir de contos selecionados pelo próprio Dalton e com a aprovação final dele, partimos para os ensaios propriamente ditos, os quais foram acompanhados de perto pelo Dalton”, explica Marino Jr. um dos atores do elenco. O universo de Dalton Trevisan é riquíssimo, personagens dotados de grande magia, mas ao mesmo tempo absolutamente simples, com os sentimentos mais normais de qualquer ser humano. Dalton situa seus personagens em uma Curitiba da qual ele tem saudades, do tempo em que se podia passear tranqüilamente na Rua XV ou na Praça Tiradentes, porém também é focada a Curitiba, moderna “feita pra turista ver”, nas palavras do conto “Curitiba Revisitada”, que abre o espetáculo. O Vampiro Contra Curitiba estréia neste domingo (22), no Teatro Lala Schneider, às 18h30 devendo permanecer em cartaz por, no mínimo 02 meses. No elenco, alguns dos principais talentos do teatro Curitibano: além de Marino Jr., estão em cena, Jader Alves, Mônia Sartor, Marcyo Luz, Sônia Bacila, Glaudiane Krul, Juliana Biancato e Laryssa Neufeldt.
Serviço
O VAMPIRO CONTRA CURITIBA – Contos de Dalton Trevisan
Somente aos domingos – 18h30
Teatro Lala Schneider – Rua 13 de maio, 629.
Ingressos: R$ 20,00 e R$ 10,00 (estudante) – Inf.: 3232 4499 – www.teatrolala.com
Fonte:
http://www.bemparana.com.br/index.php?VjFSQ1VtUXlWa1pqU0ZKUFVrZDRUMWxYZUZabGJGSjBZMGR3YVZadVFsWlVWV2gzVlVaRmVHTkVXbFpTYkVwUFZHeFZNVTB4UWxWTlJEQTk=

Vanessa Medeiros

Educação Sentimental do Vampiro
Saber dar um salto no escuro
Por Vanessa Medeiros, do Sagomadarrea
Reprodução
Dalton Trevisan é conhecido pela crítica literária como um dos maiores contistas vivos do país. Aos 82 anos, publicou diversas antologias de contos que retratam, como objeto principal, a capital do Paraná ? Curitiba ?, cidade onde o autor nasceu e passou a maior parte de sua vida.
Recluso e totalmente avesso a contatos com o público, Trevisan foi apelidado de O Vampiro de Curitiba, expressão que é título de um de seus livros. Seus textos emprestam ao lugar uma névoa sombria, que é destada pela prosa seca e minimalista, e pelos tipos enigmáticos que rondam a cidade.
Há alguns anos, um diretor carioca com alma de curitibano resolveu mergulhar no universo deste misterioso autor. Felipe Hirsh, fundador da Sutil Companhia de Teatro, leva aos palcos, como resultado, o espetáculo A Educação Sentimental do Vampiro, em cartaz no Teatro Popular do SESI, em São Paulo.
A peça é uma reunião de diversos contos do escritor, que têm como foco os traços de melancolia do cotidiano; pinta um desenho sombrio de seus personagens. Hirsh, também responsável pela direção de O Avarento, com Paulo Autran, costuma citar como definição adequada para Curitiba a seguinte frase de Paulo Leminski: ?Beber em Curitiba é auto-defesa?.
A Sutil Companhia costuma desenvolver com muita habilidade adaptações de outros autores. Uma das principais características de Avenida Dropsie, peça que foi ao cartaz em 2005, era a competência com que a equipe de Felipe e do ator Guilherme Weber, co-fundador da trupe, conseguiu adentrar a obra do desenhista de quadrinhos americano Will Weisner.
Parte deste processo de imersão é o cenário de Daniela Thomas, a carioca de 48 anos responsável pela chuva cênica de Dropsie e, desta vez, pelo incrível jogo de espelhos e projeções que dão suporte ao time de atores e acentuam a dinâmica do espetáculo.
Para contar as histórias de Trevisan, Felipe optou pela presença de um narrador onipresente, tal como o escritor fixou seus contos. A escolha permite que a peça trilhe alguns caminhos menos introspectivos que a literatura de Dalton. O texto narrado mantém-se fiel à pena do escritor. Felipe, no entanto, pontua e alarga os momentos cômicos, transpondo para o palco um humor irônico, seco, muito característico da Sutil.
A Educação Sentimental do Vampiro é mais um passo acertado na trajetória da companhia. Hirsh prova que a maior qualidade de seu grupo é saber a hora e a maneira certa de dar um salto no escuro. O que faz seus espetáculos figurarem entre as montagens mais premiadas de São Paulo, todos os anos, é uma reunião de elementos elogiáveis: a técnica apurada da equipe, uma potência criativa que parece inesgotável, e o mergulho no tema.
Ainda para este ano, em julho, Felipe comemora 15 anos de sua companhia com um festival que vai rememorar a história do grupo. A oportunidade é única para estar frente a frente com um processo de evolução que, a julgar pelo último trabalho, merece toda atenção.
Fonte:
http://www.facasper.com.br/cultura/site/critica.php?tabela=&id=99

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